domingo, 11 de dezembro de 2011

o mundo

O mundo veio me chamar, gritou meu nome no portão. Não atendi. Entrou. Bateu na porta, com força, depois suave, me escondi nas cobertas. Foi á janela do quarto, murmurou, murmurou de novo. Aí foi embora.
Era cedo quando acordei e todos pareciam felizes com algo, falavam ao mesmo tempo, dançavam até. Eu sentei á mesa e tomei café, estava gelado. Olhei no fundo da xícara, havia algo lá, aproximei meus olhos e vi. Vi um rapaz sorridente. Ao lado dele uma senhora de idade, usando roupas de uma garota de 16 anos. Depois os vi indo para um cômodo apertado e no fundo desse cômodo tinha uma porta, bem pequena e quadrada. Vi as mãos do rapaz a abrindo e depois vi o mundo.
Saí de casa, num dia úmido, numa hora que ainda era a criança de todas as horas. O caminho era cinza mas eu continuei. Virei duas ruas, o céu parecia querer dizer algo e também as árvores. O céu devia estar cantando uma música, as árvores deviam estar dançando, as pessoas estavam dormindo. Cheguei ao ponto de ônibus, duas senhoras esperavam ali, com olhos fechados, com as mãos cheias de sacolas. O ônibus veio, vazio como nunca vem. Subimos nós três, sentamos nós três. Eu queria que houvesse um mar logo ao meu lado assim eu poderia mergulhar como me deu vontade de fazer. A viagem não demorou muito afinal prestei atenção a cada rosto voando do lado de fora da janela. Rostos de quem já viu um assassinato, de quem já fez sexo inúmeras vezes, de quem já tocou em muito dinheiro, de quem já esteve em outros países, em outras realidades, de quem já conheceu outros segredos ou viu outros rostos. Vi esses rostos e então desci. Segui por outro caminho, tão cinza e úmido, porém mais tarde. O céu estava em silêncio e as árvores não as vi nenhuma. Outra vez uma porta pequena e quadrada, entrei por ela, havia um garoto que não sorria, ele me levou a um cômodo apertado aonde deitava uma velha sua mãe, vestida de bebê. Me ofereceu um café, eu aceitei.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

seus olhos são meus agora, eu os pego e aperto e deles saem pequenos insetos sem asas, grandes insetos com asas que voam para algum fio atrevido de cabelo. Quando estou longe, eu os como.


UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.

TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.

INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.


QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.

AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.




domingo, 4 de dezembro de 2011

supostamente hoje eu teria que pegar as vacas todas elas e colocá-las para dentro pois chove lá fora e há a expectativa de um monstro que virá para pôr abaixo tudo que se construiu se hoje sou homem é porque sei cozinhar tudo aquilo que põe na mesa em prestações pequenos serviços vem vão e eu que fui noite e hoje sou ensolarado regado de benção mãos circuncidadas que querem me pegar pelo pescoço e me jogar no mais infimo abismo do esquecimento esse que hoje eu condeno e apesar de tudo tanto desejo para mim e minha familia para que comamos toda a refeição sem ter que dizer depois "obrigado" a noite vem calma com vestido preto e bolinhas de brilhante entre uma e outra áurea áurea eu digo proporções para que colocá-las todas num mesmo quadrado? eu rio todos riem a piada está feita não me ouviram agora os gritos mais altos que dei sempre pensei que nunca o mais alto grito poderia ser tão alto mas agora que o fiz penso como o farei da proxima vez terei que me silenciar como faço agora as pontuações exigem um pouco de consolidação e respeito as regras requerem cuidados proteção flores em suas orelhas meninas graciosas dançam em volta da mesa um senhor muito inoportuno pede por misericórdia bem agora eu sei o que é voar atrás de mim um canhão um vento a estrutura básica de todas as coisas me suspende na terra eu sou a paixão que consome a carne do boi o boi não queria morrer grupos defenderam seus ideais hoje eu almoçarei ideais e amanhã logo cedo estarei partindo numa viagem de encontro a outra coisa senão as malas porque devo levá-las são elas todas pesadas para minhas mãos e o piano agora sente ciúmes e quer que me diga uma nota só que corresponda a todas as estrelas do céu.

O sono veio me provocar me trazer desesperança e esse homem com o rosto coberto de rugas me diz "pare" e eu continuo a andar por entre as rochas embora queira voltar para casa mas a casa parece tao distante que agora me vejo como um quadro pendurado na parede bem aos olhos de uma dama que perdeu recentemente seu cachorro, seu pai, mestiço, luta por um pouco de autoridade enquanto toda a cidade pede bolo. A musica jamais parará, diz o monge, e o arco iris cairá do ceu como o pote de ouro que encontraram lá dentro do labirinto de judas, judas foi partidario palavreador, encontra ou perde-se logo depois de ser quem não pensou jamais que seria pois o filho na escola deixou que lhe ensinassem música e letras e seguiu rumo ao mar, no mar se afogou tal como estrela outrora fora todas as mulheres compatriotas de sua terra. Lá vem ele, envolto em sombras cantar a canção dos mortos que hoje se levantam e gritam "poxa". Amanhã serei finalmente sepultado desejo que tu me visites e me diga com palavras doces "eu sempore te amei, não hoje"!

sábado, 26 de novembro de 2011

o animal também é gente

A flor não se abrirá hoje.
Eu voltei áquele beco estranho, uma luminosidade esquisita emanava do céu, alguém me olhava de longe, á distância de duas ruas, alguem me queria ter ali. Entendi aquilo tudo como sendo perigoso e tratei de fugir, não para o lugar mais  evidente, mas para dentro de mim. Sim, como se houvesse uma maçaneta e mesmo uma chave, mas a porta estava aberta, há muito tempo. Não é um bom dia para se arriscar. De uma a três vezes por hora eu costumo cair num redemoinho que deita ao meu lado na cama, vem de noite, vai embora de tarde, eu ignoro, eu pretendo. Sempre que o dia é frio demais, ou azul demais, eu me escondo.

O Caminho

Parecia de isopor, sim, ou aquele material que usam dentro de colchões. Estava por toda a parede, parecia um labirinto, de fato era bem estreito. E baixo. Tive que me curvar as costas para seguir em frente, confesso que me incomodou no início mas logo esqueci. Era estranho pois apesar de ficar no fim da rua, uma rua sempre tão cheia e imunda, todo o caminho estava limpo, impecável, como um novo cenário de uma peça grandiosa que envolve grandes interesses financeiros (todo grande interesse é financeiro). E poxa, como era lindo aquilo. Alguns galhos saíam dos buracos na parede, a luz esverdeada me guiava os passos. Me dei conta de que o caminho ficava cada vez mais baixo e estreito até que terminou, num pequeno cubículo minúsculo, ou a cabeça ou os pés. Eu insisti, bati por uns instantes, mas nada aconteceu. Voltei, com alguma dificuldade para me virar. Não fiquei muito feliz quando percebi que algumas formigas saíam pelo chão acolchoado, formigas verdadeiramente grandes, assustadoras e venenosas, cheias de fúria, hostis e pérfidas. Os olhos eram (....)
Finalmente saí, e tudo lá fora era diferente, chovia, muito, uma chuva plástica, afinal o local estava coberto. Logo á minha frente um bosque, com árvores enormes cujos galhos saudavam os ventos e os ventos saudavam os galhos e eu saudava a vida e a morte me espreitava. Tive essa sensação de risco, e corri em direção ao bosque, que a cada passo se abria mais. As árvores diminuiam de número e um enorme campo podia ser visto. Era um campo rosa, as árvores não deveriam estar no meio da trilha, eu pensava, pois elas estavam mesmo no meio das trilhas, se um carro resolvesse passar ali, mas ali jamais passariam carros. Porque não? Eu já andava por bastante tempo. Nas poucas árvores que ali tinha, ao invés de frutas, nasciam fios, fios espessos e vermelhos, longos e brilhantes, como esses de fita cassete, mas não. E também algumas frutas morriam na grama (também rosa, era tudo rosa, desde os campos, até o céu, com o porém de que ao céu se misturava uma coisa meio laranja, meio roxa) e bem, as frutas eram enormes, pareciam grandes abóboras, mas tinham a forma de maçã. Meu amigo pegou algumas e seguimos em frente. O bosque se fechava novamente e novamente se abria, ventava forte, eu quis muito continuar mas meu amigo disse "não" e eu voltei. Demorou um tempo pra que encontrássemos a rua de casa, viramos por aqui e por ali, até que vimos um velho bazar de um homem tão velho quanto, e que estava aberto apesar de ser sábado. Entramos ali, não havia ninguém, aproveitamos para pegar algumas coisas, lembro de estar feliz, por não ter que gastar dinheiro com produtos que eu realmente queria ter, e pareciam saborosos alguns deles. Meu amigo entrou pelo fundo do bazar, tinha ali uma espécie de corredor, mal acabado, podre, amarelado e deprimente, e ao seu lado uma porta. Abrimos a porta. Escondemos o que pegamos numa coberta, que um de nós trazia. Ao abrir a porta, lá estava nossa avó. Preparava não sei o quê, acho que era milho, pois lembro de querer muito aquilo, e eu sempre quero muito milho, e ele sempre acaba. Logo em cima de sua cabeça estava pendurado um quadro, com a imagem de um palhaço, assustador. Passei correndo para que ele não me visse e entrei nos quartos. Todos estavam com a luz apagada, fiquei com medo e me aproximei da porta. Uma luz azul brilhava intensamente no meio desse breu, e então fui até ela. A luz ganhou forma, era uma janela, que dava pro quintal. Me assustei ao ver uns 49 cachorros, com olhos vermelhos. Eram meus cachorros. Não pareciam amigáveis, contudo. Fiquei a refletir numa maneira de sair dali. Os cachorros latiam, agressivos, quanto mais medo eu sentia, um cachorro a mais surgia. Quando pensei que o fim era inevitável, veio sussurrando minha mãe, segurou em meus braços, me deu uma bronca, insistiu que não havia cachorro nenhum, eu chorava, soluçava, sem controle, sem ar. Ela me puxava, aproximava o rosto e gritava cada vez mais. Olhei de novo para fora da janela, pois então ela estava certa, vi ali apenas uns cachorros filhotes, dois ou três apenas, numa cesta. Uma familiar minha passava a mão em todos eles, queria ter todos eles, queria ser todos eles. Queria comê-los. Eu queria matá-la. Meus cães. Sinto que odiava ela, por coisas anteriores, e odiava ainda mais quando me falava doce. Sempre prezei pela equidade, nunca me vi bem com a moral sendo rude a quem me falava com serenidade, embora uma voz me dissesse "não se deixe enganar". Peguei ela pelos braços e saímos, rua acima. Era noite, bem brilhante e quente. A subida que dava para a rua na qual desejávamos chegar era quase vertical, lembro mesmo de ter que segurar nos paralelepípedos para não escorregar e de quase me arrebentar depois de deslizar por um barranco de 15 metros. Foi dificil mas conseguimos. Cinco casas á nossa frente, uma casa conhecida. Não me recordo quem morava ali, mas sabia que podia entrar. Disse "vamos pregar uma peça", e fomos. Abri o portão, com cautela. Na garagem tinha um carro e foi justo embaixo dele que nos escondemos. Ficamos ali algum tempo. Acho que ninguém estava em casa, tudo escuro, quieto. Ficamos a observar pela vidraça. Algo se moveu lá dentro. A garota.... o garoto, quis ir mais para frente, mas eu senti medo nessa hora, ainda mais medo depois que a porta se abriu. Foi como se de tanto presumirmos que não havia ninguem em casa, realmente não houvesse, e o fato de a porta ter se aberto passou a ser um acontecimento sobrenatural. Corremos então, tão rápido quanto pudíamos. Olhei para trás, com resistência, uma pessoa corria atrás de nós, furiosa. Muito furiosa. O garoto que estava comigo era deveras mais rápido e me passou. Acho estranho isso pois sempre fui muito rápido, não obstante, meu pé não conseguia me acompanhar Tanta força eu fizesse, tanto mais me cansava e tanto menos corria. Quando me dei conta, apenas andava. A pessoa ainda furiosa e implacável já tocava a mão em meus ombros. Olhei para a frente, tinha um bar. O dono do bar era gente complacente, digo isso porque resolvi entrar lá como último esforço. Entrando lá, a pessoa me pegou. Me virou com brutalidade, não quis olhar não quis olhar, medo de abrir os olhos, sentia o ar poderoso saindo da boca, gritando, dizendo "olhe". Eu olhei. Era uma garota, cabelos pretos, pernas curtas. Não. Era uma garota traída. E me exigia explicações. Pois expliquei, comprei-lhe um pedaço de bolo ali mesmo, o dono do bar que era complacente provou essa qualidade que tanto estimavam nele e me deixou pagar depois, posto que minhas moedas caíram na fuga. Acariciei os cabelos da garota, disse algumas palavras doces, e falei para que ela me esperasse. Então fugi. Me encontrava numa avenida, dessas envoltas por matas intermináveis, como aquelas por onde se passa durante uma viagem, pois lá estava eu. Ouvi umas vozes, bem baixas, reconheci todas e cheguei perto. Eram meus amigos, agachados, me falavam para abaixar também senão achariam a gente. Eu me abaixei e esperei. Eles estavam bêbados, o frio me incomodava. Um deles morreu, nós choramos e cortamos caminho pelo mato. Estava úmido da garoa que caía há tempos, tudo é úmido nessa vida. Senti que devia segurar a mão do que vinha atrás de mim e do que estava á minha frente, andamos assim até que nossas mãos se separaram, não pude mais vê-los pois a mata se tornava densa e alta. Sei que só ouvi o silêncio. Então ventou, eu corri, a água subia, quis chegar logo a algum lugar seguro, mas só havia o eco. A água subiu ainda mais, já batia no meu peito. Agarrei com força a um tronco mas a água o engoliu também. Enquanto morria, senti algo tocando meus pés. Era um conhecido da família, veio me salvar, me chamou de bobo, disse que eu me desesperava á toa "você se desespera á toa" e riu. Eu ri também, e concordei. Ele ligou para minha casa, e eu me senti tranquilo, como quando a brisa bate e nunca vai embora.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

sob a mesa duas crianças foram mortas

já que eu não conhecia nenhum deles e todos eles se conheciam e me conheciam também, antes mesmo de nos apresentarmos. Estavam á mesa, conversando sobre algum presidente cujo nome não me lembro mas que é o presidente do pais onde moro. Não me vem á mente se era mal ou bem que falavam mas na minha cabeça quando se junta bebida, mesa, 5 pessoas e um presidente que não é uma das 5 pessoas, imagino que se fala mal. Então falavam mal do presidente do meu país, que era também o país deles, e que tanto amavam, para ignorar que estivesse nas mãos de alguém tão desprezível, que era o presidente do meu país.

O presidente do meu país saiu certa manhã para uma reunião a fim de discutir o futuro da educação do meu país, um futuro que duraria 2 anos. Estava á mesa, bebendo os papéis em copos de vidro. Um homem velho vinha buscar os copos, parecia que lavava pois que os mesmos copos voltavam depois como se nunca se tivesse bebido algo neles. Algumas bocas gritavam muito e os vidros se rachavam. Se rachavam de qualquer maneira. Sempre que se tocava no assunto proibido, as pessoas em volta da mesa procuravam olhar sob os seus sapatos. Mas não estava nada ali. Ali tinha uma mulher.

A mulher voltou do trabalho, cansada, iludida, humilhada, com ares de melancolia e cheia de muito nada. Ela tinha um filho, mas não se lembrava. Se lembrou ao vê-lo no portão, gritando. A mãe se sentiu sozinha no mundo, mesmo a dois, ou a três, não há remédio pra essas coisas. A mãe se sentiu sozinha no mundo. Abriu o portão onde antes se encontrava uma criança, filha sua, mas que agora guarda apenas um pedaço de papel. E nesse papel há um mistério pra se desvendar. Mas é tarde. Eu vou pra casa.

A casa não era antiga. Nem possuia grande valor. Ninguem se interessou por ela. Nem mesmo as cinco moças que nela moravam. Não tinham interesse, tinham necessidade e vontade de voar e serem felizes e foi aí que a casa veio, sem dar tudo de si, mas condicionalmente se dar. O tempo, me lembro, era como é hoje, mas um pouco mais claro, porque, me lembro, o rosto de uma das garotas estava demasiado iluminado, não por uma luz de tungstênio mas por uma luz que vinha de cima e dos lados e olhe só de baixo também, e era verde. Não porque eu via verde, mas porque alguém disse "a luz é verde".
Desceram as escadas duas garotas para cuidar do gato ferido que haviam guardado no armário, um animal de beleza rara, que seduzia, e que marcava, e que lá estava pronto para ser acariciado. Quando as garotas acariciavam esse gato, ele emitia um som de máquina. Não de uma máquina mas de todas as máquinas do mundo, inclusive aquelas que ninguem de nós vê. Exceto o presidente do meu país.
Um homem vestindo um uniforme com uma caixa sob os braços retirou os fios dali e o discurso continou, aliás, desse modo é que todos desceram a rua.

Você estava daquele lado, antes da pausa, mas quando continuei, você não estava mais ali. Agora gostaria muito de saber onde poderia te encontrar. As pessoas ficam bravas quando são deixadas a falar com as paredes. As paredes se entediam. No fim não é bom desaparecer. É sempre bom estar onde se estava antes.

Os rapazes passavam maravilhados enquanto o vento balançava seus cabelos, ruivos, louros, esverdeados, marrons, cor de luxúria. Os carros não se moviam. Tudo era respeito e o céu impôs isso.
Atrás dele se percebia um pequeno motim grande motim, e atrás do motim uma senhora que conversava sozinha. Fomos até lá e observamos. Ela tinha olhos fundos porque todos têm olhos fundos, e dizia em claras palavras "nada precisa ser dito". Lembro que um dos que estavam ao meu lado (eu poderia dizer hoje que era uma garota mas não estaria me traindo se dissesse que eu mesmo era uma garota e que um garoto estava do meu lado), pois então, lembro que um dos que estavam ao meu lado sussurrou umas coisas doces e a situação toda me foi propícia ao choro e as emoções constrangedoras, eu disfarço muitas delas todos os dias tanto que sinto nojo quando alguém me chama de flor, mas nesse dia alguém poderia me chamar de flor que eu estaria lá com algum sorriso falso no rosto. Foi questão de segundos para que estivessemos tomando um chá. Numa mesa muito redonda, mas me vem umas pontas, não posso dizer se eu estava por ali, talvez me tenham contado, no entanto, as gargalhadas foram bem altas.

Eu estava disposto a


















quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Eu vou dizer o que aconteceu

Era noite. Bem escura, como nunca foi uma noite.
Era um beco. Longe. No fim da rua havia um beco. E alguma ventania. E depois uma criatura, pequena e com grandes olhos, entrou num ônibus que passava logo ali. Eu corri atrás da criatura com meu carro. Corri em velocidade máxima pelas estradas interminaveis. E ela desaparecia toda vez numa curva, ou no horizonte e depois de cada nova linha do horizonte, havia algum castelo e umas montanhas, e além de tudo um céu roxo. E a criatura voava, como nunca, e eu podia dar grandes pulos, e flutuar depois de cada grande pulo. Então eu pulei, e flutuei, e as pessoas olhavam curiosas, e queriam pular e flutuar também. Lembro de uns rochedos e de algumas crianças subindo neles para perder peso. As mães esperavam ao lado, torcendo pelos filhos. Um garoto loiro venceu a prova, todos estavam felizes, as coisas ruins e feias e grosseiras sempre serão ruins e feias e grosseiras e sempre haverá fracasso. Todos saíram, atrás de uma pedra, havia uma rua que era a minha e uns vizinhos que eram os meus. E também a minha mãe, que, por um acaso tinha o rosto de alguem desconhecido. Nós seguimos adiante, havia uma passeata, algumas pessoas realmente deslizavam, e isso acontecia no meio de uma avenida, onde carros passavam feito máquinas imbativeis, muitos eram atropelados, e a carcaça ficava no chão, colorindo com um vermelho belo o chão. Pois então entrei num buraco iluminado a esquerda, junto do meu amigo que hoje é meu amante e sussurrei umas palavras, e senti inibição por parte dele e atrevimento por parte minha, mas aí nos juntamos e eu quis beijá-lo, por um momento consegui tocar sua boca, mas então havia uma janela e umas outras pessoas nos chamavam, saí dali e fui ver o que acontecia, acontecia algo estranho, ninguem sabia dizer, era na rua de casa, de uma outra casa que não é minha nem fica numa rua, mas era lá e lá eu estava, pois, alguém me chamou, estava em preto e branco e não se movia, o chamei de meu amigo e abri um portão, havia sacolas na minha mão, com doces, deixei ali e segui. Era uma rua estranha, que se dividia como uma bifurcação, mas que era reta e redonda, atravassei com medo de ser atropelado pelos garotos que andavam de bicicleta em velocidade máxima, e entrei numa lojinha, com muito dinheiro ou dinheiro nenhum. E escolhi alguns grãos de não sei o quê, sucrilhos ou pellets, e ainda podia comprar mais, mas fiquei tão indeciso porque queria apenas canetas profissionais para fazer desenhos, mas não poderia desperdiçar uma chance dessas e escolhi varios produtos pra levar mas não levei nada porque em cima de mim estava uma grande arvore, na rua de trás, e um familiar me ultrapassou com sua moto, pois o segui, minha moto era mais potente, mas poxa, como eu era rico. Minha casa era grande e iluminada com uma luz amarelada/erverdeada, e sei que corri, dei voltas no posto de gasolina, mas tive que parar afinal de contas havia uma festa e eu deveria estar lá. Lá estava então, era como se algo grandioso fosse acontecer mas nunca acontecia e no fim a sensação de algo grandioso iminente era grandiosa o suficiente para suprir a falta de algo grandioso mas passageira demais para ser grandiosa. Minha tia estava sentada ao fundo, todos em volta dela lhe dizendo palavras de consolação, pois que ela tinha câncer e eu nunca sei o que dizer a pessoas que caem em desgraça, lhe dei um abraço e fui sair, no mesmo momento não havia mais festa, mas havia sujeira, dessas que aparecem depois de uma grande festa, embora nunca tivesse ocorrido uma. Era de manhã e eu estava atrasado para trabalhar, mesmo estando de férias, na verdade, andava pelo centro da cidade, com um avental branco, em busca de um lanche, e era vendido apenas na banca de jornal da próxima quadra, mas não tinha dinheiro e tive que paga-lo com um recibo de uma conta qualquer. O mal durou pouco pois a necessidade falava mais alto. Cheguei ao meu emprego, sem a roupa habitual, faltavam 15 minutos para o inicio do expediente, e eu não usava os tenis. Concordamos de eu ir busca-lo em casa. Saí com uma bicicleta e segui alguns atalhos que levavam a uma caverna azulada, lá esperava um homem sujo que queria ter algo comigo, e tudo reinava úmido e marrom, nesse momento alguns cachorros passaram pelo caminho estreito e eu realizei que era possível seguir em frente, e segui. Um bebê vampiro deitava num pequeno rochedo dentro da caverna e eu fui vê-lo. Era como um cachorro que latiu e me fez voltar, voltei por um caminho plano, com árvores que balançavam ao vento, lembro que sentia fome e atrás de mim vinha uma índia com sua criança, moribunda por não ter o que comer também, ajudei a carregá-la, seguimos a trilha com desespero e pressa, a garota estava morrendo, logo em frente encontrei a casa de minha vizinha, e tratei de apertar os passos, abri a porta gritando e implorando e chorando, cansado, exausto de medo e de fome, ela, sempre bondosa nos abriu a porta e deu o que comer e beber á garota ainda a tempo. Deu também banho na menina, que era uma bela loira. Agradeci e saí de casa, lá fora havia essa rotatória e meu ônibus já tinha passado.
Senti medo pois trovejava e naquela época se falava em grandes temporais e furacões que jogavam as pessoas em riachos e buracos, e ali do lado corria um grande rio e acima gritava uma feroz tempestade, então tremi, e o medo só aumentava, nenhum ônibus aparecia. De repente surgiu um e eu dei o sinal, entrei nele mas não sabia pra onde ia. O ônibus seguiu por um caminho estranho, contornado por florestas extensas, e o dia começava a ser noite, pois a luz ficou azul escura. Eu podia ouvir os sons das cachoeiras em volta, embora não houvesse nenhuma e sabia que era melhor descer porque o ônibus cairia dali a uns 50 metros, dei o sinal para descer e ele me deixou aonde não se podia continuar muito bem a pé. Nesse momento senti uma exaltação dessas que se sente antes de uma viagem esperada. Mas vi minha mãe ao longe, entre as pedreiras, seguindo a pé. Era bem escuro, só a luz azul escura iluminava bem, e pensei numa maneira de chegar até lá. Lembro que ela me dizia para nunca ir atrás dela, que eu deveria esperar até que ela voltasse, mas eu fui. Pulei a mureta que guarda a estrada e agarrei naquele mato úmido para poder me equilibrar e ela parecia tão distante. Lembro dessa ponte de madeira que tive que passar sobre. E também de umas vozes embaixo dela. Lembro também que minha mãe não estava mais lá. Então senti medo e as vozes aumentavam, gritei o nome de minha mãe que não era o mesmo nome que eu chamo hoje, e ouvia a resposta. Segui com o ouvido a voz, e as passagens eram dificeis de se acessar. Mas então cheguei numa área plana e podia ver uns pequenos montes e a voz se tornou mais clara e me dizia "eu estou aqui seu bobo" e disse umas três vezes, na quarta vez desapareceu a voz, a esperança e a luz azul escura, e no lugar disso tudo surgiu o medo. No meio de toda aquela mata úmida e sob aquele céu cinzento dos fins de tarde de inverno e verão e outono e Polônia eu encontrei uma trilha e percorri por ela. Perdi o controle da velocidade e era como se eu estivesse rolando mas lembro que estava de pé, pensei que morreria mas outra espécie de coisa aconteceu quando eu parei. Cheguei a rua de casa, não da casa onde moro, mas da casa onde morei e estava molhado e suado e sujo de plantas, entrei numa casa logo a minha frente, mas ninguem me atendeu. Vi minha avó ao fundo, que já está morta, mas ela estava viva, viva e com suas filhas, minhas tias, esperando algo estranho que apareceria na janela, não sabia o que era mas sabia que devia tomar banho e o tomei, o banheiro era meio escuro e assustador, com uma pequena janela quadrada de madeira. A luz era de um amarelo fraco, que incomodava os olhos, e no fim me dei conta que apesar de estar tomando banho não saía água do chuveiro, lembro do medo que senti quando vi um lobisomem pela janela de madeira e do medo que senti quando lembrei que atrás dele onde deveria haver um quintal só havia um escuro. Fugi para os corredores e todas as portas de todos os quartos estavam trancadas. Demorou para que eu pensasse com razoabilidade e saísse pela porta da frente que dava a um tipo esquisito de pântano que sobretudo era belo, fui até ele, mas voltei dele, saí á rua e um carro ali estava, pedi carona, disse -"me leve até minha casa atual", o homem me levou, mas não tinha lugar na frente, pois um amigo meu estava lá, fui atrás então, na caçamba, percebi que se tratava de uma caminhonete, subimos algumas ruas, ele disse "te deixo aqui", e me deixou. Eu estava dentro de uma caixa que precisava ser aberta, mas estava fora também e procurei por uma chave, que encontrei, abri a caixa e dentro dela estava uma maçaneta, levei a maçaneta e a chave no bolso até a rua da minha casa atual, mas é engraçado pois a casa não estava lá, na verdade era uma casa em que morei há muito tempo atrás.