sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

seus olhos são meus agora, eu os pego e aperto e deles saem pequenos insetos sem asas, grandes insetos com asas que voam para algum fio atrevido de cabelo. Quando estou longe, eu os como.


UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.

TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.

INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.


QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.

AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.