quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

a coisa

quando você era criança a coisa veio te visitar, com berros ensurdecedores e uma presença nociva, no início apenas de noite, depois no final da tarde e então logo de manhã, sua mãe dizia 'não tem nada aqui', você realmente não a via mas sabia. Você dormiu e quando acordou, a coisa tinha ido embora.
Você cresceu e chegou á adolescência, a coisa voltou, não só uma mas várias vezes, te abraçou inclusive e foi a única que esteve ao seu lado. As palavras que dizia no seu ouvido ninguém jamais poderia dizer com tanta veracidade. Um dia você abriu a janela, tinha um jardim lá, sem flor nenhuma, você não sorriu mas se sentiu bem. Virou para o quarto, a coisa tinha partido.
Você amadureceu, arranjou um emprego, um amante, um partido político e uma religião. Um dia dormiu e quando acordou a coisa estava lá de novo. Só que mais fria, não berrava mais, parecia inofensiva até, não se moveu nem um instante. Você viu os dias passarem e a coisa esteve presente em todos eles. Quando se entregava aos prantos e ao calor da cama, a coisa nem uma palavra dizia mas olhava sem piscar, para dentro do seu rosto. A coisa te tomou por completo sem sequer se mexer. O seu amante se cansou da sua coisa. A coisa te fez se cansar do seu trabalho. A sua religião não atendia ás necessidades da coisa. O seu partido desconhecia a coisa. A coisa crescia, você diminuia. A coisa silenciava, você gritava. Você chorava, a coisa sorria. Um dia você dormiu, quando acordou sentiu uma coisa.