entra em casa. Faz barulho no assoalho. Ninguém entra aqui há muito tempo, quando decidi trocar as fechaduras. Ontem as troquei novamente. O ladrão bate contra a porta, umas duas vezes apenas. Depois desiste e vai embora, a exaustão, a fadiga. Eu olho pela janela, o ladrão cansado, levando em suas costas curvas o peso de todo roubo. La dentro, acendo uma fogueira, para que possa dormir. Só o fogo traz a calma, que me faz dormir, e o calor, que me faz dormir. A fogueira nunca se apaga. O nunca é breve e vejo cinzas.
De novo na janela, eu observo, as pessoas que observam pela janela. Vejo esta moça, em cuja porta cansado bate o ladrão. Ela corre até a porta. Ele prestes a partir. Ela destranca a porta. Vira a chave dezessete vezes. Ele partindo. Ela o chama e o toca no ombro. Eu sou o ladrão, diz ele, eu sou o ladrão, diz ela também. Protejo o mundo da minha furia, do meu anseio de roubar-lhe tudo. Procuro algo pra levar daqui, o que você tem? Eu tenho minha carcaça e a minha alegria, que é pequena mas que me faz continuar. Esta eu já não preciso, de lá fora peguei tudo o que é imenso, inclusive a alegria. E ela volta sempre, me faz repensar e olhar de volta para o saco, pra ver se eu a peguei de fato. Tem bolo. Me dê um pedaço do bolo. O ladrão pede.
Olho para a casa ao lado, mora sozinho um rapaz, que sente culpa por ser ainda rapaz e estar no limbo entre o triste senhor e a inocente criança. Vejo o rapaz descascando batata como se não houvessem outras batatas. Aquela é a única batata, a que contém o sabor. Não há mais ninguém. Vejo o rapaz. Andando pela parede, de todas as formas possíveis, dando cambalhotas, diferentes cambalhotas dentro de seu quarto apertado. Ele pega um binóculo e olha pra fora. Depois desenha na parede em que caminha uma maçã do tamanho de uma melancia e uma formiga do tamanho de um dragão e um sorriso do tamanho de uma melancia. E eufórico volta a olhar pela janela, enquanto a noite vai e volta e o dia vai e volta também.
Eu olho mais pro lado e vejo a minha propria janela e eu dentro dela olhando para as outras janelas. Eu com uns olhos enormes, é proibido fechá-los. O que eu vejo no entanto, eu poderia responder por mim. Eu vejo meus olhos.
Uma vez toquei a seda e senti o ardor da seda, que ouvi ser infinito. Depois senti a seda se esvaindo dos meus dedos, que ouvi serem fortes. O que vem depois? Da suprema alegria. O verme da posteridade vem comer o que me resta, como o sol de amanhã que ofusca o de hoje e me adia a noite inevitavel, sempre mais escura. Eu abro a minha porta, dezessete vezes abro a minha porta e caminho até a casa da frente.
Lá está o binóculo. Olho através do binóculo a face que tudo busca. As coisas não são completas, eu prefiro acreditar, que é possível preenchê-las sempre, com coisas mais, comigo mesmo. As coisas não são um fim em si. Eu abro a janela da face que tudo busca, com seu binóculo, tiro de seu rosto, sua boca macia e molhada, não consegue se fechar. Seus braços frios não conseguem se mover e me deixam tocá-los. É noite, eu digo. É sim, responde. Eu seguro suas mãos por longas horas. Como se fossem as que me faltavam, pra segurar a seda suficientemente forte. O vento a essas horas, o verdadeiro senhor do mundo. O vento sempre esteve aqui e viu tudo levantar e desabar. O vento verá essa historia e será a testemunha, a única que conhecerá cada um de seus pontos que vão se formando conforme o tempo passa. E eu passo junto segurando essas mãos. Eu aperto essas mãos. Eu olho pra face, ainda buscando, além do que eu enxergo. Buscando em si mesma. Além do que. É tarde diz. É sim, eu concordo. Se é tarde é preciso que iremos. Onde? Em algum lugar senão aqui. Mas eu quero ficar (eu quero sim), eu também mas olhe. Olho pra baixo, o musgo envolvendo meus pés. As sementes germinando em minhas pernas. O braço congelado que antes era só frio. É bom assim, veremos depois. O vento assobia, pois concorda. Ou amaldiçoa. Vai ficar bem depois, bem depois, veremos depois. Vai sim. Eu largo aquelas mãos, e aquela boca sempre aberta e aqueles olhos sempre distantes, e a seda também. Passo algum tempo retirando a vegetação que encontra em mim terra fértil. Não digo adeus. A janela se fecha. Ouço passos. Passos pela parede com as maçãs desenhadas, com os bodes desenhados. Passos até o teto, e o abrir do telhado. E lá em cima subindo o rosto. E seu binóculo mirando longe. E o vento batendo no seu cabelo. E o vento batendo na minha alma. E as flores nascendo nas minhas pernas. Eu preciso fugir.