quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Eu vou dizer o que aconteceu

Era noite. Bem escura, como nunca foi uma noite.
Era um beco. Longe. No fim da rua havia um beco. E alguma ventania. E depois uma criatura, pequena e com grandes olhos, entrou num ônibus que passava logo ali. Eu corri atrás da criatura com meu carro. Corri em velocidade máxima pelas estradas interminaveis. E ela desaparecia toda vez numa curva, ou no horizonte e depois de cada nova linha do horizonte, havia algum castelo e umas montanhas, e além de tudo um céu roxo. E a criatura voava, como nunca, e eu podia dar grandes pulos, e flutuar depois de cada grande pulo. Então eu pulei, e flutuei, e as pessoas olhavam curiosas, e queriam pular e flutuar também. Lembro de uns rochedos e de algumas crianças subindo neles para perder peso. As mães esperavam ao lado, torcendo pelos filhos. Um garoto loiro venceu a prova, todos estavam felizes, as coisas ruins e feias e grosseiras sempre serão ruins e feias e grosseiras e sempre haverá fracasso. Todos saíram, atrás de uma pedra, havia uma rua que era a minha e uns vizinhos que eram os meus. E também a minha mãe, que, por um acaso tinha o rosto de alguem desconhecido. Nós seguimos adiante, havia uma passeata, algumas pessoas realmente deslizavam, e isso acontecia no meio de uma avenida, onde carros passavam feito máquinas imbativeis, muitos eram atropelados, e a carcaça ficava no chão, colorindo com um vermelho belo o chão. Pois então entrei num buraco iluminado a esquerda, junto do meu amigo que hoje é meu amante e sussurrei umas palavras, e senti inibição por parte dele e atrevimento por parte minha, mas aí nos juntamos e eu quis beijá-lo, por um momento consegui tocar sua boca, mas então havia uma janela e umas outras pessoas nos chamavam, saí dali e fui ver o que acontecia, acontecia algo estranho, ninguem sabia dizer, era na rua de casa, de uma outra casa que não é minha nem fica numa rua, mas era lá e lá eu estava, pois, alguém me chamou, estava em preto e branco e não se movia, o chamei de meu amigo e abri um portão, havia sacolas na minha mão, com doces, deixei ali e segui. Era uma rua estranha, que se dividia como uma bifurcação, mas que era reta e redonda, atravassei com medo de ser atropelado pelos garotos que andavam de bicicleta em velocidade máxima, e entrei numa lojinha, com muito dinheiro ou dinheiro nenhum. E escolhi alguns grãos de não sei o quê, sucrilhos ou pellets, e ainda podia comprar mais, mas fiquei tão indeciso porque queria apenas canetas profissionais para fazer desenhos, mas não poderia desperdiçar uma chance dessas e escolhi varios produtos pra levar mas não levei nada porque em cima de mim estava uma grande arvore, na rua de trás, e um familiar me ultrapassou com sua moto, pois o segui, minha moto era mais potente, mas poxa, como eu era rico. Minha casa era grande e iluminada com uma luz amarelada/erverdeada, e sei que corri, dei voltas no posto de gasolina, mas tive que parar afinal de contas havia uma festa e eu deveria estar lá. Lá estava então, era como se algo grandioso fosse acontecer mas nunca acontecia e no fim a sensação de algo grandioso iminente era grandiosa o suficiente para suprir a falta de algo grandioso mas passageira demais para ser grandiosa. Minha tia estava sentada ao fundo, todos em volta dela lhe dizendo palavras de consolação, pois que ela tinha câncer e eu nunca sei o que dizer a pessoas que caem em desgraça, lhe dei um abraço e fui sair, no mesmo momento não havia mais festa, mas havia sujeira, dessas que aparecem depois de uma grande festa, embora nunca tivesse ocorrido uma. Era de manhã e eu estava atrasado para trabalhar, mesmo estando de férias, na verdade, andava pelo centro da cidade, com um avental branco, em busca de um lanche, e era vendido apenas na banca de jornal da próxima quadra, mas não tinha dinheiro e tive que paga-lo com um recibo de uma conta qualquer. O mal durou pouco pois a necessidade falava mais alto. Cheguei ao meu emprego, sem a roupa habitual, faltavam 15 minutos para o inicio do expediente, e eu não usava os tenis. Concordamos de eu ir busca-lo em casa. Saí com uma bicicleta e segui alguns atalhos que levavam a uma caverna azulada, lá esperava um homem sujo que queria ter algo comigo, e tudo reinava úmido e marrom, nesse momento alguns cachorros passaram pelo caminho estreito e eu realizei que era possível seguir em frente, e segui. Um bebê vampiro deitava num pequeno rochedo dentro da caverna e eu fui vê-lo. Era como um cachorro que latiu e me fez voltar, voltei por um caminho plano, com árvores que balançavam ao vento, lembro que sentia fome e atrás de mim vinha uma índia com sua criança, moribunda por não ter o que comer também, ajudei a carregá-la, seguimos a trilha com desespero e pressa, a garota estava morrendo, logo em frente encontrei a casa de minha vizinha, e tratei de apertar os passos, abri a porta gritando e implorando e chorando, cansado, exausto de medo e de fome, ela, sempre bondosa nos abriu a porta e deu o que comer e beber á garota ainda a tempo. Deu também banho na menina, que era uma bela loira. Agradeci e saí de casa, lá fora havia essa rotatória e meu ônibus já tinha passado.
Senti medo pois trovejava e naquela época se falava em grandes temporais e furacões que jogavam as pessoas em riachos e buracos, e ali do lado corria um grande rio e acima gritava uma feroz tempestade, então tremi, e o medo só aumentava, nenhum ônibus aparecia. De repente surgiu um e eu dei o sinal, entrei nele mas não sabia pra onde ia. O ônibus seguiu por um caminho estranho, contornado por florestas extensas, e o dia começava a ser noite, pois a luz ficou azul escura. Eu podia ouvir os sons das cachoeiras em volta, embora não houvesse nenhuma e sabia que era melhor descer porque o ônibus cairia dali a uns 50 metros, dei o sinal para descer e ele me deixou aonde não se podia continuar muito bem a pé. Nesse momento senti uma exaltação dessas que se sente antes de uma viagem esperada. Mas vi minha mãe ao longe, entre as pedreiras, seguindo a pé. Era bem escuro, só a luz azul escura iluminava bem, e pensei numa maneira de chegar até lá. Lembro que ela me dizia para nunca ir atrás dela, que eu deveria esperar até que ela voltasse, mas eu fui. Pulei a mureta que guarda a estrada e agarrei naquele mato úmido para poder me equilibrar e ela parecia tão distante. Lembro dessa ponte de madeira que tive que passar sobre. E também de umas vozes embaixo dela. Lembro também que minha mãe não estava mais lá. Então senti medo e as vozes aumentavam, gritei o nome de minha mãe que não era o mesmo nome que eu chamo hoje, e ouvia a resposta. Segui com o ouvido a voz, e as passagens eram dificeis de se acessar. Mas então cheguei numa área plana e podia ver uns pequenos montes e a voz se tornou mais clara e me dizia "eu estou aqui seu bobo" e disse umas três vezes, na quarta vez desapareceu a voz, a esperança e a luz azul escura, e no lugar disso tudo surgiu o medo. No meio de toda aquela mata úmida e sob aquele céu cinzento dos fins de tarde de inverno e verão e outono e Polônia eu encontrei uma trilha e percorri por ela. Perdi o controle da velocidade e era como se eu estivesse rolando mas lembro que estava de pé, pensei que morreria mas outra espécie de coisa aconteceu quando eu parei. Cheguei a rua de casa, não da casa onde moro, mas da casa onde morei e estava molhado e suado e sujo de plantas, entrei numa casa logo a minha frente, mas ninguem me atendeu. Vi minha avó ao fundo, que já está morta, mas ela estava viva, viva e com suas filhas, minhas tias, esperando algo estranho que apareceria na janela, não sabia o que era mas sabia que devia tomar banho e o tomei, o banheiro era meio escuro e assustador, com uma pequena janela quadrada de madeira. A luz era de um amarelo fraco, que incomodava os olhos, e no fim me dei conta que apesar de estar tomando banho não saía água do chuveiro, lembro do medo que senti quando vi um lobisomem pela janela de madeira e do medo que senti quando lembrei que atrás dele onde deveria haver um quintal só havia um escuro. Fugi para os corredores e todas as portas de todos os quartos estavam trancadas. Demorou para que eu pensasse com razoabilidade e saísse pela porta da frente que dava a um tipo esquisito de pântano que sobretudo era belo, fui até ele, mas voltei dele, saí á rua e um carro ali estava, pedi carona, disse -"me leve até minha casa atual", o homem me levou, mas não tinha lugar na frente, pois um amigo meu estava lá, fui atrás então, na caçamba, percebi que se tratava de uma caminhonete, subimos algumas ruas, ele disse "te deixo aqui", e me deixou. Eu estava dentro de uma caixa que precisava ser aberta, mas estava fora também e procurei por uma chave, que encontrei, abri a caixa e dentro dela estava uma maçaneta, levei a maçaneta e a chave no bolso até a rua da minha casa atual, mas é engraçado pois a casa não estava lá, na verdade era uma casa em que morei há muito tempo atrás.