sábado, 29 de março de 2014

quíron

Orquídea

A minha pele, que coisa. Eu olho pro meu braço, um caroço imenso, com pus saíndo e muito sangue encrostado, eu olho bem e vejo uma dançarina vermelha com vestido de noiva, dançando pelo vento, seu véu é fino demais pra resistir. Eu corro meus olhos, um corte, não profundo mas eterno, a pele que cresceu ali é diferente, é a pele de um homem bem bonito e jovem, seus olhos refletem a lua, seu cabelo é quase o oceano, sua boca é outro oceano só que de fogo e ele também dança, em torno de si. Meus olhos correm pelo meu biceps onde há uma cicatriz de uma facada que eu dei em mim mesmo pois ninguém admitiu a culpa, e é tão bela, como é bela. Me lembra o nascimento da terra, se precipitando do útero do espaço pra respirar todo o ar que ainda não tinha. Que bonita. No meu ombro falta um pedaço, mas tudo o que falta ao menos há de se completar, e por isso eu preencho o espaço com flores, orquídeas. Orquídeas subindo e se embrenhando no rombo que existe em meu coração, que me faz lembrar que sou homem, uma memória que me foge pelo buraco na testa que se abriu quando disparei o revólver. Entre o meu peito o infinito espaço e é ali que tudo de bonito nasce. Uma ave do paraíso surge por si só e dança majestosamente, impiedosamente, e eu a noto, eu a quero. Asteróides da grande destruição aproximam-se e eu pinto atmosferas em suas superfícies pra que girem como os planetas. O líquido negro que corre do meu fígado logo abaixo pavimenta o chão pelo qual ando e pinta as paredes que me observam. Lindas figuras surgem, me lembra o cosmos de novo. De novo e sempre. O negro se junta com o vermelho do sangue que escorre das minhas tripas que agora pertencem a porção externa de mim. O intestino se desdobrando pelas minhas pernas, como correntes, correntes de paixão, cheirando como as orquídeas, e eu sinto. Eu sinto. A dor. A vida. Eu deito no chão, colorido de vida. E danço sobre ele, observando as estrelas, prestes a morrer. O medo é uma bobagem, a grande mentira da vida. Eu estou vivo.


o reino mineral

Eu tenho certeza que eu já andei por aqui, o que tá acontecendo com a minha cabeça parece que tudo tá tentando fugir mas ao mesmo tempo tudo tá tentando impedir essa fuga duas forças poderossímas estão agindo sobre a mesma matéria. Uma vez eu lembro de um lugar em que eu vivia, numa grutinha com uma casa bem bonita de madeira ao lado dela, mas de fato eu nunca a vi, pelo menos não até o dia da passagem. Até esse dia, a passagem, eu via apenas pela fresta que tinha, e era dela que vinha a luz da manhã e batia num pedregulho lá de dentro e formava a imagem de um leão no solo e eu o respeitava. E como um leão falava minha mãe, que possuia o dom da profecia. Teve esse dia em que eu vi a morte durante uma noite de sono, se movendo magnificamente como a vida e eu tirei sua túnica e ela se mostrou, da vida herdou a beleza também, que me paralisou por completo em seu encanto, Quando acordei, me faltou o ar e, devia estar muito escuro lá fora porque faltou o leão também e meu espiríto me guiou até a fresta, ao mesmo tempo ele dizia com palavras pouco compreensíveis mas que agora eu entendo mais, ele dizia sem parar "isso não pode tá acontecendo" e dizia " Porque eu não fui avisado antes?" e eu respondia "do que você tá falando" e ás vezes ele voltava " Não adianta eu te dizer agora". Eu fui na fresta e senti uma fraquissima corrente de ar e esfreguei meu nariz ali. Desesperadamente. E assim, nas trevas, algo mágico ocorreu, mãos de lá de fora acariciaram o meu nariz e tinha o cheiro maravilhoso de eu não lembrava o quê. E aos poucos a fresta foi ficando maior. E o ar entrava então, primeiro de leve, depois violentamente. O que era plenamente escuro se mostrou cinza e o sol detrás das cinzas batia com rigor nos meus olhos, que se fechavam. 'Você pode me ouvir?', eu perguntei pras mãos, que apenas sorriram. E de novo dizia a voz do caos formada por ruídos compostos no interior do espírito "Eu não acredito que isso tá acontecendo, não pode ser". Eu olhei pros olhos das mãos. Elas devem ter se encantado por que me olharam de volta por horas. E tudo o que não existia antes em mim, passou a ser percebido. Elas me seguraram com delicadeza, e me levaram até a margem de um lago próximo e então disseram, com a voz da ordem formada pela harmonia composta no interior do espírito " Pergunta e olha pro lago " e ali me deixaram. Eu observei o lago, refletindo o céu, cantando uma canção que lembra o nascimento e a morte e eu vi o reflexo e nesse reflexo o meu rosto finalmente foi visto e a voz de sempre voltou e perguntou" Tá acontecendo então, o que eu faço agora?" e depois na sua serenidade incomum o lago respondeu " Tenha calma ", enquanto eu observava nas suas águas duas orelhas peludas e imensas se refletindo e dois dentões bem engraçados e assustadores também e finalmente a cor dos meus olhos.

Janus

Uma vez eu tava tomando banho e passei a mão pelo meu cabelo pra massagear e eu senti uma boca, eu apalpei pra ver o que era e senti um nariz e dois olhos e um rosto inteiro. Eu ia dizer algo mas ele falou primeiro "Bem", " Tem algo acontecendo aqui ", "Você é um câncer", "Um câncer que surgiu deve ter sido nesse dia em que eu entortei minha própria coluna para carregar o peso do medo",  " E como um cavalo eu o levei ", "Sabe, eu tinha muito medo da dor", "Porque eu sentia ela bem forte", " E como eu era tolinho", " A dor trazia a desordem, eu pensava", " A desordem já existia, desde sempre, eu vi depois", "Alguma coisa aqui não me cheira bem", " Um dia eu fui num velório, e estavam todos chorando", "Eu olhei pro cadáver e ele estava rindo", "Deve doer muito pra um bebê nascer, mas deve doer mais na mãe", " Eu soube de uma história onde uma mãe nunca ouviu o choro do seu bebê, porque seu próprio grito foi muito alto e longo", "Demais pra ser ignorado", "Uma vez eu fui no santuário, e estavam cultuando um cadáver", "E o cadáver estava chorando", " Apodrecido", "Santo", "Uma legião saíria dali, aos poucos", " E jamais falariam nada mas balbuciariam - ' o Sol queima nossos olhos'". "Nós precisamos andar", "Eu preciso da sua voz, e dos seu olhos e da sua memória" , " Eu preciso que você me ame", "Do contrário, ambos morreremos"

sábado, 23 de novembro de 2013

teve um dia que eu percebi o que não pode

é claro agora. A divisão, a separação. O inferno de dentro, com o seu senhor convicto de dentro entoando uma canção alegre com o inferno de fora e seu senhor convicto de fora. A mentira de fora como água negra entrando pelas vias que leva até a fonte primeira. Fonte inesgotável. Fonte impertinente. A sujeira de dentro saindo pelas mesmas vias, o homem viu e pôde escolher, a vazão ou a represa. Na represa, a morte, deitada sobre as águas, seu sangue são as águas. Tudo é afogado. Desde o primeiro minuto. Quem se afoga na morte jamais morre de fato. O ouro no fundo da terra, o suor da busca. O homem só é homem quando busca o ouro. O homem só é homem quando encontra o ouro. O homem só é homem quando rejeita o ouro. Aquele que jamais segurou o poder nas mãos, embriagado pela forma que toma as mãos, aquele que embriagado pela renúncia ou pela ira se deita no próprio nascimento enquanto contempla a própria destruição. O que existe de horizontal no contato e que aspira a verticalização. O homem sabe.

sábado, 12 de outubro de 2013

texto

Mas é tamanha a fibra que se dispõe no menor espaço de medidas que o mesmo que se diga da terra irá se encontrar em termos distintos e tudo o que se pode hoje ponderar terá seu respectivo limo nas mais gloriosas tarde do amanhã e é porque a luz condena aqueles que foge do exílio que haverá festa quando se puder sorrir em amragos goles tanto que quanto maior for o mesmo em si nada terá que cobrar daquele que hoje olha pro céu e nessa mesma concepção o porte do pequeno homem se revela como um adjunto de sua árvore contrária numa espécie de mesclagem entre o que é há e o que não poderá existir e colocando um pouco de remédio na história de onde veio aquele que uma vez olhamos para trás e descobrimos que estava há muito tempo esperando de onde veio a idéia de que se eu mexer esse dedo o dedo pensará ter sempre o poder de mover-se é nessa linha finíssima ( uma linha finíssima) que toda a gente deita-se no mais frio dos dias e olha eu digo que talvez esse dia nem seja assim tal qual se diz o importante é que no meio da corrida a roda estacione em trechos elípticos  de maneira que simulando uma volta pelo sítio o console principal se torne o que hoje acredita-se ser o dono do consentimento porque toda furia ainda não é muita fúria mesmo que triunfante reine o principio do vento seja sua a inércia indefensável e pobre como uma pequena sujeira que se sobressai em meio a um disco de imagens flutuantes numa aurora negra: o antes. O antes. .,.,.,.,.,.,.,se eu fosse você numa tabela de sentidos vamos supor que tudo o que houve até hoje se fez só por causa da interrupção dos fatos e que os pequenos mãos não se saibam um do oturo a menos que posam em pequenos atos escrever aquilo que se passa na cabeça sem pensar em nenhuma regra que havia antes da grasnde vontsde a grande vontade é tao grande que nenhuma palavra será jamais suficiente para falar de sis só nenhuma lingua podera expressar e ainda asisma  votmnade se prende na lzingua a vionta de se prenfde nio antes no nó na regr aa regra a regra a velopcidade oi dedo e a amente

domingo, 4 de agosto de 2013

o grande abraço

Uma vez, durante vários dias, na tenra idade, eu vi o futuro e no futuro havia um pequeno monte e em cima do pequeno monte eu parava e ao parar eu olhava pra cima porque o vento soprava no meu ouvido e me pedia para olhar e eu ouvi o vento e olhei e quando olhei os meus olhos ficaram brancos e as minhas mãos se abriram e a minha boca se abriu e as nuvens se fecharam e das nuvens vieram raios que caíam na minha testa e espalhavam fogo pela minha cabeça e vieram trovões que junto com o vento misturavam todas as palavras pra que elas parecessem sempre a verdade e veio também a chuva que entrou na minha boca aberta e no meu nariz aberto e ao entrar inundou o meu corpo que começou a tremer e da minha boca aberta e do meu nariz aberto se expeliu toda a água e à minha frente e por detrás de mim vinham pessoas carregando baldes e enchiam seus baldes com a minha água e assim a usavam para tomar banho em certos dias.

:Cipreste

Uma vez, na idade edênica, eu abri um livro e no livro dizia que meus pés não pertenciam ao chão. Nesse mesmo dia recebi uma visita, através da janela e fora do chão, de um homem grande com um manto branco e com olhos também brancos e ele ofereceu suas mãos e eu as peguei e ele me envolveu em seu manto que o permitia flutuar sobre a cidade, os campos e as montanhas. Sobrevoamos todos eles e pude ver as florestas como um todo e a cidade como um todo dentro da floresta e todas as montanhas como parte de um todo sem fim. O homem tocou os meus olhos e o que não tinha cor ganhou cor, ele tocou meu ouvido e o que era mudo passou a dizer, ele tocou minha boca e o que era mudo passou a dizer. Nós descemos e eu vi um campo como nenhum outro campo e me lembrei do cheiro que suas flores exalavam e perguntei 'porque me lembro desse cheiro?' e ele respondeu que no parto junto de mim nasceu também o campo e suas flores e a montanha e as florestas e a cidade e o mar. Ao dizer isso ele sumiu

ao sumir eu quis voltar mas não soube o caminho

continuei andando pelos campos então, onde tudo era diferente do que eu conhecia. Andei por vários dias e por vários anos e temi que não houvesse fim....
Avistei um cipreste bebê e uma grande panela na minha frente sobre a boca de um vulcão e dentro da panela não havia nada dentro. Eu procurei pelo campo interminável a luz e os vegetais e os animais e os peguei todos e os cozinhei. E fiz isso por várias horas e na hora mais ensolarada da tarde senti uma fome imensa e passei a comê-los crus. A minha barriga ficou grande e a fome ficou maior. Eu deixei a panela e continuei andando, porém uma singela bruma foi se tornando mais espessa e à minha frente se abriu um grande precipício de cujo interior brotavam águas violentas que atingiam uma altura imensa, acima das nuvens. Eu senti medo e, do cipreste que havia encontrado uns passos atrás, extrai a cepa e com a cepa construí a minha casa no fim do campo sem fim e com mais cepa e barro envolvi as paredes da casa para que não entrassem nem a névoa nem a água.
Durante vários dias estive na casa até o dia em que ela se pareceu com a casa onde eu morava antes. Um sono insólito se abateu sobre mim e eu dormi e sonhei com um cavaleiro que trazia consigo caixas e deixava todas na minha porta, com um selo. E eu não entendia o que estava escrito lá. Eu coloquei as minhas coisas dentro das caixas vazias e esperei que ele voltasse. Ele voltou e ateou fogo em todas elas. Depois tive um sonho em que eu vinha de longe portando um relógio maciço de ouro, e me via dormindo, e colocava as mãos em meu próprio rosto e o afagava e o pedia que acordasse. E depois eu me lembro de ter acordado. E minha cabeça parecia ter se fundido à cama e a cama parecia ter se fundido ao solo e os meus olhos estavam colados mas meus ouvidos podiam escutar tudo e eu passei a ver figuras com meus olhos de dentro e entre essas figuras eu vi homens inocentes e eu vi o pai de todas as criaturas vis e uma estátua de um vampiro com trajes de santo mordendo sua própria boca e cuspindo sangue sobre os homens. Eu me dirigi até o lugar onde o som estava mais alto. Eu ouvi o som da águia e o som da cachoeira e eu fiz bastante força para que meus olhos se abrissem de novo. E eles se abriram o suficiente pra que eu visse a minha casa destruída e a panela vazia e a barriga vazia e o campo novamente à minha frente. Eu olhei ao redor e não havia mais ninguém.

:O que houve no bosque

Eu passei a procurar o que havia visto no sonho. É sagrado, disse a sequoia. Passei a procurar nos bosques o que havia visto no sonho mas nada se parecia com aquilo. Eu perguntei pra sequoia gigante se ela havia visto e ela pediu que eu desenhasse na areia e eu não consegui desenhar na areia. Ela pediu que eu desenhasse na folha e eu não pude desenhar na folha e ela pediu que eu desenhasse com a sua seiva e eu não pude desenhar com sua seiva porque sempre surgia a imagem de uma tartaruga ou de uma erva daninha. A sequoia gigante disse que muitos homens chegaram até ela com a mesma história, sobre uma visão pela qual certa vez foram acometidos e ela apontou com seus galhos para uma direção dentro do bosque e disse 'é pra lá que foram os homens'. Eu hesitei e fui pelo caminho contrário, e no caminho contrário uma sequoia gigante gêmea surgiu e apontou seus galhos e disse 'é pra lá que foram os homens '. Eu me enfurnei pelos arbustos e pelo pântano seguindo os homens que tinham sumido em seus labirintos. As folhas das árvores passaram a cobrir o sol e eu não soube mais se era dia ou noite e tudo passou a ficar úmido. Eu toquei no tronco de uma videira e uma flor se abriu e dentro dessa flor estava uma garotinha com as pernas fundidas ao estigma da flor e ela alisou o meu cabelo e passou a chorar e eu disse 'não chora' e ela disse que havia uma história que se contava naquele pântano e ela me contou a história e, ao contar, grãos de pólen pulavam de sua língua. 'Um lago', disse ela ' um lago estava calmo, suas águas alimentavam os animais e as plantas, uma vez a noite foi anormal e uma estrela imensa brilhou com muita intensidade e refletiu no lago e a água do lago se comportou como as águas do mar e fez ondas e depois um sorvedouro que assustou seus peixes que começaram a pular e cair pra fora das águas e lá se debatiam e os animais famintos saíram então das suas grutas para se alimentar dos peixes e a estrela ficava cada vez maior e o céu mais vermelho e um clarão imenso tomou a floresta e as corujas ficaram confusas e gritaram e os lobos ficaram confusos e uivaram e a estrela imensa caiu no riacho e esparramou as águas pelo bosque e o bosque se inundou e da cratera onde caiu a estrela saiu um cavalo amarelo e ele correu mais rápido que a luz e levantou poeira do solo e o solo ficou nu e revelou os animais e as plantas que morreram há muito tempo e os animais e as plantas que estavam vivos se agitaram e os animais se tornaram canibais e as plantas se tornaram carnívoras e o cavalo continuou correndo e bateu seu casco tão forte contra a raiz da sequoia que se abriu a terra sob ela e lá havia uma caverna e dentro da caverna havia uma luz e no centro da luz havia uma ostra e dentro da ostra havia uma ostra e o cavalo entrou em todas elas e a árvore gigante pendeu pro lado e sua copa cobriu a floresta e os leões cuja fome nunca findava vieram furiosos e cobriram a entrada da caverna com o corpo dos antílopes e das garças e das raposas e depois cobriram os corpos desses animais com briófitas e depois com pedras e mais musgos e a árvore tremeu como nunca e suas folhas caíram uma a uma e do lago restou pouca água e finalmente houve silêncio"


O meu corpo se cobriu de pólen e eu me sentei.  Eu encarei a videira e perguntei 'pra onde nós fomos?' e apertei o dedo bem fundo contra a videira e ela disse 'ai' e eu vi lá dentro o campo que surgiu nos meus sonhos, com toda sua infinitude e eu fitei o tronco e pus minhas pernas dentro dele. A lagarta que se arrastava pelos galhos parou de se mexer. Um manto de seda unificou as árvores. A menina que estava dentro da flor virou uma fruta e eu a comi. Entrei no tronco da videira e pisei naquele solo. Eu conheci a sensação e senti medo mas continuei.




domingo, 31 de março de 2013

poema de panela da primeira ferrovia do carma o medo do proprio corpo a injustiça a lavagem de algodão e a mentira que embeleza tudo e o ridiculo da dor e o ridiculo do esforço

todo dia o corpo é de noite
e tem corpo que anoitece antes da noite
e tem um espinho que entra
entra na boca e entra no dedo
e o trem passa longe porque não tem ferrovia aqui
e a morte eu vi uma vez era um coiote com três olhos
e toda voz no mundo canta que dá pra mudar
e chega no ultimo dia tudo é sempre o mesmo
e a maldição da criança é nunca jamais crescer
e tem o sorriso que você pensa que é alegria
a água quente é perigoso cair no rosto
o tio aparece pra perguntar que não fique sozinho
se a mãe viaja é porque precisa se locomover
se a mãe fosse um trem dava pra me levar com ela
só tem deus porque tem névoa
embaixo na rua o porão da rua
tudo o que não funciona é jogado lá embaixo
o labirinto não deixa nenhuma palavra se unir
uma mancha imensa cega qualquer pessoa
parece um sonho se você forçar bastante
a tontura depois o mal estar
das lampadas nem das tomadas é possivel ter o controle
que chegue um dia o dia que isso não será mais problema
e tudo fluirá perfeito como a parte mais etérea do mundo
e cada cheiro terá prazer em si próprio
e cada mão será uma mão suave
se o desejo é abraçar o mundo é possivel que o desejo  mude
e que seja unico o desejo de abraçar o que vem pra não ficar
se nada fica mesmo
chama a mãe que é o trem
embora ja tenha sido dito nunca se ouviu de verdade
a verdade da verdade
e o peso do peso
e a vertigem que tem no mundo
e toda dor que existe no mundo
nunca é dor suficiente
e as pessoas valem tanto
tem o chão de gelatina
as vezes é de areia e voa com um sopro
e deus queira ele ser um sopro
que sopra o habitual
pra elevar o homem a um lugar
onde não faz mais sentido o impulso
se deus está dentro dele
é possivel que ele esteja morto
e como uma bruxa vive sozinha
criando poções pra achar a cura
a cura dança sozinha
depois que inventaram a cura
pelo amanhã ser tão urgente
espero que tudo corra pelo amanhã
e toda obrigação se tornará uma amiga
e até o fim da vida não haverá paz
mas o bom abraço


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

mansão

Como sinto uma dor aguda ás vezes, chamo das partes claras do meu quarto duas irmãs, que aparecem lentamente e serenas. Elas são pequenas, mas velhas, e usam uma máscara de flores pra não parecerem gente, e tem vozes incrivelmente graves pra não parecerem gente e contam histórias pra mim que eu jamais ouvi antes. 'Você sabe', diz a primeira, 'que esta árvore que bate os galhos no seu rosto enquanto você dorme não dará fruto algum, é a árvore do não fruto e da não flor, suas folhas são suaves mas não caem e não param de nascer, a árvore precisa engolí-las de novo, do contrário, desmoronará e se tornará um monte, um monte de plantas que não saem dali, e então se tornará grama e então a árvore não terá nunca valido a pena." A irmã segunda, que tem uma coisa engraçada de não piscar sem apertar o dedo anular, contesta 'é o vento!' e contesta mais 'o vento sopra a árvore com tanta força, pra levar suas folhas, e com tanta mais força ela as mantém, e com tanta mais força ela as prende por dentro, para não perdê-las, mas o vento é mais forte que tudo e sopra lá dentro e lá dentro, da árvore, estão os insetos. Fecho meus olhos porque é tarde, e amanhã corre o boato de que haverá algo logo cedo.

logo cedo

Eu. Um anão em cima do meu guarda roupa me olhando, imóvel. Não sei o que fazer, apenas espero. Após uns longos minutos ele mexe os pés, como que impaciente. 'Você sabe', diz ele 'que o tempo já passou há muito tempo' diz ele 'e que você está em cima da hora, com essas roupas de dormir, e essa cara de sono e este cabelo de sono e um hálito insuportável, que temo você já tenha aprendido a suportar' diz ele. Abro a janela pois faz tanto calor, embora o céu esteja ainda negro como se fosse noite. O anão, lá em cima, anda de um lado pro outro. 'Eles te esperam, há um bom tempo, e estão ficando impacientes' enquanto diz isso, mexe a orelha direita circularmente como se o vórtice estivesse ali: 'Eles não são obrigados a esperar por você ou mesmo pensar em você, nem sequer consideraram um encontro. Este é um interesse totalmente seu. As portas daquele lugar continuarão se abrindo e fechando como o habitual, e tudo o que é habitual hoje continuará habitual sempre. Agora, é comum que você não vá, e se deite e volte pro seu sono, você esquece deles e eles tão mais facilmente se esquecem de você. Porém me pergunto, se você esqueceria mesmo, da roda girando lá fora, com o ruído ensurdecedor e com tudo se convergindo a ela. Eu respondo que não e aconselho que se levante agora e que corra tanto quanto possa pois a ruína já gangrenou em suas pernas e na ponta de seu nariz e em seus lábios e digo também que corra mais e mais e mais porque todo o seu esforço será pouco para compensar o abandono e o descaso'

O endereço

Era á direita. Mas partindo de qual direção? Ele me disse que haveria um pântano, depois um deserto, então uma cidade cheia de luzes e construções inacabadas e nessa cidade outro pequeno deserto e virando á direita eu veria, a mansão, com seus portões habituais. Ando tentando disfarçar que não sei pra onde estou indo, penso em perguntar pra senhora que está parada na calçada mas temo que me dirigindo a ela eu ouça palavras estranhas que uma vez já ouvi serem suficientes pra trazer ao dia o demônio que atenta o espírito. Aliás percebo que, não somente ela, mas também umas outras nos dois lados da rua observam e cochicham. Começo a suar e aperto os passos, mas não demora para eu tropeçar num paralelepípedo que se salientava logo á frente. Eu não olho mas ouço rirem, uma delas tenta conter o riso abanando com a mão e se vira em seguida. Eu me levanto e com mais pressa viro a primeira rua, não importa onde dê. A mansão está em algum lugar.
A rua onde entro é um beco estreito com duas bancas cada uma de um lado atrás das quais estão um homem segurando caixotes com alfaces podres e uma mulher bem velha ou cansada lavando peixe. Olho para suas mãos habilidosas com a faca, e a faca no peixe e o peixe vivo e penso de onde vem esses peixes será. Olho para atrás do vestido encardido da mulher e percebo que uma criança que deve ser filha sua mexe numa poça imunda que se formou no chão, então faz uma cara de surpresa e tira um peixe, o entregando para a suposta mãe, e faz isso de novo e de novo. Tira dali uns 15 peixes, todos enormes e com um cheiro fortíssimo. A mãe os corta no meio e joga do outro lado, para o homem com os caixotes de alface. Ele envolve o peixe com sua alface podre e come, insaciável. Sigo e me deparo com uma pequena floricultura. Não há ninguém lá, então resolvo entrar. Pergunto á atendente 'Ei, onde fica a mansão?', algo deve estar errado pois ela não responde. Me aproximo e tento ser mais claro 'Ei, com licença, você sabe onde fica a mansão???', mas ela novamente não responde. De repente, percebo que estavam ao meu lado uma mulher de meia idade e um adolescente. Me olhando suponho, pois notei que viraram os olhos. Por não saber o que fazer, pergunto a eles 'A mansão, sabe onde fica, por favor ', a mulher hesita um pouco, olha para o garoto do seu lado, ele sussurra algo e ela responde que não, enquanto tenta evitar um sorriso cínico que escapa por entre seus lábios. Me viro para sair mas minha blusa enrosca num parafuso da gôndola e derrubo os ramos que estavam lá. Me abaixo para pegar, alguns rolaram para perto do pé da atendente. Agachado, pego um por um e percebo que todos continuam no mesmo lugar. Coloco tudo de volta e peço desculpas um pouco atordoado, mas eles parecem não notar nada. Ao deixar o lugar olho pra cima um pouco e me amaldiçoo por não ter visto antes. Parece a mansão. Parece longe também, mas vê-la já é um caminho.

Andar

Eu ando então, tento evitar as ruas movimentadas mas me perco muitas vezes e penso se não é melhor seguir mesmo pelas ruas movimentadas. Sigo assim, entre as grandes ruas e alguns atalhos até chegar próximo do que parece o pequeno deserto que o anão havia me alertado antes. Vejo ao longe, sem tréguas, uma cortina de areia imensa, no deserto minúsculo, penso em correr de volta, mas sinto um mal estar por parecer precipitado da minha parte. A cortina não para e eu me cubro com os braços. Os grãos entram no meu nariz e na minha garganta. Por um instante eu aguento mas tenho dúvidas se não é melhor voltar e tentar outro caminho. Olho pra trás e devido á tempestade vejo apenas silhuetas, silhuetas observando, distante, imaginando onde dará tudo isso, esperando o incrível momento onde poderá-se rir tanto, tanto, que tudo terá valido a pena, a desgraça e a resignação. Apesar disso continuo, com  a garganta seca e o nariz entupido, tentando a todo custo me esquivar da cortina interminável que me atinge. E assim, aos poucos, percebo se formar adiante, o que parece uma casa. Chama a atenção seu tamanho. Conforme passa a tempestade vejo melhor. Deve ser ali mesmo. Devem estar me esperando há um bom tempo. Devem estar impacientes. Provavelmente eu levarei uma bronca ao chegar. Não deverão inclusive achar legal que as roupas estejam cheias de poeira e com cheiro de crisântemo e peixe. E se perguntarem que caminho peguei, eu não saberei responder. Antes de continuar me permito sentar um pouco na grama, que aqui é mais esverdeada, para então me recompor. Com a minha própria saliva tento ajeitar o cabelo e limpar o sapato.

Portões

Portões. 'O único portão', tinha dito o anão. Ando por todo o perímetro da mansão. Alguns de seus salões são cobertos por vidros e vejo lá dentro várias pessoas sentadas e conversando. Percorro ás suas voltas e não encontro a entrada exatamente. Tateio a parede pois pode ser que eu não esteja enxergando devidamente por conta da areia. Dou a volta três vezes por toda a mansão. Na terceira, as pessoas que estão no salão de vidro claramente se exaltam e um pequeno rumor tem início. Volto um pouco o caminho, pra ver se é possível, de longe, encontrar a entrada. Infelizmente sou obrigado a rodar toda a propriedade de novo. Algumas pessoas do salão de vidro encostam e viram a cabeça para assistir o ridículo espetáculo. Corro e me encosto atrás de uma viga protegida do sol escaldante. Um homem que, ao que tudo indica, é o segurança do local sai detrás de uma das vigas. Eu então o chamo, com desconfiança, ele olha e eu pergunto 'A entrada, onde fica???' -'A entrada' diz ele, 'A entrada', repete, no que continuo 'Sim, eu rondei todo o lugar e não encontrei porta nenhuma, talvez eu esteja no lugar errado mas mesmo que esteja é muito importante para mim agora saber por onde as pessoas entraram aqui'. O segurança, como que já esperando a pergunta responde com um sorriso inocente 'Sim, claro, é preciso que se saiba por onde se entra, do contrário, como entrará?' Ele põe seu braço em volta do meu pescoço e olha pra cima, uns 15 metros acima. Avisto ali então uma porta, cercada por uma alvenaria toda cinzenta e maravilhosamente habitual e aberta. 'Bem', diz o segurança da mansão, acredito que o senhor esteja atrasado já que não conseguiu identificar a entrada. Talvez seja de má fé minha se eu não te der alternativas agora mas você pode entrar por outro lugar também. Vem aqui', ele me puxa gentilmente e caminha pelo meio jardim, onde fica uma escultura de alumínio de um rosto, sem olhos, mas com uma expressão rude e inflexível e também uma fonte, desligada e já bem antiga aparentemente. Ele continua andando pelo jardim até perto de um bosque, há quase 15 metros de distância da mansão. Puxa então uma alça no chão, com alguma força, e levanta a portinhola, coberta de poeira e lama e musgo. 'Eu só posso te ajudar até aqui. Na verdade eu não sei exatamente pra onde este caminho leva. Mas já vi pessoas entrando desesperadamente por ela. Dias depois, estavam lá dentro, no salão de vidro, sentadas e conversando. Já vi algumas caídas, mas toda vez que uma nova pessoa chegava e se perdia, lá estavam eles observando, calados e sorridentes. Eu espero que além disso, tudo dê certo lá dentro, pois já passa da hora, e há a impaciência, a vida é curta, a estrada é longa e árdua, a tempestade vem sempre, e ainda assim se chega. Eu espero que dê certo lá dentro, do contrário, penso que talvez você tenha um pouco mais de dificuldade de sair.''

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

água

da próxima vez quem sabe. Tem um lugar agora que conheço, é o lugar onde está deitado um corpo que parece o meu, com sua boca aberta e com um peixe tigre se debatendo lá dentro. Quando abriram os portões desse lugar, talvez até tivessem imaginado, talvez não, sobre as águas que entrariam. Não há remédio. O sono leva tudo, como a morte, mas ao contrário da morte, o sono não é de todos. Algo foi levado e o sono, o sono não veio, finalmente os sonhos abandonaram.  Cada coisa no seu espaço, de onde jamais deveria ser tirada. Na perfeita harmonia do mundo. Tudo em seu devido estado e tempo, conforme é sempre. Sempre estar agora. Os vultos vem e vão detrás do poste e não gostam de ser observados, no entanto porque eles saem á luz? De quem era aquela voz suave que me guiou até aqui? Eu olho pra trás quando dizem que se deve olhar pra frente mas todos os lugares são o meu passado. A vida está pendente e nunca haverá silêncio. Amenizar o grito. Amanhã é dia de jogar bola, esperamos que o dia esteja claro e fresco e que ninguém desista. Depois do jogo conversaremos e contaremos umas piadas, então riremos e contaremos umas outras, e quando o dia estiver virando outro dia contaremos tantas quanto for possível até que o riso subsista por si só sem que ninguém precise criá-lo. A criação é divina. O martírio sutil. Venta na estrada de volta, pra casa. A família é toda estranha. A amizade é toda estranha e o amor é o diabo. A violência conforta, a tristeza diz que sim e a gente vai então. Naquele beco nunca houve tantos corpos antes, amontoados, uns tentando entrar nos outros, pra ver se acham, a coisa perdida. Quando eu toco em alguém, quero entrar lá, pra ver com aqueles olhos, o que não consigo enxergar com os meus. A semana que passou se parece com a que passa, exceto que o sorriso é mais sincero. Muitas outras se passarão e pra cada resposta muda que foi ouvida haverá um suplicio igualmente mudo, porque eu não estarei satisfeito nunca.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

entra em casa. Faz barulho no assoalho. Ninguém entra aqui há muito tempo, quando decidi trocar as fechaduras. Ontem as troquei novamente. O ladrão bate contra a porta, umas duas vezes apenas. Depois desiste e vai embora, a exaustão, a fadiga. Eu olho pela janela, o ladrão cansado, levando em suas costas curvas o peso de todo roubo. La dentro, acendo uma fogueira, para que possa dormir. Só o fogo traz a calma, que me faz dormir, e o calor, que me faz dormir. A fogueira nunca se apaga. O nunca é breve e vejo cinzas.
De novo na janela, eu observo, as pessoas que observam pela janela. Vejo esta moça, em cuja porta cansado bate o ladrão. Ela corre até a porta. Ele prestes a partir. Ela destranca a porta. Vira a chave dezessete vezes. Ele partindo. Ela o chama e o toca no ombro. Eu sou o ladrão, diz ele, eu sou o ladrão, diz ela também. Protejo o mundo da minha furia, do meu anseio de roubar-lhe tudo. Procuro algo pra levar daqui, o que você tem? Eu tenho minha carcaça e a minha alegria, que é pequena mas que me faz continuar. Esta eu já não preciso, de lá fora peguei tudo o que é imenso, inclusive a alegria. E ela volta sempre, me faz repensar e olhar de volta para o saco, pra ver se eu a peguei de fato. Tem bolo. Me dê um pedaço do bolo. O ladrão pede.
Olho para a casa ao lado, mora sozinho um rapaz, que sente culpa por ser ainda rapaz e estar no limbo entre o triste senhor e a inocente criança. Vejo o rapaz descascando batata como se não houvessem outras batatas. Aquela é a única batata, a que contém o sabor. Não há mais ninguém. Vejo o rapaz. Andando pela parede, de todas as formas possíveis, dando cambalhotas, diferentes cambalhotas dentro de seu quarto apertado. Ele pega um binóculo e olha pra fora. Depois desenha na parede em que caminha uma maçã do tamanho de uma melancia e uma formiga do tamanho de um dragão e um sorriso do tamanho de uma melancia. E eufórico volta a olhar pela janela, enquanto a noite vai e volta e o dia vai e volta também.
Eu olho mais pro lado e vejo a minha propria janela e eu dentro dela olhando para as outras janelas. Eu com uns olhos enormes, é proibido fechá-los. O que eu vejo no entanto, eu poderia responder por mim. Eu vejo meus olhos.

Uma vez toquei a seda e senti o ardor da seda, que ouvi ser infinito. Depois senti a seda se esvaindo dos meus dedos, que ouvi serem fortes. O que vem depois? Da suprema alegria. O verme da posteridade vem comer o que me resta, como o sol de amanhã que ofusca o de hoje e me adia a noite inevitavel, sempre mais escura. Eu abro a minha porta, dezessete vezes abro a minha porta e caminho até a casa da frente.
Lá está o binóculo. Olho através do binóculo a face que tudo busca. As coisas não são completas, eu prefiro acreditar, que é possível preenchê-las sempre, com coisas mais, comigo mesmo. As coisas não são um fim em si. Eu abro a janela da face que tudo busca, com seu binóculo, tiro de seu rosto, sua boca macia e molhada, não consegue se fechar. Seus braços frios não conseguem se mover e me deixam tocá-los. É noite, eu digo. É sim, responde. Eu seguro suas mãos por longas horas. Como se fossem as que me faltavam, pra segurar a seda suficientemente forte. O vento a essas horas, o verdadeiro senhor do mundo. O vento sempre esteve aqui e viu tudo levantar e desabar. O vento verá essa historia e será a testemunha, a única que conhecerá cada um de seus pontos que vão se formando conforme o tempo passa. E eu passo junto segurando essas mãos. Eu aperto essas mãos. Eu olho pra face, ainda buscando, além do que eu enxergo. Buscando em si mesma. Além do que. É tarde diz. É sim, eu concordo. Se é tarde é preciso que iremos. Onde? Em algum lugar senão aqui. Mas eu quero ficar (eu quero sim), eu também mas olhe. Olho pra baixo, o musgo envolvendo meus pés. As sementes germinando em minhas pernas. O braço congelado que antes era só frio. É bom assim, veremos depois. O vento assobia, pois concorda. Ou amaldiçoa. Vai ficar bem depois, bem depois, veremos depois. Vai sim. Eu largo aquelas mãos, e aquela boca sempre aberta e aqueles olhos sempre distantes, e a seda também. Passo algum tempo retirando a vegetação que encontra em mim terra fértil. Não digo adeus. A janela se fecha. Ouço passos. Passos pela parede com as maçãs desenhadas, com os bodes desenhados. Passos até o teto, e o abrir do telhado. E lá em cima subindo o rosto. E seu binóculo mirando longe. E o vento batendo no seu cabelo. E o vento batendo na minha alma. E as flores nascendo nas minhas pernas. Eu preciso fugir.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O que eu ouço aqui, é um choro
de uma criança. Este choro começou á noite quando fui me deitar e se estendeu pela madrugada quando não consegui dormir. É já manhã e tudo cessou menos as lágrimas.
Eu aperto a orelha contra a parede e ouço uma conversa. Eu poderia jurar que se trata de uma única voz, mas elas claramente discutem e defendem pontos opostos.
Eu vejo eminente, a afasia.

O dia em que vi

Não era novidade que me sentia sufocado naquele lugar, onde mesmo no mais severo frio escorria um suor quente e febril que me fazia tirar as roupas e andar pelo terreno totalmente vulnerável. Certa vez fui tomado de um calor terrivel que paralisou meus braços, e então, subindo ao meu rosto, me tirou a visão. Ainda assim me veio um impulso de despojo e de fuga, e fugi para longe, bem longe do lar.
Na porta gritava a mãe que volte que volte pois aí é longe demais e quanto mais alto gritava a mãe menos poder tinha sua voz e eu corri, pra esse lugar, onde fiz uma descoberta.

O dia em que vi

O chão é o calvário. Alguém passou por aqui de manhã e bateu com força na porta OI oque deseja você esqueceu de algo o que esqueci esqueceu o seu cavalo no pier é que fui nadar o seu cavalo chora agora eu não preciso mais dele ele é livre tem os campos para explorar porque ele o faria?
A porta já estava aberta mas o sujeito bateu de novo 'me atenda' sim, pois não? que sentido tem em sair por aí a vasculhar tudo se na verdade é tudo que te vasculha. A vingança é o melhor sentido quando falta um. Me lembrou antes quando eu fingia compreender o que estava se passando e me sentia enganado sempre, como agora. O que está se passando?
Enquanto o sujeito me fita vejo lá embaixo meu cavalo se soltando do cais depois de muito lutar e furioso percorrendo todo o campo, com uma monstruosidade assustadora, dono de toda a sua liberdade. Com o ódio trespassando o seu casco e atingindo o solo. A liberdade.
O sujeito vai embora e me deixa atônito. Fecho a porta e me sento, como faço sempre até a hora de dormir.
É noite, bem noite. Eu ligo um pequeno rádio á pilha e coloco a fita que uma vez me deram na infância. Uma fita com histórias curtas de fadas, bem curtas para que não morressem. Tem essa história, que me chama bastante atenção de uma moça que recebe uma caixa sem remetente. Na caixa, apenas uma inscrição 'não abra'. A moça passa o tempo todo rondando o objeto. 'É preciso que se aprenda a evitar'. A moça passa o tempo todo evitando o objeto. A moça passa o tempo todo esquecendo o objeto. Dá voltas em torno de si mesma tentando lembrar a importância das coisas. Quando vai até a sala, vai vendada, e tropeça em tudo, e machuca o joelho e o rosto. Em algumas ocasiões simplesmente dorme do lado de fora. Quem mora aí pergunta a transeunte Aí não mora ninguém. Quando chega a tempestade, ela volta para o seu quarto que também é a cozinha e o banheiro, como todo quarto deve ser. A visão da porta que dá para sala a enche de angústia. A ideia de uma porta que dá para sala a enche de medo. Quem poderia ter plantado em outra pessoa a eterna resignação. A tempestade piora, a água cai pelo telhado, o chão racha e vira lama. A garota corre á sala, vendada. Eu estou convencida de que certas coisas não há. E tira a venda. Lá, em frente aos seus pés sujos, a caixa. Ela grita, horrível!!! E bate inúmeras vezes contra a janela, que não está emperrada. Chega a noite de novo e tudo é pânico e torpor. Ela diz para si mesma que pare de observar mas seus olhos não obedecem, que pare de observar, mas de onde vem essa voz? Nesse momento pode ser uma impressão apenas, de que a caixa tenha se mexido. Pode ser uma impressão também o rugido que saiu de dentro dela e a figura negra, vasta e oblíqua que de seu tampo erigiu-se, que de seu tampo erigiu-se e caminhou sôfrega até a garota, e segurou com uma força descomunal seus braços e expirou seu hálito sobre seu rosto e lambeu com uma língua imensa e cortante os seus seios e que rasgou sua roupa num único movimento e a penetrou até transpassá-la e a mordeu até a paralisia e que voltou para dentro da caixa na mesma lamúria com a qual saiu. A própria garota pode ser uma mentira inocente, se não entrou também ela na caixa apaixonada pelo seu martírio, até o lugar do inferno de onde não há qualquer história.
A história termina e ouço lá fora meu cavalo. Vou até ele e o encaro. Você é livre, para ir. Ele dá algumas voltas pela casa e deita me olhando como se tivesse alguém mais assistindo, todas as pessoas. E assim me olhando vai desaparecendo em silêncio, bem em frente aos meus olhos.

domingo, 16 de setembro de 2012

corpúsculo táctil


A luz é fraca na cozinha, é início da manhã ou fim da tarde. Eu preciso cuidar dessa coisa, um bebê. Este bebê, olhando bem agora, se parece com um besouro, um besouro peludo com patas de aranha. Eu o ponho na mesa. Minha irmã grita: 'uma aranha!!' a aranha vem correndo em minha direção, eu chego a fugir para fora, mas decido entrar e encará-la. Piso nela com força, mas nada acontece. Ela consegue sair e dá um pulo imenso. Penso 'parece o meu bebê'. Olho para a mesa, ele não está mais ali. "Onde está o bebê do qual devo cuidar?', pergunto, ninguém sabe. Tiro os móveis do lugar, olho nos cantos da cozinha, em todos os vãos e frestas. Olho para cima da mesa novamente, tem um besouro lá. Não pode ser o meu bebê. 'Que lugar estranho é este?', digo. Por que não há luz? Eu ouço uma conversa lá fora, lá fora, bem longe, não, mais distante. Isto é um sonho! Mas eu acabei de acordar! Isto é um sonho. Eu acordo.

A carta do ator

Um belo dia tudo está estranho. É dia de trabalho, o primeiro da semana. Eu saio. Chego ao ponto de ônibus e espero. Algo me diz para olhar para baixo, eu olho: "onde estão meus sapatos???'. Eu rio. Que situação! Volto pelo mesmo caminho de onde vim. Na frente da minha casa, um ônibus. Percebo que não há ninguém lá dentro quando olho pela janela, no entanto, ao entrar, vejo que está cheio. Eu subo. Todas as pessoas me olham, mas de algum modo eu não sinto pânico. 'Este é o meu lugar', penso, então escolho um banco e me sento. O ônibus segue adiante. Quão estranhos esses caminhos, as árvores não tem cor de árvore, a estrada desaparece às vezes e a cacofonia soa como violino. Um passageiro, que não estava lá quando entrei e não subiu enquanto eu estava lá, se aproxima: 'certamente, muito certamente, as coisas bonitas se esconderam, então numa certa manhã, ou num certo dia de chuva torrencial, apareceram como se estivessem camufladas, desenhadas entre as superfícies de todas as coisas cotidianas. Aquela linda águia, seus olhos estavam entre o branco das nuvens e o laranja do pôr do sol, suas asas se dissolviam entre o cinza dos muros quebrados e a transparência das coisas que os olhos não podem interpretar. Suas garras malditas enterradas no solo, e sua penugem delicada espalhada entre os objetos que nada significam.", no que conto "Deve então haver mãos, por aí ao esmo, tocando as coisas e as pessoas, passando suavemente o dedo em seus peitos e a palma em suas faces. Essas mãos devem ter olhos também, e esses olhos devem encarar, entre os muros cinzas e tudo o que não é percebido". Olhei para fora, as árvores tinham cor de árvore, a estrada não havia desaparecido. Ele continuou "Presta bem atenção nisso, vai ter uma noite em que você precisará vingar o sono. Vai ter um dia em que você precisará se vingar da vigília. Olhe bem para frente, não na parede que te cerca, ou qualquer outro objeto no seu campo de visão. Olhe bem. Você não precisa estar de olhos abertos. Olhe bem. Veja o escuro. Meu filho tinha morrido. Nós o enterramos. Na terceira noite após sua morte, eu ouvi um grito agudo. De longe, mais longe. Eu corri pela chuva, eu corri pela lama e pelas pedras. Eu cheguei até o seu túmulo e abri o caixão. Lá dentro estava meu filho,  desesperado, não conseguia fechar os olhos ou a boca. Me suplicou 'pai, me tira daqui', eu já havia aberto o caixão e o tirei de lá mas ele insistia 'pai, me tira daqui'. Eu não podia mais aguentar, aquela visão horrível. Voltamos pelo mesmo caminho, pela lama, pela pedra e pela chuva, o carreguei pelos braços com muita dificuldade. 'O que há meu pai? Me tira daqui de dentro!', eu comecei a tremer, não conseguia me controlar. O meu filho - algo nesse momento me escapou - o meu filho começou a partir no meio, como se houvesse um zíper que ia da sua cabeça aos seus pés. Algo saiu de lá de dentro, eu não sei o que foi, mas ele não gritou mais"

A carta da cicatriz

Aos cinco anos fui para essa casa. Lá, crianças de todo o tipo, poucas crianças, mas de todo o tipo. A senhora desta casa raras vezes aparecia, mas sua voz ressonante ecoava pelas paredes: "nesta casa, vocês se bastam". Que crianças mal encaradas, eu pensava.
Nas terças-feiras aprendiam a mover a cadeira com os olhos. Levavam o dia todo, algumas crianças ficavam até a quarta. Conheci uma que me contou que foi numa terça-feira, há uns quarenta anos e repetia: "não existe nada melhor. Nem tão vivo. Nem tão urgente".
Minha primeira tarefa foi descobrir a figura correta num conjunto de cem figuras. E fazê-lo por mais cem vezes. Isto é difícil, pensei, porém posso seguir. O meu instrutor tem a aspereza das coisas esculpidas com força até a exaustão e o rosto das coisas que não precisam expressar mais nada. "O que você me ensina", disse a mim mesmo, "eu poderia viver sem aprender." Agora já não posso.
Nas sextas-feiras aprendemos a ver as coisas como elas são e transformá-las em coisas que queríamos que fossem. Muitas crianças já entram sabendo fazer. Conheço uma que me diz bem baixinho " Eu não consigo ver aquilo como aquilo é, então ás vezes digo que é um belo frango quando estou com fome ou o busto de Deus quando estou com medo, eles acreditam e eu não sou castigado "
A noite neste lugar é desconfortável, cadeiras voam por todos os cômodos, os sofás e as lâmpadas começam a conversar, a própria casa se permite uma frincha e dá para lugares estranhos dos quais nunca se volta. Algumas crianças acordam e tentam sair, mas ficam presas no peridomicílio, não conseguem se mover e entram em desespero. Quem é a senhora desta casa? Que cor estranha é essa? Eu me sinto sufocado, tudo se torna denso. O próprio ar está tão cheio de coisa. Tudo converge, eu sinto na minha pele algo rompendo, e nos meus olhos, o sangue. Quem é a senhora desta casa?

A carta da anomalia

Sim, algumas pessoas se levantavam durante a noite, pois sentiam o cheiro do gás e o badalar dos sinos. Porque ouviam sussurrar seus nomes, ou uma doce promessa. Levantavam porque alguém parecia em perigo. Iam até a janela e pairavam. Lá fora, a cidade. Nenhuma das luzes foi dormir ainda.
Não há de se acordar cedo amanhã. Nos sentamos no quintal, entre as árvores. A madrugada é o deus das coisas primitivas. Nós somos os primeiros homens, não há história pra se contar, contamos ainda assim.
De um rapaz que ao voltar para casa depois de cumprir uma tarefa laboriosa, foi diminuído. Três outros rapazes com sentimentos nobres lhe batiam no rosto. E depois na barriga e nas costas. Faziam-no sangrar a todo custo. Pisavam nas suas mãos e rasgavam a sua boca. Apertavam sua genitália e seus olhos. Puxavam sua orelha até ouvir-se o rasgo. E o rapaz não chorava por que não dava tempo. Havia algo maior, algo tão grande. Os três, depois de muito tempo, foram embora. O rapaz deixou-se deitar ali mesmo por algumas noites, sem fechar os olhos. Ele descobriu uma coisa, uma coisa que o fez estremecer, que o deixou calado e em alerta. Enquanto o deus das coisas primitivas cantava bem rouco:
 ''são homens,
 são homens...
deixemos que seja"