quando você era criança a coisa veio te visitar, com berros ensurdecedores e uma presença nociva, no início apenas de noite, depois no final da tarde e então logo de manhã, sua mãe dizia 'não tem nada aqui', você realmente não a via mas sabia. Você dormiu e quando acordou, a coisa tinha ido embora.
Você cresceu e chegou á adolescência, a coisa voltou, não só uma mas várias vezes, te abraçou inclusive e foi a única que esteve ao seu lado. As palavras que dizia no seu ouvido ninguém jamais poderia dizer com tanta veracidade. Um dia você abriu a janela, tinha um jardim lá, sem flor nenhuma, você não sorriu mas se sentiu bem. Virou para o quarto, a coisa tinha partido.
Você amadureceu, arranjou um emprego, um amante, um partido político e uma religião. Um dia dormiu e quando acordou a coisa estava lá de novo. Só que mais fria, não berrava mais, parecia inofensiva até, não se moveu nem um instante. Você viu os dias passarem e a coisa esteve presente em todos eles. Quando se entregava aos prantos e ao calor da cama, a coisa nem uma palavra dizia mas olhava sem piscar, para dentro do seu rosto. A coisa te tomou por completo sem sequer se mexer. O seu amante se cansou da sua coisa. A coisa te fez se cansar do seu trabalho. A sua religião não atendia ás necessidades da coisa. O seu partido desconhecia a coisa. A coisa crescia, você diminuia. A coisa silenciava, você gritava. Você chorava, a coisa sorria. Um dia você dormiu, quando acordou sentiu uma coisa.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
segunda-feira
na segunda feira os sons são todos abafados e o ouvido é surdo. A boca se abre, os braços caem, os pés se tocam, os olhos se fecham. Uma mulher vestida de azul abre a porta da sua casa e observa a rua esperando alguém passar. Passa uma senhora, de braços caídos. A mulher diz olá, a velha sorri.
terça-feira
uma bola do tamanho de um pêssego percorre o caminho da avenida até a mata e entra por um buraco. Uma raposa que mora lá dentro parece feliz ao vê-la. Pega a bola com suas patas, caminha até o fundo da toca e a joga na direção de três raposinhas do tamanho de um vagalume. Estão mortas. Alguém cobre o buraco com terra.
quarta-feira
três garotas acordam ás oito da manhã, põem seus melhores vestidos, e os melhores sapatos, fazem os melhores laços no cabelo. Laço amarelo, laço vermelho, laço torto. Vão se sentar no banco da praça. Três outras garotas estão sentadas no banco logo á frente. Com seus melhores vestidos, melhores sapatos, melhores laços e um aspecto mais agradável.
quinta-feira
uma mãe sozinha chora na cozinha, segurando uma faca, segurando um peixe. O filho pequeno entra pela porta, observa a mulher, estranha, sente medo. A mãe chora o tempo todo e quando tenta gritar, mia. O filho vai até o quarto, toca as paredes suavemente e deixa deslizar as unhas até perdê-las. Pega um espelho. Dá á mãe. A mãe olha. O filho a pega no colo.
sexta-feira
o homem se levanta da queda, contorna o olho com uma cor escura, deixa os cabelos caírem nos olhos. Morde o lábio inferior, veste seu casaco novo com cheiro de velho. Pára na frente do espelho, pergunta algo numa língua estranha. Encosta o polegar na maçã do rosto, olha para os lados, abaixa a cabeça, vai até o armário, usa o perfume que ainda não pagou, volta para o espelho, bagunça o cabelo, sorri, faz expressão de apatia, de superioridade, de carência, de solidão, de volúpia. Tira o casaco, a maquiagem, massageia os cabelos, vai dormir. O cheiro fica até o dia seguinte
na segunda feira os sons são todos abafados e o ouvido é surdo. A boca se abre, os braços caem, os pés se tocam, os olhos se fecham. Uma mulher vestida de azul abre a porta da sua casa e observa a rua esperando alguém passar. Passa uma senhora, de braços caídos. A mulher diz olá, a velha sorri.
terça-feira
uma bola do tamanho de um pêssego percorre o caminho da avenida até a mata e entra por um buraco. Uma raposa que mora lá dentro parece feliz ao vê-la. Pega a bola com suas patas, caminha até o fundo da toca e a joga na direção de três raposinhas do tamanho de um vagalume. Estão mortas. Alguém cobre o buraco com terra.
quarta-feira
três garotas acordam ás oito da manhã, põem seus melhores vestidos, e os melhores sapatos, fazem os melhores laços no cabelo. Laço amarelo, laço vermelho, laço torto. Vão se sentar no banco da praça. Três outras garotas estão sentadas no banco logo á frente. Com seus melhores vestidos, melhores sapatos, melhores laços e um aspecto mais agradável.
quinta-feira
uma mãe sozinha chora na cozinha, segurando uma faca, segurando um peixe. O filho pequeno entra pela porta, observa a mulher, estranha, sente medo. A mãe chora o tempo todo e quando tenta gritar, mia. O filho vai até o quarto, toca as paredes suavemente e deixa deslizar as unhas até perdê-las. Pega um espelho. Dá á mãe. A mãe olha. O filho a pega no colo.
sexta-feira
o homem se levanta da queda, contorna o olho com uma cor escura, deixa os cabelos caírem nos olhos. Morde o lábio inferior, veste seu casaco novo com cheiro de velho. Pára na frente do espelho, pergunta algo numa língua estranha. Encosta o polegar na maçã do rosto, olha para os lados, abaixa a cabeça, vai até o armário, usa o perfume que ainda não pagou, volta para o espelho, bagunça o cabelo, sorri, faz expressão de apatia, de superioridade, de carência, de solidão, de volúpia. Tira o casaco, a maquiagem, massageia os cabelos, vai dormir. O cheiro fica até o dia seguinte
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
muito se fala sobre a porta e sobre a pessoa que chora á sua frente. Se fala bastante também sobre atravessar o tempo, sobre atravessar a matéria, sobre andar em círculos até atingir o buraco.
Alguns realmente comentam sobre o que há do outro lado, alguns realmente vivem lá, e sorriem. E o outro lado é lá, aqui é o lado onde não estou.
Bate á porta:
quem é?
me deixa entrar
Entra:
seu sofá, me sento nele. Seu quadro na parede, entro nele. Sou seu quadro, sou seus olhos o observando, sou sua mente se distraindo, sou o quarto em que você entra, sou a cama em que você deita, o travesseiro em que você sonha, sou os pés que paralisam, a mão que afaga o lençol, o nada que absorve, a boca que mordisca, a brisa que balança seus cabelos e o calafrio. Sou o quadro, sou os olhos que me olham. Saio do quadro, sou a mão que toca meus braços, sou meus braços e sou você. Caminho até o quarto, você na cama, afagando o nada e absorvendo a brisa. Entro no armário, você mora ali, te dou as mãos, sou as mãos. Você me segue, abrimos um caminho, com pedras. Não, com bolhas, bolhas com cores frias, que se tornam cores quentes que se tornam insetos minusculos, que se tornam tigres do tamanho de formigas, que voam em direção ao céu e se tornam nuvens também. Sou a nuvem, te vejo só afagando as bolhas, tropeçando no caminho, absorvendo as formigas, beijando a parede, deitado na parede olhando para as nuvens. Sou o céu, a nuvem ri, eu grito, você chora e ri depois. Eu desço, encontro o caminho, vejo pegadas, pego as pegadas, afago as pegadas, cheiro as pegadas. Cheiro de nada. Sigo o caminho, encontro o armário, abro suas portas, de saída pro travesseiro. Encontro seus cabelos, sou seus cabelos, entro em sua cabeça, encontro uma porta. Bato a porta. Você atende. Sou você.
Alguns realmente comentam sobre o que há do outro lado, alguns realmente vivem lá, e sorriem. E o outro lado é lá, aqui é o lado onde não estou.
Bate á porta:
quem é?
me deixa entrar
Entra:
seu sofá, me sento nele. Seu quadro na parede, entro nele. Sou seu quadro, sou seus olhos o observando, sou sua mente se distraindo, sou o quarto em que você entra, sou a cama em que você deita, o travesseiro em que você sonha, sou os pés que paralisam, a mão que afaga o lençol, o nada que absorve, a boca que mordisca, a brisa que balança seus cabelos e o calafrio. Sou o quadro, sou os olhos que me olham. Saio do quadro, sou a mão que toca meus braços, sou meus braços e sou você. Caminho até o quarto, você na cama, afagando o nada e absorvendo a brisa. Entro no armário, você mora ali, te dou as mãos, sou as mãos. Você me segue, abrimos um caminho, com pedras. Não, com bolhas, bolhas com cores frias, que se tornam cores quentes que se tornam insetos minusculos, que se tornam tigres do tamanho de formigas, que voam em direção ao céu e se tornam nuvens também. Sou a nuvem, te vejo só afagando as bolhas, tropeçando no caminho, absorvendo as formigas, beijando a parede, deitado na parede olhando para as nuvens. Sou o céu, a nuvem ri, eu grito, você chora e ri depois. Eu desço, encontro o caminho, vejo pegadas, pego as pegadas, afago as pegadas, cheiro as pegadas. Cheiro de nada. Sigo o caminho, encontro o armário, abro suas portas, de saída pro travesseiro. Encontro seus cabelos, sou seus cabelos, entro em sua cabeça, encontro uma porta. Bato a porta. Você atende. Sou você.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
o homem
o homem saiu pra um passeio com o próprio homem, passeio esse que há um bom tempo planejava. E lá no campo esverdeado, debaixo de árvores enormes, se sentaram e tomaram o café.
-não sei
-o quê?
-viver
-ora
-sim
-assim se é
-é dificil
- você não é especial
-eu sei
-pois
-mas sei agora, ontem não sabia, acordei hoje e soube disso
-acontece assim mesmo
-não me sinto bem
-logo passa
-tenho medo
-de quê
-de me conformar, de aceitar e deitar
-pois não aceite, não deite, não se conforme
-tenho medo
-de quê
-de ser obstinado, intolerante e imprudente
-não seja
-mas tenho medo
de acordar daqui a dois anos ou sete meses e descobrir que sempre fui
-seja outra coisa
-não sei o que ser
-seja você mesmo
-esse sou eu
-continue sendo
-me incomoda
-grita
-eu grito
-não ouço
-o grito é lugar-comum agora, não quero cair nos clichês
-a vida é cheia deles
-me odiarão
-suporte
-suporto
-suporte sempre
-não sou forte
-seja
-me esforço
-que diz
-é ilusão, é só querer ser forte, não é ser forte
-esqueça
-queria esquecer
queria não ver
e não me importar
-se engane até que acredite
-como?
-uma hora entenderá
-é dificil
-assim é
-dói saber
-esconda
-depois que se sabe não dá pra esconder mais
-mostre
- me tacarão pedras
-sangre
-e então?
-que mais queres da vida?
- um abraço
-a vida não abraça
-eu sei
-não sei
-o quê?
-viver
-ora
-sim
-assim se é
-é dificil
- você não é especial
-eu sei
-pois
-mas sei agora, ontem não sabia, acordei hoje e soube disso
-acontece assim mesmo
-não me sinto bem
-logo passa
-tenho medo
-de quê
-de me conformar, de aceitar e deitar
-pois não aceite, não deite, não se conforme
-tenho medo
-de quê
-de ser obstinado, intolerante e imprudente
-não seja
-mas tenho medo
de acordar daqui a dois anos ou sete meses e descobrir que sempre fui
-seja outra coisa
-não sei o que ser
-seja você mesmo
-esse sou eu
-continue sendo
-me incomoda
-grita
-eu grito
-não ouço
-o grito é lugar-comum agora, não quero cair nos clichês
-a vida é cheia deles
-me odiarão
-suporte
-suporto
-suporte sempre
-não sou forte
-seja
-me esforço
-que diz
-é ilusão, é só querer ser forte, não é ser forte
-esqueça
-queria esquecer
queria não ver
e não me importar
-se engane até que acredite
-como?
-uma hora entenderá
-é dificil
-assim é
-dói saber
-esconda
-depois que se sabe não dá pra esconder mais
-mostre
- me tacarão pedras
-sangre
-e então?
-que mais queres da vida?
- um abraço
-a vida não abraça
-eu sei
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
esse não é um sonho meu, mas eu estava nele. Embora não seja um sonho meu, eu sou do sonho, então ali estava. Ali estava quando vi a garota sair do carro com pressa, e quando vi três homens a perseguindo. Ali estava quando os vi pegá-la pelo braço. Quando os vi levantar a sua saia. Ainda estava ali quando começaram a lhe fazer doentices.
Não estava mais ali, estava em outro lugar, mais claro, com mais flores, e mais jardins e mais pessoas e menos carros, ou mais carros, ás vezes. Um som de trompete tocou lá no fundo e eu fui ver o que era. O som continuava, mas a cada passo que eu dava, mais distante ele parecia. Andei por vários minutos então, quando percebi que estava longe. Voltava pro lugar de partida e o ouvia mais próximo. Segui por todas as direções, sem conseguir localizá-lo. Dois passos para trás, para frente ou para os lados, dois decibéis mais baixo, duas ruas mais distante. Então olhei pra cima.
A estrada estava praticamente deserta, demorou horas pra que o primeiro motorista passasse, não só o primeiro motorista, mas o primeiro motorista que parou. Desceu ele o homem/motorista e foi pegar a garota caída no chão, suja de sangue e de sêmen e descabelada e cinza. Pôs a moça no porta-malas e continuou viagem. Nesse momento lembro de haver um animal que olhava fixamente todo o ocorrido e que foi para o bosque contar alguma coisa. De volta aos pneus, sentia esse cheiro de perfume antigo, de perfume de alguém que não existe mais, que existiu uma vez, deixou o cheiro e partiu. Me incomodou um pouco mas continuei dirigindo. Não liguei o rádio, ainda assim tocou um som, uma música calma, como uma mão macia, tocou meu rosto e depois meus cabelos e então meus lábios, e desceu por meu peito até minha calça. Alguns instantes depois tudo pareceu mais lento, como se o tempo se tornasse sólido o suficiente para que eu pudesse senti-lo agarrando meus braços, me impedindo de continuar. Meu ar, quase o perdi, a voz, a perdi totalmente, mas lembro de soltar gritos silenciosos, que só eu ouvia. Se eu fosse alguém além de mim, teria me salvado. Já era noite, quando fiquei livre, e o banco do carro era uma cama, parece, pois senti como se tivesse deitado ali dois dias seguidos. Os limpadores de parabrisa se moviam devagar, era o tempo que ainda não tinha passado totalmente. A chuva que caía batia no vidro e os pingos formavam imagens, pelo menos achei isso até que percebi que eles realmente dançavam. Vi um rosto, não no vidro, nem no espelho, mas nas gotas d'água. Ele me encarou e disse -"prossiga". E eu prossegui.
Corri por entre tantos galhos, e tantas folhas e cada vez mais verde, marrom e musgo. E as abelhas tinham uma forma estranha, e tamanho de rato. O céu não é tão longe assim, pensei. A grama estava úmida, as folhagens criavam coreografias absurdas, que não deviam ser criadas nessa época do ano. Achei uma árvore velha e um grande buraco nela. Desse buraco saía uma luz amarelada, bem fraca, mas nos dias cinzas toda luz é excessivamente brilhante. O som desapareceu quando entrei ali. Nesses segundos de supressão, vi olhos, não dois, mas dez, olhos com corpos sentados á mesa, olhos que olhavam a carne na sopa de flores, cozinhando, olhos que tinham linguas e que lambiam uns aos outros e que comiam as próprias linguas enquanto as olhavam. Sentei-me ali, ouvi um estalo. O som voltou, o vento soube disso e assobiou lá fora, da árvore. O olho mais curioso perguntou "que foi?", o mais covarde insistiu "que foi?", o olho mais alegre apenas olhou e então os contei: "houve uma confusão"
Vesti minhas roupas de verão, era inverno, andei pelo quarto enquanto me olhava no espelho e me via com cabelos mais lisos, e rosto mais belo e corpo mais definido. E olhos azuis. E graciosidade latente. Olhei muito o espelho até que ele próprio se cansasse e minha imagem partisse me deixando sozinho. Fui até a janela, olhei as palmeiras e ouvi a música. Vi a dança e também a euforia. Um moço lá debaixo gritou que eu descesse. Desci. A porta apenas se abriu. E lá fui eu, pisando no chão como um anjo pisa nas nuvens, como um peixe-cigarra mergulha no nada. Lá fui eu, andando, e os passos produziam notas. E as notas sempre se calavam quando eu pensava em me apressar. Fui de encontro ao moço. Que agora de perto não parecia tão bonito quanto lá de cima, da janela. Que agora de perto era mais de um. Que agora de perto me tocou suavemente e me fez ceder. Que agora de perto eu vejo isso. Que agora de perto volto pra onde não deveria estar.
Não estava mais ali, estava em outro lugar, mais claro, com mais flores, e mais jardins e mais pessoas e menos carros, ou mais carros, ás vezes. Um som de trompete tocou lá no fundo e eu fui ver o que era. O som continuava, mas a cada passo que eu dava, mais distante ele parecia. Andei por vários minutos então, quando percebi que estava longe. Voltava pro lugar de partida e o ouvia mais próximo. Segui por todas as direções, sem conseguir localizá-lo. Dois passos para trás, para frente ou para os lados, dois decibéis mais baixo, duas ruas mais distante. Então olhei pra cima.
A estrada estava praticamente deserta, demorou horas pra que o primeiro motorista passasse, não só o primeiro motorista, mas o primeiro motorista que parou. Desceu ele o homem/motorista e foi pegar a garota caída no chão, suja de sangue e de sêmen e descabelada e cinza. Pôs a moça no porta-malas e continuou viagem. Nesse momento lembro de haver um animal que olhava fixamente todo o ocorrido e que foi para o bosque contar alguma coisa. De volta aos pneus, sentia esse cheiro de perfume antigo, de perfume de alguém que não existe mais, que existiu uma vez, deixou o cheiro e partiu. Me incomodou um pouco mas continuei dirigindo. Não liguei o rádio, ainda assim tocou um som, uma música calma, como uma mão macia, tocou meu rosto e depois meus cabelos e então meus lábios, e desceu por meu peito até minha calça. Alguns instantes depois tudo pareceu mais lento, como se o tempo se tornasse sólido o suficiente para que eu pudesse senti-lo agarrando meus braços, me impedindo de continuar. Meu ar, quase o perdi, a voz, a perdi totalmente, mas lembro de soltar gritos silenciosos, que só eu ouvia. Se eu fosse alguém além de mim, teria me salvado. Já era noite, quando fiquei livre, e o banco do carro era uma cama, parece, pois senti como se tivesse deitado ali dois dias seguidos. Os limpadores de parabrisa se moviam devagar, era o tempo que ainda não tinha passado totalmente. A chuva que caía batia no vidro e os pingos formavam imagens, pelo menos achei isso até que percebi que eles realmente dançavam. Vi um rosto, não no vidro, nem no espelho, mas nas gotas d'água. Ele me encarou e disse -"prossiga". E eu prossegui.
Corri por entre tantos galhos, e tantas folhas e cada vez mais verde, marrom e musgo. E as abelhas tinham uma forma estranha, e tamanho de rato. O céu não é tão longe assim, pensei. A grama estava úmida, as folhagens criavam coreografias absurdas, que não deviam ser criadas nessa época do ano. Achei uma árvore velha e um grande buraco nela. Desse buraco saía uma luz amarelada, bem fraca, mas nos dias cinzas toda luz é excessivamente brilhante. O som desapareceu quando entrei ali. Nesses segundos de supressão, vi olhos, não dois, mas dez, olhos com corpos sentados á mesa, olhos que olhavam a carne na sopa de flores, cozinhando, olhos que tinham linguas e que lambiam uns aos outros e que comiam as próprias linguas enquanto as olhavam. Sentei-me ali, ouvi um estalo. O som voltou, o vento soube disso e assobiou lá fora, da árvore. O olho mais curioso perguntou "que foi?", o mais covarde insistiu "que foi?", o olho mais alegre apenas olhou e então os contei: "houve uma confusão"
Vesti minhas roupas de verão, era inverno, andei pelo quarto enquanto me olhava no espelho e me via com cabelos mais lisos, e rosto mais belo e corpo mais definido. E olhos azuis. E graciosidade latente. Olhei muito o espelho até que ele próprio se cansasse e minha imagem partisse me deixando sozinho. Fui até a janela, olhei as palmeiras e ouvi a música. Vi a dança e também a euforia. Um moço lá debaixo gritou que eu descesse. Desci. A porta apenas se abriu. E lá fui eu, pisando no chão como um anjo pisa nas nuvens, como um peixe-cigarra mergulha no nada. Lá fui eu, andando, e os passos produziam notas. E as notas sempre se calavam quando eu pensava em me apressar. Fui de encontro ao moço. Que agora de perto não parecia tão bonito quanto lá de cima, da janela. Que agora de perto era mais de um. Que agora de perto me tocou suavemente e me fez ceder. Que agora de perto eu vejo isso. Que agora de perto volto pra onde não deveria estar.
domingo, 11 de dezembro de 2011
o mundo
O mundo veio me chamar, gritou meu nome no portão. Não atendi. Entrou. Bateu na porta, com força, depois suave, me escondi nas cobertas. Foi á janela do quarto, murmurou, murmurou de novo. Aí foi embora.
Era cedo quando acordei e todos pareciam felizes com algo, falavam ao mesmo tempo, dançavam até. Eu sentei á mesa e tomei café, estava gelado. Olhei no fundo da xícara, havia algo lá, aproximei meus olhos e vi. Vi um rapaz sorridente. Ao lado dele uma senhora de idade, usando roupas de uma garota de 16 anos. Depois os vi indo para um cômodo apertado e no fundo desse cômodo tinha uma porta, bem pequena e quadrada. Vi as mãos do rapaz a abrindo e depois vi o mundo.
Saí de casa, num dia úmido, numa hora que ainda era a criança de todas as horas. O caminho era cinza mas eu continuei. Virei duas ruas, o céu parecia querer dizer algo e também as árvores. O céu devia estar cantando uma música, as árvores deviam estar dançando, as pessoas estavam dormindo. Cheguei ao ponto de ônibus, duas senhoras esperavam ali, com olhos fechados, com as mãos cheias de sacolas. O ônibus veio, vazio como nunca vem. Subimos nós três, sentamos nós três. Eu queria que houvesse um mar logo ao meu lado assim eu poderia mergulhar como me deu vontade de fazer. A viagem não demorou muito afinal prestei atenção a cada rosto voando do lado de fora da janela. Rostos de quem já viu um assassinato, de quem já fez sexo inúmeras vezes, de quem já tocou em muito dinheiro, de quem já esteve em outros países, em outras realidades, de quem já conheceu outros segredos ou viu outros rostos. Vi esses rostos e então desci. Segui por outro caminho, tão cinza e úmido, porém mais tarde. O céu estava em silêncio e as árvores não as vi nenhuma. Outra vez uma porta pequena e quadrada, entrei por ela, havia um garoto que não sorria, ele me levou a um cômodo apertado aonde deitava uma velha sua mãe, vestida de bebê. Me ofereceu um café, eu aceitei.
Era cedo quando acordei e todos pareciam felizes com algo, falavam ao mesmo tempo, dançavam até. Eu sentei á mesa e tomei café, estava gelado. Olhei no fundo da xícara, havia algo lá, aproximei meus olhos e vi. Vi um rapaz sorridente. Ao lado dele uma senhora de idade, usando roupas de uma garota de 16 anos. Depois os vi indo para um cômodo apertado e no fundo desse cômodo tinha uma porta, bem pequena e quadrada. Vi as mãos do rapaz a abrindo e depois vi o mundo.
Saí de casa, num dia úmido, numa hora que ainda era a criança de todas as horas. O caminho era cinza mas eu continuei. Virei duas ruas, o céu parecia querer dizer algo e também as árvores. O céu devia estar cantando uma música, as árvores deviam estar dançando, as pessoas estavam dormindo. Cheguei ao ponto de ônibus, duas senhoras esperavam ali, com olhos fechados, com as mãos cheias de sacolas. O ônibus veio, vazio como nunca vem. Subimos nós três, sentamos nós três. Eu queria que houvesse um mar logo ao meu lado assim eu poderia mergulhar como me deu vontade de fazer. A viagem não demorou muito afinal prestei atenção a cada rosto voando do lado de fora da janela. Rostos de quem já viu um assassinato, de quem já fez sexo inúmeras vezes, de quem já tocou em muito dinheiro, de quem já esteve em outros países, em outras realidades, de quem já conheceu outros segredos ou viu outros rostos. Vi esses rostos e então desci. Segui por outro caminho, tão cinza e úmido, porém mais tarde. O céu estava em silêncio e as árvores não as vi nenhuma. Outra vez uma porta pequena e quadrada, entrei por ela, havia um garoto que não sorria, ele me levou a um cômodo apertado aonde deitava uma velha sua mãe, vestida de bebê. Me ofereceu um café, eu aceitei.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
seus olhos são meus agora, eu os pego e aperto e deles saem pequenos insetos sem asas, grandes insetos com asas que voam para algum fio atrevido de cabelo. Quando estou longe, eu os como.
UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.
TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.
INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.
QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.
AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.
UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.
TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.
INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.
QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.
AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.
domingo, 4 de dezembro de 2011
supostamente hoje eu teria que pegar as vacas todas elas e colocá-las para dentro pois chove lá fora e há a expectativa de um monstro que virá para pôr abaixo tudo que se construiu se hoje sou homem é porque sei cozinhar tudo aquilo que põe na mesa em prestações pequenos serviços vem vão e eu que fui noite e hoje sou ensolarado regado de benção mãos circuncidadas que querem me pegar pelo pescoço e me jogar no mais infimo abismo do esquecimento esse que hoje eu condeno e apesar de tudo tanto desejo para mim e minha familia para que comamos toda a refeição sem ter que dizer depois "obrigado" a noite vem calma com vestido preto e bolinhas de brilhante entre uma e outra áurea áurea eu digo proporções para que colocá-las todas num mesmo quadrado? eu rio todos riem a piada está feita não me ouviram agora os gritos mais altos que dei sempre pensei que nunca o mais alto grito poderia ser tão alto mas agora que o fiz penso como o farei da proxima vez terei que me silenciar como faço agora as pontuações exigem um pouco de consolidação e respeito as regras requerem cuidados proteção flores em suas orelhas meninas graciosas dançam em volta da mesa um senhor muito inoportuno pede por misericórdia bem agora eu sei o que é voar atrás de mim um canhão um vento a estrutura básica de todas as coisas me suspende na terra eu sou a paixão que consome a carne do boi o boi não queria morrer grupos defenderam seus ideais hoje eu almoçarei ideais e amanhã logo cedo estarei partindo numa viagem de encontro a outra coisa senão as malas porque devo levá-las são elas todas pesadas para minhas mãos e o piano agora sente ciúmes e quer que me diga uma nota só que corresponda a todas as estrelas do céu.
O sono veio me provocar me trazer desesperança e esse homem com o rosto coberto de rugas me diz "pare" e eu continuo a andar por entre as rochas embora queira voltar para casa mas a casa parece tao distante que agora me vejo como um quadro pendurado na parede bem aos olhos de uma dama que perdeu recentemente seu cachorro, seu pai, mestiço, luta por um pouco de autoridade enquanto toda a cidade pede bolo. A musica jamais parará, diz o monge, e o arco iris cairá do ceu como o pote de ouro que encontraram lá dentro do labirinto de judas, judas foi partidario palavreador, encontra ou perde-se logo depois de ser quem não pensou jamais que seria pois o filho na escola deixou que lhe ensinassem música e letras e seguiu rumo ao mar, no mar se afogou tal como estrela outrora fora todas as mulheres compatriotas de sua terra. Lá vem ele, envolto em sombras cantar a canção dos mortos que hoje se levantam e gritam "poxa". Amanhã serei finalmente sepultado desejo que tu me visites e me diga com palavras doces "eu sempore te amei, não hoje"!
sábado, 26 de novembro de 2011
o animal também é gente
A flor não se abrirá hoje.
Eu voltei áquele beco estranho, uma luminosidade esquisita emanava do céu, alguém me olhava de longe, á distância de duas ruas, alguem me queria ter ali. Entendi aquilo tudo como sendo perigoso e tratei de fugir, não para o lugar mais evidente, mas para dentro de mim. Sim, como se houvesse uma maçaneta e mesmo uma chave, mas a porta estava aberta, há muito tempo. Não é um bom dia para se arriscar. De uma a três vezes por hora eu costumo cair num redemoinho que deita ao meu lado na cama, vem de noite, vai embora de tarde, eu ignoro, eu pretendo. Sempre que o dia é frio demais, ou azul demais, eu me escondo.
O Caminho
Parecia de isopor, sim, ou aquele material que usam dentro de colchões. Estava por toda a parede, parecia um labirinto, de fato era bem estreito. E baixo. Tive que me curvar as costas para seguir em frente, confesso que me incomodou no início mas logo esqueci. Era estranho pois apesar de ficar no fim da rua, uma rua sempre tão cheia e imunda, todo o caminho estava limpo, impecável, como um novo cenário de uma peça grandiosa que envolve grandes interesses financeiros (todo grande interesse é financeiro). E poxa, como era lindo aquilo. Alguns galhos saíam dos buracos na parede, a luz esverdeada me guiava os passos. Me dei conta de que o caminho ficava cada vez mais baixo e estreito até que terminou, num pequeno cubículo minúsculo, ou a cabeça ou os pés. Eu insisti, bati por uns instantes, mas nada aconteceu. Voltei, com alguma dificuldade para me virar. Não fiquei muito feliz quando percebi que algumas formigas saíam pelo chão acolchoado, formigas verdadeiramente grandes, assustadoras e venenosas, cheias de fúria, hostis e pérfidas. Os olhos eram (....)
Finalmente saí, e tudo lá fora era diferente, chovia, muito, uma chuva plástica, afinal o local estava coberto. Logo á minha frente um bosque, com árvores enormes cujos galhos saudavam os ventos e os ventos saudavam os galhos e eu saudava a vida e a morte me espreitava. Tive essa sensação de risco, e corri em direção ao bosque, que a cada passo se abria mais. As árvores diminuiam de número e um enorme campo podia ser visto. Era um campo rosa, as árvores não deveriam estar no meio da trilha, eu pensava, pois elas estavam mesmo no meio das trilhas, se um carro resolvesse passar ali, mas ali jamais passariam carros. Porque não? Eu já andava por bastante tempo. Nas poucas árvores que ali tinha, ao invés de frutas, nasciam fios, fios espessos e vermelhos, longos e brilhantes, como esses de fita cassete, mas não. E também algumas frutas morriam na grama (também rosa, era tudo rosa, desde os campos, até o céu, com o porém de que ao céu se misturava uma coisa meio laranja, meio roxa) e bem, as frutas eram enormes, pareciam grandes abóboras, mas tinham a forma de maçã. Meu amigo pegou algumas e seguimos em frente. O bosque se fechava novamente e novamente se abria, ventava forte, eu quis muito continuar mas meu amigo disse "não" e eu voltei. Demorou um tempo pra que encontrássemos a rua de casa, viramos por aqui e por ali, até que vimos um velho bazar de um homem tão velho quanto, e que estava aberto apesar de ser sábado. Entramos ali, não havia ninguém, aproveitamos para pegar algumas coisas, lembro de estar feliz, por não ter que gastar dinheiro com produtos que eu realmente queria ter, e pareciam saborosos alguns deles. Meu amigo entrou pelo fundo do bazar, tinha ali uma espécie de corredor, mal acabado, podre, amarelado e deprimente, e ao seu lado uma porta. Abrimos a porta. Escondemos o que pegamos numa coberta, que um de nós trazia. Ao abrir a porta, lá estava nossa avó. Preparava não sei o quê, acho que era milho, pois lembro de querer muito aquilo, e eu sempre quero muito milho, e ele sempre acaba. Logo em cima de sua cabeça estava pendurado um quadro, com a imagem de um palhaço, assustador. Passei correndo para que ele não me visse e entrei nos quartos. Todos estavam com a luz apagada, fiquei com medo e me aproximei da porta. Uma luz azul brilhava intensamente no meio desse breu, e então fui até ela. A luz ganhou forma, era uma janela, que dava pro quintal. Me assustei ao ver uns 49 cachorros, com olhos vermelhos. Eram meus cachorros. Não pareciam amigáveis, contudo. Fiquei a refletir numa maneira de sair dali. Os cachorros latiam, agressivos, quanto mais medo eu sentia, um cachorro a mais surgia. Quando pensei que o fim era inevitável, veio sussurrando minha mãe, segurou em meus braços, me deu uma bronca, insistiu que não havia cachorro nenhum, eu chorava, soluçava, sem controle, sem ar. Ela me puxava, aproximava o rosto e gritava cada vez mais. Olhei de novo para fora da janela, pois então ela estava certa, vi ali apenas uns cachorros filhotes, dois ou três apenas, numa cesta. Uma familiar minha passava a mão em todos eles, queria ter todos eles, queria ser todos eles. Queria comê-los. Eu queria matá-la. Meus cães. Sinto que odiava ela, por coisas anteriores, e odiava ainda mais quando me falava doce. Sempre prezei pela equidade, nunca me vi bem com a moral sendo rude a quem me falava com serenidade, embora uma voz me dissesse "não se deixe enganar". Peguei ela pelos braços e saímos, rua acima. Era noite, bem brilhante e quente. A subida que dava para a rua na qual desejávamos chegar era quase vertical, lembro mesmo de ter que segurar nos paralelepípedos para não escorregar e de quase me arrebentar depois de deslizar por um barranco de 15 metros. Foi dificil mas conseguimos. Cinco casas á nossa frente, uma casa conhecida. Não me recordo quem morava ali, mas sabia que podia entrar. Disse "vamos pregar uma peça", e fomos. Abri o portão, com cautela. Na garagem tinha um carro e foi justo embaixo dele que nos escondemos. Ficamos ali algum tempo. Acho que ninguém estava em casa, tudo escuro, quieto. Ficamos a observar pela vidraça. Algo se moveu lá dentro. A garota.... o garoto, quis ir mais para frente, mas eu senti medo nessa hora, ainda mais medo depois que a porta se abriu. Foi como se de tanto presumirmos que não havia ninguem em casa, realmente não houvesse, e o fato de a porta ter se aberto passou a ser um acontecimento sobrenatural. Corremos então, tão rápido quanto pudíamos. Olhei para trás, com resistência, uma pessoa corria atrás de nós, furiosa. Muito furiosa. O garoto que estava comigo era deveras mais rápido e me passou. Acho estranho isso pois sempre fui muito rápido, não obstante, meu pé não conseguia me acompanhar Tanta força eu fizesse, tanto mais me cansava e tanto menos corria. Quando me dei conta, apenas andava. A pessoa ainda furiosa e implacável já tocava a mão em meus ombros. Olhei para a frente, tinha um bar. O dono do bar era gente complacente, digo isso porque resolvi entrar lá como último esforço. Entrando lá, a pessoa me pegou. Me virou com brutalidade, não quis olhar não quis olhar, medo de abrir os olhos, sentia o ar poderoso saindo da boca, gritando, dizendo "olhe". Eu olhei. Era uma garota, cabelos pretos, pernas curtas. Não. Era uma garota traída. E me exigia explicações. Pois expliquei, comprei-lhe um pedaço de bolo ali mesmo, o dono do bar que era complacente provou essa qualidade que tanto estimavam nele e me deixou pagar depois, posto que minhas moedas caíram na fuga. Acariciei os cabelos da garota, disse algumas palavras doces, e falei para que ela me esperasse. Então fugi. Me encontrava numa avenida, dessas envoltas por matas intermináveis, como aquelas por onde se passa durante uma viagem, pois lá estava eu. Ouvi umas vozes, bem baixas, reconheci todas e cheguei perto. Eram meus amigos, agachados, me falavam para abaixar também senão achariam a gente. Eu me abaixei e esperei. Eles estavam bêbados, o frio me incomodava. Um deles morreu, nós choramos e cortamos caminho pelo mato. Estava úmido da garoa que caía há tempos, tudo é úmido nessa vida. Senti que devia segurar a mão do que vinha atrás de mim e do que estava á minha frente, andamos assim até que nossas mãos se separaram, não pude mais vê-los pois a mata se tornava densa e alta. Sei que só ouvi o silêncio. Então ventou, eu corri, a água subia, quis chegar logo a algum lugar seguro, mas só havia o eco. A água subiu ainda mais, já batia no meu peito. Agarrei com força a um tronco mas a água o engoliu também. Enquanto morria, senti algo tocando meus pés. Era um conhecido da família, veio me salvar, me chamou de bobo, disse que eu me desesperava á toa "você se desespera á toa" e riu. Eu ri também, e concordei. Ele ligou para minha casa, e eu me senti tranquilo, como quando a brisa bate e nunca vai embora.
Eu voltei áquele beco estranho, uma luminosidade esquisita emanava do céu, alguém me olhava de longe, á distância de duas ruas, alguem me queria ter ali. Entendi aquilo tudo como sendo perigoso e tratei de fugir, não para o lugar mais evidente, mas para dentro de mim. Sim, como se houvesse uma maçaneta e mesmo uma chave, mas a porta estava aberta, há muito tempo. Não é um bom dia para se arriscar. De uma a três vezes por hora eu costumo cair num redemoinho que deita ao meu lado na cama, vem de noite, vai embora de tarde, eu ignoro, eu pretendo. Sempre que o dia é frio demais, ou azul demais, eu me escondo.
O Caminho
Parecia de isopor, sim, ou aquele material que usam dentro de colchões. Estava por toda a parede, parecia um labirinto, de fato era bem estreito. E baixo. Tive que me curvar as costas para seguir em frente, confesso que me incomodou no início mas logo esqueci. Era estranho pois apesar de ficar no fim da rua, uma rua sempre tão cheia e imunda, todo o caminho estava limpo, impecável, como um novo cenário de uma peça grandiosa que envolve grandes interesses financeiros (todo grande interesse é financeiro). E poxa, como era lindo aquilo. Alguns galhos saíam dos buracos na parede, a luz esverdeada me guiava os passos. Me dei conta de que o caminho ficava cada vez mais baixo e estreito até que terminou, num pequeno cubículo minúsculo, ou a cabeça ou os pés. Eu insisti, bati por uns instantes, mas nada aconteceu. Voltei, com alguma dificuldade para me virar. Não fiquei muito feliz quando percebi que algumas formigas saíam pelo chão acolchoado, formigas verdadeiramente grandes, assustadoras e venenosas, cheias de fúria, hostis e pérfidas. Os olhos eram (....)
Finalmente saí, e tudo lá fora era diferente, chovia, muito, uma chuva plástica, afinal o local estava coberto. Logo á minha frente um bosque, com árvores enormes cujos galhos saudavam os ventos e os ventos saudavam os galhos e eu saudava a vida e a morte me espreitava. Tive essa sensação de risco, e corri em direção ao bosque, que a cada passo se abria mais. As árvores diminuiam de número e um enorme campo podia ser visto. Era um campo rosa, as árvores não deveriam estar no meio da trilha, eu pensava, pois elas estavam mesmo no meio das trilhas, se um carro resolvesse passar ali, mas ali jamais passariam carros. Porque não? Eu já andava por bastante tempo. Nas poucas árvores que ali tinha, ao invés de frutas, nasciam fios, fios espessos e vermelhos, longos e brilhantes, como esses de fita cassete, mas não. E também algumas frutas morriam na grama (também rosa, era tudo rosa, desde os campos, até o céu, com o porém de que ao céu se misturava uma coisa meio laranja, meio roxa) e bem, as frutas eram enormes, pareciam grandes abóboras, mas tinham a forma de maçã. Meu amigo pegou algumas e seguimos em frente. O bosque se fechava novamente e novamente se abria, ventava forte, eu quis muito continuar mas meu amigo disse "não" e eu voltei. Demorou um tempo pra que encontrássemos a rua de casa, viramos por aqui e por ali, até que vimos um velho bazar de um homem tão velho quanto, e que estava aberto apesar de ser sábado. Entramos ali, não havia ninguém, aproveitamos para pegar algumas coisas, lembro de estar feliz, por não ter que gastar dinheiro com produtos que eu realmente queria ter, e pareciam saborosos alguns deles. Meu amigo entrou pelo fundo do bazar, tinha ali uma espécie de corredor, mal acabado, podre, amarelado e deprimente, e ao seu lado uma porta. Abrimos a porta. Escondemos o que pegamos numa coberta, que um de nós trazia. Ao abrir a porta, lá estava nossa avó. Preparava não sei o quê, acho que era milho, pois lembro de querer muito aquilo, e eu sempre quero muito milho, e ele sempre acaba. Logo em cima de sua cabeça estava pendurado um quadro, com a imagem de um palhaço, assustador. Passei correndo para que ele não me visse e entrei nos quartos. Todos estavam com a luz apagada, fiquei com medo e me aproximei da porta. Uma luz azul brilhava intensamente no meio desse breu, e então fui até ela. A luz ganhou forma, era uma janela, que dava pro quintal. Me assustei ao ver uns 49 cachorros, com olhos vermelhos. Eram meus cachorros. Não pareciam amigáveis, contudo. Fiquei a refletir numa maneira de sair dali. Os cachorros latiam, agressivos, quanto mais medo eu sentia, um cachorro a mais surgia. Quando pensei que o fim era inevitável, veio sussurrando minha mãe, segurou em meus braços, me deu uma bronca, insistiu que não havia cachorro nenhum, eu chorava, soluçava, sem controle, sem ar. Ela me puxava, aproximava o rosto e gritava cada vez mais. Olhei de novo para fora da janela, pois então ela estava certa, vi ali apenas uns cachorros filhotes, dois ou três apenas, numa cesta. Uma familiar minha passava a mão em todos eles, queria ter todos eles, queria ser todos eles. Queria comê-los. Eu queria matá-la. Meus cães. Sinto que odiava ela, por coisas anteriores, e odiava ainda mais quando me falava doce. Sempre prezei pela equidade, nunca me vi bem com a moral sendo rude a quem me falava com serenidade, embora uma voz me dissesse "não se deixe enganar". Peguei ela pelos braços e saímos, rua acima. Era noite, bem brilhante e quente. A subida que dava para a rua na qual desejávamos chegar era quase vertical, lembro mesmo de ter que segurar nos paralelepípedos para não escorregar e de quase me arrebentar depois de deslizar por um barranco de 15 metros. Foi dificil mas conseguimos. Cinco casas á nossa frente, uma casa conhecida. Não me recordo quem morava ali, mas sabia que podia entrar. Disse "vamos pregar uma peça", e fomos. Abri o portão, com cautela. Na garagem tinha um carro e foi justo embaixo dele que nos escondemos. Ficamos ali algum tempo. Acho que ninguém estava em casa, tudo escuro, quieto. Ficamos a observar pela vidraça. Algo se moveu lá dentro. A garota.... o garoto, quis ir mais para frente, mas eu senti medo nessa hora, ainda mais medo depois que a porta se abriu. Foi como se de tanto presumirmos que não havia ninguem em casa, realmente não houvesse, e o fato de a porta ter se aberto passou a ser um acontecimento sobrenatural. Corremos então, tão rápido quanto pudíamos. Olhei para trás, com resistência, uma pessoa corria atrás de nós, furiosa. Muito furiosa. O garoto que estava comigo era deveras mais rápido e me passou. Acho estranho isso pois sempre fui muito rápido, não obstante, meu pé não conseguia me acompanhar Tanta força eu fizesse, tanto mais me cansava e tanto menos corria. Quando me dei conta, apenas andava. A pessoa ainda furiosa e implacável já tocava a mão em meus ombros. Olhei para a frente, tinha um bar. O dono do bar era gente complacente, digo isso porque resolvi entrar lá como último esforço. Entrando lá, a pessoa me pegou. Me virou com brutalidade, não quis olhar não quis olhar, medo de abrir os olhos, sentia o ar poderoso saindo da boca, gritando, dizendo "olhe". Eu olhei. Era uma garota, cabelos pretos, pernas curtas. Não. Era uma garota traída. E me exigia explicações. Pois expliquei, comprei-lhe um pedaço de bolo ali mesmo, o dono do bar que era complacente provou essa qualidade que tanto estimavam nele e me deixou pagar depois, posto que minhas moedas caíram na fuga. Acariciei os cabelos da garota, disse algumas palavras doces, e falei para que ela me esperasse. Então fugi. Me encontrava numa avenida, dessas envoltas por matas intermináveis, como aquelas por onde se passa durante uma viagem, pois lá estava eu. Ouvi umas vozes, bem baixas, reconheci todas e cheguei perto. Eram meus amigos, agachados, me falavam para abaixar também senão achariam a gente. Eu me abaixei e esperei. Eles estavam bêbados, o frio me incomodava. Um deles morreu, nós choramos e cortamos caminho pelo mato. Estava úmido da garoa que caía há tempos, tudo é úmido nessa vida. Senti que devia segurar a mão do que vinha atrás de mim e do que estava á minha frente, andamos assim até que nossas mãos se separaram, não pude mais vê-los pois a mata se tornava densa e alta. Sei que só ouvi o silêncio. Então ventou, eu corri, a água subia, quis chegar logo a algum lugar seguro, mas só havia o eco. A água subiu ainda mais, já batia no meu peito. Agarrei com força a um tronco mas a água o engoliu também. Enquanto morria, senti algo tocando meus pés. Era um conhecido da família, veio me salvar, me chamou de bobo, disse que eu me desesperava á toa "você se desespera á toa" e riu. Eu ri também, e concordei. Ele ligou para minha casa, e eu me senti tranquilo, como quando a brisa bate e nunca vai embora.
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