O mundo veio me chamar, gritou meu nome no portão. Não atendi. Entrou. Bateu na porta, com força, depois suave, me escondi nas cobertas. Foi á janela do quarto, murmurou, murmurou de novo. Aí foi embora.
Era cedo quando acordei e todos pareciam felizes com algo, falavam ao mesmo tempo, dançavam até. Eu sentei á mesa e tomei café, estava gelado. Olhei no fundo da xícara, havia algo lá, aproximei meus olhos e vi. Vi um rapaz sorridente. Ao lado dele uma senhora de idade, usando roupas de uma garota de 16 anos. Depois os vi indo para um cômodo apertado e no fundo desse cômodo tinha uma porta, bem pequena e quadrada. Vi as mãos do rapaz a abrindo e depois vi o mundo.
Saí de casa, num dia úmido, numa hora que ainda era a criança de todas as horas. O caminho era cinza mas eu continuei. Virei duas ruas, o céu parecia querer dizer algo e também as árvores. O céu devia estar cantando uma música, as árvores deviam estar dançando, as pessoas estavam dormindo. Cheguei ao ponto de ônibus, duas senhoras esperavam ali, com olhos fechados, com as mãos cheias de sacolas. O ônibus veio, vazio como nunca vem. Subimos nós três, sentamos nós três. Eu queria que houvesse um mar logo ao meu lado assim eu poderia mergulhar como me deu vontade de fazer. A viagem não demorou muito afinal prestei atenção a cada rosto voando do lado de fora da janela. Rostos de quem já viu um assassinato, de quem já fez sexo inúmeras vezes, de quem já tocou em muito dinheiro, de quem já esteve em outros países, em outras realidades, de quem já conheceu outros segredos ou viu outros rostos. Vi esses rostos e então desci. Segui por outro caminho, tão cinza e úmido, porém mais tarde. O céu estava em silêncio e as árvores não as vi nenhuma. Outra vez uma porta pequena e quadrada, entrei por ela, havia um garoto que não sorria, ele me levou a um cômodo apertado aonde deitava uma velha sua mãe, vestida de bebê. Me ofereceu um café, eu aceitei.