esse não é um sonho meu, mas eu estava nele. Embora não seja um sonho meu, eu sou do sonho, então ali estava. Ali estava quando vi a garota sair do carro com pressa, e quando vi três homens a perseguindo. Ali estava quando os vi pegá-la pelo braço. Quando os vi levantar a sua saia. Ainda estava ali quando começaram a lhe fazer doentices.
Não estava mais ali, estava em outro lugar, mais claro, com mais flores, e mais jardins e mais pessoas e menos carros, ou mais carros, ás vezes. Um som de trompete tocou lá no fundo e eu fui ver o que era. O som continuava, mas a cada passo que eu dava, mais distante ele parecia. Andei por vários minutos então, quando percebi que estava longe. Voltava pro lugar de partida e o ouvia mais próximo. Segui por todas as direções, sem conseguir localizá-lo. Dois passos para trás, para frente ou para os lados, dois decibéis mais baixo, duas ruas mais distante. Então olhei pra cima.
A estrada estava praticamente deserta, demorou horas pra que o primeiro motorista passasse, não só o primeiro motorista, mas o primeiro motorista que parou. Desceu ele o homem/motorista e foi pegar a garota caída no chão, suja de sangue e de sêmen e descabelada e cinza. Pôs a moça no porta-malas e continuou viagem. Nesse momento lembro de haver um animal que olhava fixamente todo o ocorrido e que foi para o bosque contar alguma coisa. De volta aos pneus, sentia esse cheiro de perfume antigo, de perfume de alguém que não existe mais, que existiu uma vez, deixou o cheiro e partiu. Me incomodou um pouco mas continuei dirigindo. Não liguei o rádio, ainda assim tocou um som, uma música calma, como uma mão macia, tocou meu rosto e depois meus cabelos e então meus lábios, e desceu por meu peito até minha calça. Alguns instantes depois tudo pareceu mais lento, como se o tempo se tornasse sólido o suficiente para que eu pudesse senti-lo agarrando meus braços, me impedindo de continuar. Meu ar, quase o perdi, a voz, a perdi totalmente, mas lembro de soltar gritos silenciosos, que só eu ouvia. Se eu fosse alguém além de mim, teria me salvado. Já era noite, quando fiquei livre, e o banco do carro era uma cama, parece, pois senti como se tivesse deitado ali dois dias seguidos. Os limpadores de parabrisa se moviam devagar, era o tempo que ainda não tinha passado totalmente. A chuva que caía batia no vidro e os pingos formavam imagens, pelo menos achei isso até que percebi que eles realmente dançavam. Vi um rosto, não no vidro, nem no espelho, mas nas gotas d'água. Ele me encarou e disse -"prossiga". E eu prossegui.
Corri por entre tantos galhos, e tantas folhas e cada vez mais verde, marrom e musgo. E as abelhas tinham uma forma estranha, e tamanho de rato. O céu não é tão longe assim, pensei. A grama estava úmida, as folhagens criavam coreografias absurdas, que não deviam ser criadas nessa época do ano. Achei uma árvore velha e um grande buraco nela. Desse buraco saía uma luz amarelada, bem fraca, mas nos dias cinzas toda luz é excessivamente brilhante. O som desapareceu quando entrei ali. Nesses segundos de supressão, vi olhos, não dois, mas dez, olhos com corpos sentados á mesa, olhos que olhavam a carne na sopa de flores, cozinhando, olhos que tinham linguas e que lambiam uns aos outros e que comiam as próprias linguas enquanto as olhavam. Sentei-me ali, ouvi um estalo. O som voltou, o vento soube disso e assobiou lá fora, da árvore. O olho mais curioso perguntou "que foi?", o mais covarde insistiu "que foi?", o olho mais alegre apenas olhou e então os contei: "houve uma confusão"
Vesti minhas roupas de verão, era inverno, andei pelo quarto enquanto me olhava no espelho e me via com cabelos mais lisos, e rosto mais belo e corpo mais definido. E olhos azuis. E graciosidade latente. Olhei muito o espelho até que ele próprio se cansasse e minha imagem partisse me deixando sozinho. Fui até a janela, olhei as palmeiras e ouvi a música. Vi a dança e também a euforia. Um moço lá debaixo gritou que eu descesse. Desci. A porta apenas se abriu. E lá fui eu, pisando no chão como um anjo pisa nas nuvens, como um peixe-cigarra mergulha no nada. Lá fui eu, andando, e os passos produziam notas. E as notas sempre se calavam quando eu pensava em me apressar. Fui de encontro ao moço. Que agora de perto não parecia tão bonito quanto lá de cima, da janela. Que agora de perto era mais de um. Que agora de perto me tocou suavemente e me fez ceder. Que agora de perto eu vejo isso. Que agora de perto volto pra onde não deveria estar.