A flor não se abrirá hoje.
Eu voltei áquele beco estranho, uma luminosidade esquisita emanava do céu, alguém me olhava de longe, á distância de duas ruas, alguem me queria ter ali. Entendi aquilo tudo como sendo perigoso e tratei de fugir, não para o lugar mais evidente, mas para dentro de mim. Sim, como se houvesse uma maçaneta e mesmo uma chave, mas a porta estava aberta, há muito tempo. Não é um bom dia para se arriscar. De uma a três vezes por hora eu costumo cair num redemoinho que deita ao meu lado na cama, vem de noite, vai embora de tarde, eu ignoro, eu pretendo. Sempre que o dia é frio demais, ou azul demais, eu me escondo.
O Caminho
Parecia de isopor, sim, ou aquele material que usam dentro de colchões. Estava por toda a parede, parecia um labirinto, de fato era bem estreito. E baixo. Tive que me curvar as costas para seguir em frente, confesso que me incomodou no início mas logo esqueci. Era estranho pois apesar de ficar no fim da rua, uma rua sempre tão cheia e imunda, todo o caminho estava limpo, impecável, como um novo cenário de uma peça grandiosa que envolve grandes interesses financeiros (todo grande interesse é financeiro). E poxa, como era lindo aquilo. Alguns galhos saíam dos buracos na parede, a luz esverdeada me guiava os passos. Me dei conta de que o caminho ficava cada vez mais baixo e estreito até que terminou, num pequeno cubículo minúsculo, ou a cabeça ou os pés. Eu insisti, bati por uns instantes, mas nada aconteceu. Voltei, com alguma dificuldade para me virar. Não fiquei muito feliz quando percebi que algumas formigas saíam pelo chão acolchoado, formigas verdadeiramente grandes, assustadoras e venenosas, cheias de fúria, hostis e pérfidas. Os olhos eram (....)
Finalmente saí, e tudo lá fora era diferente, chovia, muito, uma chuva plástica, afinal o local estava coberto. Logo á minha frente um bosque, com árvores enormes cujos galhos saudavam os ventos e os ventos saudavam os galhos e eu saudava a vida e a morte me espreitava. Tive essa sensação de risco, e corri em direção ao bosque, que a cada passo se abria mais. As árvores diminuiam de número e um enorme campo podia ser visto. Era um campo rosa, as árvores não deveriam estar no meio da trilha, eu pensava, pois elas estavam mesmo no meio das trilhas, se um carro resolvesse passar ali, mas ali jamais passariam carros. Porque não? Eu já andava por bastante tempo. Nas poucas árvores que ali tinha, ao invés de frutas, nasciam fios, fios espessos e vermelhos, longos e brilhantes, como esses de fita cassete, mas não. E também algumas frutas morriam na grama (também rosa, era tudo rosa, desde os campos, até o céu, com o porém de que ao céu se misturava uma coisa meio laranja, meio roxa) e bem, as frutas eram enormes, pareciam grandes abóboras, mas tinham a forma de maçã. Meu amigo pegou algumas e seguimos em frente. O bosque se fechava novamente e novamente se abria, ventava forte, eu quis muito continuar mas meu amigo disse "não" e eu voltei. Demorou um tempo pra que encontrássemos a rua de casa, viramos por aqui e por ali, até que vimos um velho bazar de um homem tão velho quanto, e que estava aberto apesar de ser sábado. Entramos ali, não havia ninguém, aproveitamos para pegar algumas coisas, lembro de estar feliz, por não ter que gastar dinheiro com produtos que eu realmente queria ter, e pareciam saborosos alguns deles. Meu amigo entrou pelo fundo do bazar, tinha ali uma espécie de corredor, mal acabado, podre, amarelado e deprimente, e ao seu lado uma porta. Abrimos a porta. Escondemos o que pegamos numa coberta, que um de nós trazia. Ao abrir a porta, lá estava nossa avó. Preparava não sei o quê, acho que era milho, pois lembro de querer muito aquilo, e eu sempre quero muito milho, e ele sempre acaba. Logo em cima de sua cabeça estava pendurado um quadro, com a imagem de um palhaço, assustador. Passei correndo para que ele não me visse e entrei nos quartos. Todos estavam com a luz apagada, fiquei com medo e me aproximei da porta. Uma luz azul brilhava intensamente no meio desse breu, e então fui até ela. A luz ganhou forma, era uma janela, que dava pro quintal. Me assustei ao ver uns 49 cachorros, com olhos vermelhos. Eram meus cachorros. Não pareciam amigáveis, contudo. Fiquei a refletir numa maneira de sair dali. Os cachorros latiam, agressivos, quanto mais medo eu sentia, um cachorro a mais surgia. Quando pensei que o fim era inevitável, veio sussurrando minha mãe, segurou em meus braços, me deu uma bronca, insistiu que não havia cachorro nenhum, eu chorava, soluçava, sem controle, sem ar. Ela me puxava, aproximava o rosto e gritava cada vez mais. Olhei de novo para fora da janela, pois então ela estava certa, vi ali apenas uns cachorros filhotes, dois ou três apenas, numa cesta. Uma familiar minha passava a mão em todos eles, queria ter todos eles, queria ser todos eles. Queria comê-los. Eu queria matá-la. Meus cães. Sinto que odiava ela, por coisas anteriores, e odiava ainda mais quando me falava doce. Sempre prezei pela equidade, nunca me vi bem com a moral sendo rude a quem me falava com serenidade, embora uma voz me dissesse "não se deixe enganar". Peguei ela pelos braços e saímos, rua acima. Era noite, bem brilhante e quente. A subida que dava para a rua na qual desejávamos chegar era quase vertical, lembro mesmo de ter que segurar nos paralelepípedos para não escorregar e de quase me arrebentar depois de deslizar por um barranco de 15 metros. Foi dificil mas conseguimos. Cinco casas á nossa frente, uma casa conhecida. Não me recordo quem morava ali, mas sabia que podia entrar. Disse "vamos pregar uma peça", e fomos. Abri o portão, com cautela. Na garagem tinha um carro e foi justo embaixo dele que nos escondemos. Ficamos ali algum tempo. Acho que ninguém estava em casa, tudo escuro, quieto. Ficamos a observar pela vidraça. Algo se moveu lá dentro. A garota.... o garoto, quis ir mais para frente, mas eu senti medo nessa hora, ainda mais medo depois que a porta se abriu. Foi como se de tanto presumirmos que não havia ninguem em casa, realmente não houvesse, e o fato de a porta ter se aberto passou a ser um acontecimento sobrenatural. Corremos então, tão rápido quanto pudíamos. Olhei para trás, com resistência, uma pessoa corria atrás de nós, furiosa. Muito furiosa. O garoto que estava comigo era deveras mais rápido e me passou. Acho estranho isso pois sempre fui muito rápido, não obstante, meu pé não conseguia me acompanhar Tanta força eu fizesse, tanto mais me cansava e tanto menos corria. Quando me dei conta, apenas andava. A pessoa ainda furiosa e implacável já tocava a mão em meus ombros. Olhei para a frente, tinha um bar. O dono do bar era gente complacente, digo isso porque resolvi entrar lá como último esforço. Entrando lá, a pessoa me pegou. Me virou com brutalidade, não quis olhar não quis olhar, medo de abrir os olhos, sentia o ar poderoso saindo da boca, gritando, dizendo "olhe". Eu olhei. Era uma garota, cabelos pretos, pernas curtas. Não. Era uma garota traída. E me exigia explicações. Pois expliquei, comprei-lhe um pedaço de bolo ali mesmo, o dono do bar que era complacente provou essa qualidade que tanto estimavam nele e me deixou pagar depois, posto que minhas moedas caíram na fuga. Acariciei os cabelos da garota, disse algumas palavras doces, e falei para que ela me esperasse. Então fugi. Me encontrava numa avenida, dessas envoltas por matas intermináveis, como aquelas por onde se passa durante uma viagem, pois lá estava eu. Ouvi umas vozes, bem baixas, reconheci todas e cheguei perto. Eram meus amigos, agachados, me falavam para abaixar também senão achariam a gente. Eu me abaixei e esperei. Eles estavam bêbados, o frio me incomodava. Um deles morreu, nós choramos e cortamos caminho pelo mato. Estava úmido da garoa que caía há tempos, tudo é úmido nessa vida. Senti que devia segurar a mão do que vinha atrás de mim e do que estava á minha frente, andamos assim até que nossas mãos se separaram, não pude mais vê-los pois a mata se tornava densa e alta. Sei que só ouvi o silêncio. Então ventou, eu corri, a água subia, quis chegar logo a algum lugar seguro, mas só havia o eco. A água subiu ainda mais, já batia no meu peito. Agarrei com força a um tronco mas a água o engoliu também. Enquanto morria, senti algo tocando meus pés. Era um conhecido da família, veio me salvar, me chamou de bobo, disse que eu me desesperava á toa "você se desespera á toa" e riu. Eu ri também, e concordei. Ele ligou para minha casa, e eu me senti tranquilo, como quando a brisa bate e nunca vai embora.