sábado, 1 de dezembro de 2012

O que eu ouço aqui, é um choro
de uma criança. Este choro começou á noite quando fui me deitar e se estendeu pela madrugada quando não consegui dormir. É já manhã e tudo cessou menos as lágrimas.
Eu aperto a orelha contra a parede e ouço uma conversa. Eu poderia jurar que se trata de uma única voz, mas elas claramente discutem e defendem pontos opostos.
Eu vejo eminente, a afasia.

O dia em que vi

Não era novidade que me sentia sufocado naquele lugar, onde mesmo no mais severo frio escorria um suor quente e febril que me fazia tirar as roupas e andar pelo terreno totalmente vulnerável. Certa vez fui tomado de um calor terrivel que paralisou meus braços, e então, subindo ao meu rosto, me tirou a visão. Ainda assim me veio um impulso de despojo e de fuga, e fugi para longe, bem longe do lar.
Na porta gritava a mãe que volte que volte pois aí é longe demais e quanto mais alto gritava a mãe menos poder tinha sua voz e eu corri, pra esse lugar, onde fiz uma descoberta.

O dia em que vi

O chão é o calvário. Alguém passou por aqui de manhã e bateu com força na porta OI oque deseja você esqueceu de algo o que esqueci esqueceu o seu cavalo no pier é que fui nadar o seu cavalo chora agora eu não preciso mais dele ele é livre tem os campos para explorar porque ele o faria?
A porta já estava aberta mas o sujeito bateu de novo 'me atenda' sim, pois não? que sentido tem em sair por aí a vasculhar tudo se na verdade é tudo que te vasculha. A vingança é o melhor sentido quando falta um. Me lembrou antes quando eu fingia compreender o que estava se passando e me sentia enganado sempre, como agora. O que está se passando?
Enquanto o sujeito me fita vejo lá embaixo meu cavalo se soltando do cais depois de muito lutar e furioso percorrendo todo o campo, com uma monstruosidade assustadora, dono de toda a sua liberdade. Com o ódio trespassando o seu casco e atingindo o solo. A liberdade.
O sujeito vai embora e me deixa atônito. Fecho a porta e me sento, como faço sempre até a hora de dormir.
É noite, bem noite. Eu ligo um pequeno rádio á pilha e coloco a fita que uma vez me deram na infância. Uma fita com histórias curtas de fadas, bem curtas para que não morressem. Tem essa história, que me chama bastante atenção de uma moça que recebe uma caixa sem remetente. Na caixa, apenas uma inscrição 'não abra'. A moça passa o tempo todo rondando o objeto. 'É preciso que se aprenda a evitar'. A moça passa o tempo todo evitando o objeto. A moça passa o tempo todo esquecendo o objeto. Dá voltas em torno de si mesma tentando lembrar a importância das coisas. Quando vai até a sala, vai vendada, e tropeça em tudo, e machuca o joelho e o rosto. Em algumas ocasiões simplesmente dorme do lado de fora. Quem mora aí pergunta a transeunte Aí não mora ninguém. Quando chega a tempestade, ela volta para o seu quarto que também é a cozinha e o banheiro, como todo quarto deve ser. A visão da porta que dá para sala a enche de angústia. A ideia de uma porta que dá para sala a enche de medo. Quem poderia ter plantado em outra pessoa a eterna resignação. A tempestade piora, a água cai pelo telhado, o chão racha e vira lama. A garota corre á sala, vendada. Eu estou convencida de que certas coisas não há. E tira a venda. Lá, em frente aos seus pés sujos, a caixa. Ela grita, horrível!!! E bate inúmeras vezes contra a janela, que não está emperrada. Chega a noite de novo e tudo é pânico e torpor. Ela diz para si mesma que pare de observar mas seus olhos não obedecem, que pare de observar, mas de onde vem essa voz? Nesse momento pode ser uma impressão apenas, de que a caixa tenha se mexido. Pode ser uma impressão também o rugido que saiu de dentro dela e a figura negra, vasta e oblíqua que de seu tampo erigiu-se, que de seu tampo erigiu-se e caminhou sôfrega até a garota, e segurou com uma força descomunal seus braços e expirou seu hálito sobre seu rosto e lambeu com uma língua imensa e cortante os seus seios e que rasgou sua roupa num único movimento e a penetrou até transpassá-la e a mordeu até a paralisia e que voltou para dentro da caixa na mesma lamúria com a qual saiu. A própria garota pode ser uma mentira inocente, se não entrou também ela na caixa apaixonada pelo seu martírio, até o lugar do inferno de onde não há qualquer história.
A história termina e ouço lá fora meu cavalo. Vou até ele e o encaro. Você é livre, para ir. Ele dá algumas voltas pela casa e deita me olhando como se tivesse alguém mais assistindo, todas as pessoas. E assim me olhando vai desaparecendo em silêncio, bem em frente aos meus olhos.