terça-feira, 31 de janeiro de 2012

muito se fala sobre a porta e sobre a pessoa que chora á sua frente. Se fala bastante também sobre atravessar o tempo, sobre atravessar a matéria, sobre andar em círculos até atingir o buraco.
Alguns realmente comentam sobre o que há do outro lado, alguns realmente vivem lá, e sorriem. E o outro lado é lá, aqui é o lado onde não estou.
Bate á porta:
quem é?
me deixa entrar
Entra:
seu sofá, me sento nele. Seu quadro na parede, entro nele. Sou seu quadro, sou seus olhos o observando, sou sua mente se distraindo, sou o quarto em que você entra, sou a cama em que você deita, o travesseiro em que você sonha, sou os pés que paralisam, a mão que afaga o lençol, o nada que absorve, a boca que mordisca, a brisa que balança seus cabelos e o calafrio. Sou o quadro, sou os olhos que me olham. Saio do quadro, sou a mão que toca meus braços, sou meus braços e sou você. Caminho até o quarto, você na cama, afagando o nada e absorvendo a brisa. Entro no armário, você mora ali, te dou as mãos, sou as mãos. Você me segue, abrimos um caminho, com pedras. Não, com bolhas, bolhas com cores frias, que se tornam cores quentes que se tornam insetos minusculos, que se tornam tigres do tamanho de formigas, que voam em direção ao céu e se tornam nuvens também. Sou a nuvem, te vejo só afagando as bolhas, tropeçando no caminho, absorvendo as formigas, beijando a parede, deitado na parede olhando para as nuvens. Sou o céu, a nuvem ri, eu grito, você chora e ri depois. Eu desço, encontro o caminho, vejo pegadas, pego as pegadas, afago as pegadas, cheiro as pegadas. Cheiro de nada. Sigo o caminho, encontro o armário, abro suas portas, de saída pro travesseiro. Encontro seus cabelos, sou seus cabelos, entro em sua cabeça, encontro uma porta. Bato a porta. Você atende. Sou você.