entra em casa. Faz barulho no assoalho. Ninguém entra aqui há muito tempo, quando decidi trocar as fechaduras. Ontem as troquei novamente. O ladrão bate contra a porta, umas duas vezes apenas. Depois desiste e vai embora, a exaustão, a fadiga. Eu olho pela janela, o ladrão cansado, levando em suas costas curvas o peso de todo roubo. La dentro, acendo uma fogueira, para que possa dormir. Só o fogo traz a calma, que me faz dormir, e o calor, que me faz dormir. A fogueira nunca se apaga. O nunca é breve e vejo cinzas.
De novo na janela, eu observo, as pessoas que observam pela janela. Vejo esta moça, em cuja porta cansado bate o ladrão. Ela corre até a porta. Ele prestes a partir. Ela destranca a porta. Vira a chave dezessete vezes. Ele partindo. Ela o chama e o toca no ombro. Eu sou o ladrão, diz ele, eu sou o ladrão, diz ela também. Protejo o mundo da minha furia, do meu anseio de roubar-lhe tudo. Procuro algo pra levar daqui, o que você tem? Eu tenho minha carcaça e a minha alegria, que é pequena mas que me faz continuar. Esta eu já não preciso, de lá fora peguei tudo o que é imenso, inclusive a alegria. E ela volta sempre, me faz repensar e olhar de volta para o saco, pra ver se eu a peguei de fato. Tem bolo. Me dê um pedaço do bolo. O ladrão pede.
Olho para a casa ao lado, mora sozinho um rapaz, que sente culpa por ser ainda rapaz e estar no limbo entre o triste senhor e a inocente criança. Vejo o rapaz descascando batata como se não houvessem outras batatas. Aquela é a única batata, a que contém o sabor. Não há mais ninguém. Vejo o rapaz. Andando pela parede, de todas as formas possíveis, dando cambalhotas, diferentes cambalhotas dentro de seu quarto apertado. Ele pega um binóculo e olha pra fora. Depois desenha na parede em que caminha uma maçã do tamanho de uma melancia e uma formiga do tamanho de um dragão e um sorriso do tamanho de uma melancia. E eufórico volta a olhar pela janela, enquanto a noite vai e volta e o dia vai e volta também.
Eu olho mais pro lado e vejo a minha propria janela e eu dentro dela olhando para as outras janelas. Eu com uns olhos enormes, é proibido fechá-los. O que eu vejo no entanto, eu poderia responder por mim. Eu vejo meus olhos.
Uma vez toquei a seda e senti o ardor da seda, que ouvi ser infinito. Depois senti a seda se esvaindo dos meus dedos, que ouvi serem fortes. O que vem depois? Da suprema alegria. O verme da posteridade vem comer o que me resta, como o sol de amanhã que ofusca o de hoje e me adia a noite inevitavel, sempre mais escura. Eu abro a minha porta, dezessete vezes abro a minha porta e caminho até a casa da frente.
Lá está o binóculo. Olho através do binóculo a face que tudo busca. As coisas não são completas, eu prefiro acreditar, que é possível preenchê-las sempre, com coisas mais, comigo mesmo. As coisas não são um fim em si. Eu abro a janela da face que tudo busca, com seu binóculo, tiro de seu rosto, sua boca macia e molhada, não consegue se fechar. Seus braços frios não conseguem se mover e me deixam tocá-los. É noite, eu digo. É sim, responde. Eu seguro suas mãos por longas horas. Como se fossem as que me faltavam, pra segurar a seda suficientemente forte. O vento a essas horas, o verdadeiro senhor do mundo. O vento sempre esteve aqui e viu tudo levantar e desabar. O vento verá essa historia e será a testemunha, a única que conhecerá cada um de seus pontos que vão se formando conforme o tempo passa. E eu passo junto segurando essas mãos. Eu aperto essas mãos. Eu olho pra face, ainda buscando, além do que eu enxergo. Buscando em si mesma. Além do que. É tarde diz. É sim, eu concordo. Se é tarde é preciso que iremos. Onde? Em algum lugar senão aqui. Mas eu quero ficar (eu quero sim), eu também mas olhe. Olho pra baixo, o musgo envolvendo meus pés. As sementes germinando em minhas pernas. O braço congelado que antes era só frio. É bom assim, veremos depois. O vento assobia, pois concorda. Ou amaldiçoa. Vai ficar bem depois, bem depois, veremos depois. Vai sim. Eu largo aquelas mãos, e aquela boca sempre aberta e aqueles olhos sempre distantes, e a seda também. Passo algum tempo retirando a vegetação que encontra em mim terra fértil. Não digo adeus. A janela se fecha. Ouço passos. Passos pela parede com as maçãs desenhadas, com os bodes desenhados. Passos até o teto, e o abrir do telhado. E lá em cima subindo o rosto. E seu binóculo mirando longe. E o vento batendo no seu cabelo. E o vento batendo na minha alma. E as flores nascendo nas minhas pernas. Eu preciso fugir.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
sábado, 1 de dezembro de 2012
pé
O que eu ouço aqui, é um choro
de uma criança. Este choro começou á noite quando fui me deitar e se estendeu pela madrugada quando não consegui dormir. É já manhã e tudo cessou menos as lágrimas.
Eu aperto a orelha contra a parede e ouço uma conversa. Eu poderia jurar que se trata de uma única voz, mas elas claramente discutem e defendem pontos opostos.
Eu vejo eminente, a afasia.
O dia em que vi
Não era novidade que me sentia sufocado naquele lugar, onde mesmo no mais severo frio escorria um suor quente e febril que me fazia tirar as roupas e andar pelo terreno totalmente vulnerável. Certa vez fui tomado de um calor terrivel que paralisou meus braços, e então, subindo ao meu rosto, me tirou a visão. Ainda assim me veio um impulso de despojo e de fuga, e fugi para longe, bem longe do lar.
Na porta gritava a mãe que volte que volte pois aí é longe demais e quanto mais alto gritava a mãe menos poder tinha sua voz e eu corri, pra esse lugar, onde fiz uma descoberta.
O dia em que vi
O chão é o calvário. Alguém passou por aqui de manhã e bateu com força na porta OI oque deseja você esqueceu de algo o que esqueci esqueceu o seu cavalo no pier é que fui nadar o seu cavalo chora agora eu não preciso mais dele ele é livre tem os campos para explorar porque ele o faria?
A porta já estava aberta mas o sujeito bateu de novo 'me atenda' sim, pois não? que sentido tem em sair por aí a vasculhar tudo se na verdade é tudo que te vasculha. A vingança é o melhor sentido quando falta um. Me lembrou antes quando eu fingia compreender o que estava se passando e me sentia enganado sempre, como agora. O que está se passando?
Enquanto o sujeito me fita vejo lá embaixo meu cavalo se soltando do cais depois de muito lutar e furioso percorrendo todo o campo, com uma monstruosidade assustadora, dono de toda a sua liberdade. Com o ódio trespassando o seu casco e atingindo o solo. A liberdade.
O sujeito vai embora e me deixa atônito. Fecho a porta e me sento, como faço sempre até a hora de dormir.
É noite, bem noite. Eu ligo um pequeno rádio á pilha e coloco a fita que uma vez me deram na infância. Uma fita com histórias curtas de fadas, bem curtas para que não morressem. Tem essa história, que me chama bastante atenção de uma moça que recebe uma caixa sem remetente. Na caixa, apenas uma inscrição 'não abra'. A moça passa o tempo todo rondando o objeto. 'É preciso que se aprenda a evitar'. A moça passa o tempo todo evitando o objeto. A moça passa o tempo todo esquecendo o objeto. Dá voltas em torno de si mesma tentando lembrar a importância das coisas. Quando vai até a sala, vai vendada, e tropeça em tudo, e machuca o joelho e o rosto. Em algumas ocasiões simplesmente dorme do lado de fora. Quem mora aí pergunta a transeunte Aí não mora ninguém. Quando chega a tempestade, ela volta para o seu quarto que também é a cozinha e o banheiro, como todo quarto deve ser. A visão da porta que dá para sala a enche de angústia. A ideia de uma porta que dá para sala a enche de medo. Quem poderia ter plantado em outra pessoa a eterna resignação. A tempestade piora, a água cai pelo telhado, o chão racha e vira lama. A garota corre á sala, vendada. Eu estou convencida de que certas coisas não há. E tira a venda. Lá, em frente aos seus pés sujos, a caixa. Ela grita, horrível!!! E bate inúmeras vezes contra a janela, que não está emperrada. Chega a noite de novo e tudo é pânico e torpor. Ela diz para si mesma que pare de observar mas seus olhos não obedecem, que pare de observar, mas de onde vem essa voz? Nesse momento pode ser uma impressão apenas, de que a caixa tenha se mexido. Pode ser uma impressão também o rugido que saiu de dentro dela e a figura negra, vasta e oblíqua que de seu tampo erigiu-se, que de seu tampo erigiu-se e caminhou sôfrega até a garota, e segurou com uma força descomunal seus braços e expirou seu hálito sobre seu rosto e lambeu com uma língua imensa e cortante os seus seios e que rasgou sua roupa num único movimento e a penetrou até transpassá-la e a mordeu até a paralisia e que voltou para dentro da caixa na mesma lamúria com a qual saiu. A própria garota pode ser uma mentira inocente, se não entrou também ela na caixa apaixonada pelo seu martírio, até o lugar do inferno de onde não há qualquer história.
A história termina e ouço lá fora meu cavalo. Vou até ele e o encaro. Você é livre, para ir. Ele dá algumas voltas pela casa e deita me olhando como se tivesse alguém mais assistindo, todas as pessoas. E assim me olhando vai desaparecendo em silêncio, bem em frente aos meus olhos.
de uma criança. Este choro começou á noite quando fui me deitar e se estendeu pela madrugada quando não consegui dormir. É já manhã e tudo cessou menos as lágrimas.
Eu aperto a orelha contra a parede e ouço uma conversa. Eu poderia jurar que se trata de uma única voz, mas elas claramente discutem e defendem pontos opostos.
Eu vejo eminente, a afasia.
O dia em que vi
Não era novidade que me sentia sufocado naquele lugar, onde mesmo no mais severo frio escorria um suor quente e febril que me fazia tirar as roupas e andar pelo terreno totalmente vulnerável. Certa vez fui tomado de um calor terrivel que paralisou meus braços, e então, subindo ao meu rosto, me tirou a visão. Ainda assim me veio um impulso de despojo e de fuga, e fugi para longe, bem longe do lar.
Na porta gritava a mãe que volte que volte pois aí é longe demais e quanto mais alto gritava a mãe menos poder tinha sua voz e eu corri, pra esse lugar, onde fiz uma descoberta.
O dia em que vi
O chão é o calvário. Alguém passou por aqui de manhã e bateu com força na porta OI oque deseja você esqueceu de algo o que esqueci esqueceu o seu cavalo no pier é que fui nadar o seu cavalo chora agora eu não preciso mais dele ele é livre tem os campos para explorar porque ele o faria?
A porta já estava aberta mas o sujeito bateu de novo 'me atenda' sim, pois não? que sentido tem em sair por aí a vasculhar tudo se na verdade é tudo que te vasculha. A vingança é o melhor sentido quando falta um. Me lembrou antes quando eu fingia compreender o que estava se passando e me sentia enganado sempre, como agora. O que está se passando?
Enquanto o sujeito me fita vejo lá embaixo meu cavalo se soltando do cais depois de muito lutar e furioso percorrendo todo o campo, com uma monstruosidade assustadora, dono de toda a sua liberdade. Com o ódio trespassando o seu casco e atingindo o solo. A liberdade.
O sujeito vai embora e me deixa atônito. Fecho a porta e me sento, como faço sempre até a hora de dormir.
É noite, bem noite. Eu ligo um pequeno rádio á pilha e coloco a fita que uma vez me deram na infância. Uma fita com histórias curtas de fadas, bem curtas para que não morressem. Tem essa história, que me chama bastante atenção de uma moça que recebe uma caixa sem remetente. Na caixa, apenas uma inscrição 'não abra'. A moça passa o tempo todo rondando o objeto. 'É preciso que se aprenda a evitar'. A moça passa o tempo todo evitando o objeto. A moça passa o tempo todo esquecendo o objeto. Dá voltas em torno de si mesma tentando lembrar a importância das coisas. Quando vai até a sala, vai vendada, e tropeça em tudo, e machuca o joelho e o rosto. Em algumas ocasiões simplesmente dorme do lado de fora. Quem mora aí pergunta a transeunte Aí não mora ninguém. Quando chega a tempestade, ela volta para o seu quarto que também é a cozinha e o banheiro, como todo quarto deve ser. A visão da porta que dá para sala a enche de angústia. A ideia de uma porta que dá para sala a enche de medo. Quem poderia ter plantado em outra pessoa a eterna resignação. A tempestade piora, a água cai pelo telhado, o chão racha e vira lama. A garota corre á sala, vendada. Eu estou convencida de que certas coisas não há. E tira a venda. Lá, em frente aos seus pés sujos, a caixa. Ela grita, horrível!!! E bate inúmeras vezes contra a janela, que não está emperrada. Chega a noite de novo e tudo é pânico e torpor. Ela diz para si mesma que pare de observar mas seus olhos não obedecem, que pare de observar, mas de onde vem essa voz? Nesse momento pode ser uma impressão apenas, de que a caixa tenha se mexido. Pode ser uma impressão também o rugido que saiu de dentro dela e a figura negra, vasta e oblíqua que de seu tampo erigiu-se, que de seu tampo erigiu-se e caminhou sôfrega até a garota, e segurou com uma força descomunal seus braços e expirou seu hálito sobre seu rosto e lambeu com uma língua imensa e cortante os seus seios e que rasgou sua roupa num único movimento e a penetrou até transpassá-la e a mordeu até a paralisia e que voltou para dentro da caixa na mesma lamúria com a qual saiu. A própria garota pode ser uma mentira inocente, se não entrou também ela na caixa apaixonada pelo seu martírio, até o lugar do inferno de onde não há qualquer história.
A história termina e ouço lá fora meu cavalo. Vou até ele e o encaro. Você é livre, para ir. Ele dá algumas voltas pela casa e deita me olhando como se tivesse alguém mais assistindo, todas as pessoas. E assim me olhando vai desaparecendo em silêncio, bem em frente aos meus olhos.
domingo, 16 de setembro de 2012
corpúsculo táctil
A luz é fraca na cozinha, é início da manhã ou fim da tarde. Eu preciso cuidar dessa coisa, um bebê. Este bebê, olhando bem agora, se parece com um besouro, um besouro peludo com patas de aranha. Eu o ponho na mesa. Minha irmã grita: 'uma aranha!!' a aranha vem correndo em minha direção, eu chego a fugir para fora, mas decido entrar e encará-la. Piso nela com força, mas nada acontece. Ela consegue sair e dá um pulo imenso. Penso 'parece o meu bebê'. Olho para a mesa, ele não está mais ali. "Onde está o bebê do qual devo cuidar?', pergunto, ninguém sabe. Tiro os móveis do lugar, olho nos cantos da cozinha, em todos os vãos e frestas. Olho para cima da mesa novamente, tem um besouro lá. Não pode ser o meu bebê. 'Que lugar estranho é este?', digo. Por que não há luz? Eu ouço uma conversa lá fora, lá fora, bem longe, não, mais distante. Isto é um sonho! Mas eu acabei de acordar! Isto é um sonho. Eu acordo.
A carta do ator
Um belo dia tudo está estranho. É dia de trabalho, o primeiro da semana. Eu saio. Chego ao ponto de ônibus e espero. Algo me diz para olhar para baixo, eu olho: "onde estão meus sapatos???'. Eu rio. Que situação! Volto pelo mesmo caminho de onde vim. Na frente da minha casa, um ônibus. Percebo que não há ninguém lá dentro quando olho pela janela, no entanto, ao entrar, vejo que está cheio. Eu subo. Todas as pessoas me olham, mas de algum modo eu não sinto pânico. 'Este é o meu lugar', penso, então escolho um banco e me sento. O ônibus segue adiante. Quão estranhos esses caminhos, as árvores não tem cor de árvore, a estrada desaparece às vezes e a cacofonia soa como violino. Um passageiro, que não estava lá quando entrei e não subiu enquanto eu estava lá, se aproxima: 'certamente, muito certamente, as coisas bonitas se esconderam, então numa certa manhã, ou num certo dia de chuva torrencial, apareceram como se estivessem camufladas, desenhadas entre as superfícies de todas as coisas cotidianas. Aquela linda águia, seus olhos estavam entre o branco das nuvens e o laranja do pôr do sol, suas asas se dissolviam entre o cinza dos muros quebrados e a transparência das coisas que os olhos não podem interpretar. Suas garras malditas enterradas no solo, e sua penugem delicada espalhada entre os objetos que nada significam.", no que conto "Deve então haver mãos, por aí ao esmo, tocando as coisas e as pessoas, passando suavemente o dedo em seus peitos e a palma em suas faces. Essas mãos devem ter olhos também, e esses olhos devem encarar, entre os muros cinzas e tudo o que não é percebido". Olhei para fora, as árvores tinham cor de árvore, a estrada não havia desaparecido. Ele continuou "Presta bem atenção nisso, vai ter uma noite em que você precisará vingar o sono. Vai ter um dia em que você precisará se vingar da vigília. Olhe bem para frente, não na parede que te cerca, ou qualquer outro objeto no seu campo de visão. Olhe bem. Você não precisa estar de olhos abertos. Olhe bem. Veja o escuro. Meu filho tinha morrido. Nós o enterramos. Na terceira noite após sua morte, eu ouvi um grito agudo. De longe, mais longe. Eu corri pela chuva, eu corri pela lama e pelas pedras. Eu cheguei até o seu túmulo e abri o caixão. Lá dentro estava meu filho, desesperado, não conseguia fechar os olhos ou a boca. Me suplicou 'pai, me tira daqui', eu já havia aberto o caixão e o tirei de lá mas ele insistia 'pai, me tira daqui'. Eu não podia mais aguentar, aquela visão horrível. Voltamos pelo mesmo caminho, pela lama, pela pedra e pela chuva, o carreguei pelos braços com muita dificuldade. 'O que há meu pai? Me tira daqui de dentro!', eu comecei a tremer, não conseguia me controlar. O meu filho - algo nesse momento me escapou - o meu filho começou a partir no meio, como se houvesse um zíper que ia da sua cabeça aos seus pés. Algo saiu de lá de dentro, eu não sei o que foi, mas ele não gritou mais"
A carta da cicatriz
Aos cinco anos fui para essa casa. Lá, crianças de todo o tipo, poucas crianças, mas de todo o tipo. A senhora desta casa raras vezes aparecia, mas sua voz ressonante ecoava pelas paredes: "nesta casa, vocês se bastam". Que crianças mal encaradas, eu pensava.
Nas terças-feiras aprendiam a mover a cadeira com os olhos. Levavam o dia todo, algumas crianças ficavam até a quarta. Conheci uma que me contou que foi numa terça-feira, há uns quarenta anos e repetia: "não existe nada melhor. Nem tão vivo. Nem tão urgente".
Minha primeira tarefa foi descobrir a figura correta num conjunto de cem figuras. E fazê-lo por mais cem vezes. Isto é difícil, pensei, porém posso seguir. O meu instrutor tem a aspereza das coisas esculpidas com força até a exaustão e o rosto das coisas que não precisam expressar mais nada. "O que você me ensina", disse a mim mesmo, "eu poderia viver sem aprender." Agora já não posso.
Nas sextas-feiras aprendemos a ver as coisas como elas são e transformá-las em coisas que queríamos que fossem. Muitas crianças já entram sabendo fazer. Conheço uma que me diz bem baixinho " Eu não consigo ver aquilo como aquilo é, então ás vezes digo que é um belo frango quando estou com fome ou o busto de Deus quando estou com medo, eles acreditam e eu não sou castigado "
A noite neste lugar é desconfortável, cadeiras voam por todos os cômodos, os sofás e as lâmpadas começam a conversar, a própria casa se permite uma frincha e dá para lugares estranhos dos quais nunca se volta. Algumas crianças acordam e tentam sair, mas ficam presas no peridomicílio, não conseguem se mover e entram em desespero. Quem é a senhora desta casa? Que cor estranha é essa? Eu me sinto sufocado, tudo se torna denso. O próprio ar está tão cheio de coisa. Tudo converge, eu sinto na minha pele algo rompendo, e nos meus olhos, o sangue. Quem é a senhora desta casa?
A carta da anomalia
Sim, algumas pessoas se levantavam durante a noite, pois sentiam o cheiro do gás e o badalar dos sinos. Porque ouviam sussurrar seus nomes, ou uma doce promessa. Levantavam porque alguém parecia em perigo. Iam até a janela e pairavam. Lá fora, a cidade. Nenhuma das luzes foi dormir ainda.
Não há de se acordar cedo amanhã. Nos sentamos no quintal, entre as árvores. A madrugada é o deus das coisas primitivas. Nós somos os primeiros homens, não há história pra se contar, contamos ainda assim.
De um rapaz que ao voltar para casa depois de cumprir uma tarefa laboriosa, foi diminuído. Três outros rapazes com sentimentos nobres lhe batiam no rosto. E depois na barriga e nas costas. Faziam-no sangrar a todo custo. Pisavam nas suas mãos e rasgavam a sua boca. Apertavam sua genitália e seus olhos. Puxavam sua orelha até ouvir-se o rasgo. E o rapaz não chorava por que não dava tempo. Havia algo maior, algo tão grande. Os três, depois de muito tempo, foram embora. O rapaz deixou-se deitar ali mesmo por algumas noites, sem fechar os olhos. Ele descobriu uma coisa, uma coisa que o fez estremecer, que o deixou calado e em alerta. Enquanto o deus das coisas primitivas cantava bem rouco:
''são homens,
são homens...
deixemos que seja"
domingo, 26 de agosto de 2012
sonhos na casa pequena
uma vez eu sonhei, um sonho que sempre me lembro, de estar num lugar úmido, um lugar não muito bem definido, que se tornava outros lugares, mas os olhos enxergavam a mesma coisa sempre. As pessoas não paravam de falar, elas falavam tudo, sobre tudo, o tempo todo. Elas falavam sobre a conta vencida, sobre as sempre-verdes, sobre não dever fazer isso, sobre sobre, tudo misturado, as frases não respeitavam nenhuma estrutura sintática, as palavras não diziam nada, mas elas falavam, o tempo todo. Em seguida mudou. Eu vou contar uma história que não tem nenhum espaço onde possa se alojar exatamente, por isso entra em alguns cantos.
Antípodas
Era um homem parece. Tinha uma casa, tão horrível, a casa assumia, de noite, a forma de coisas e como coisas, sussurrava, exalava um cheiro estranho nos dias ruins para que eles ficassem piores e fazia se mover sombras pela parede mimetizando o demônio da perna marrom. Tinha um espelho nessa casa e tinha o ar, que subia pela nuca, gélido. O demônio começou a aparecer com frequência, primeiro no canto dos olhos. Depois fazia zumbido nos ouvidos e ás vezes fazia a pessoa querer bater a cabeça na parede. Uma certa vez, bem de noite, na hora que se mistura a tinta das coisas posteriores, o demônio lhe apertou tão forte o peito que o ar faltou. Demorou cinco dias pra que voltasse o ar, mas o medo ficou. A falta é sentida, alguns meses, anos, quilômetros ou gramas depois.
Sim parece mais um homem olhando agora, se você vir-lo de costas, parecerá um homem sério. Ele não tem cama então dorme no chão. O chão lhe recompensa amaciando seu cabelo durante a noite. Quando acorda anda descalço. Do alto do teto, um buraco, no centro desse buraco dá pra ver alguém olhando, bem de longe. Tudo está olhando. Tudo está feliz.
Uma carta é deixada debaixo da porta. Ele pega. É de um parente, um parente próximo, que lhe incluiu no testamento e lhe deixou um bosque, no cume. Foi um dos beneficiários. A outra foi uma criança, a qual se apoderou de um lindo berço de bronze.
Ele veste roupas escuras porque as claras não parecem mais roupas, parecem a nudez. Ele penteia o cabelo pro lado direito porque pro esquerdo parece que alguém vai morrer ou que a estrada vai rachar. Ele subiu o cume, tinha mesmo um bosque. Três pessoas estavam lá, advertiram-lhe o atraso -'Você está atrasado', disseram, e desabotoaram sua camisa e então sua calça e o deixaram completamente nu como se estivesse vestindo roupas claras, e lhe bagunçaram o cabelo pra esquerda como se a morte o esperasse. E então se poram a lamber-lhe todo para encontrar o ponto de ruptura. O ponto de ruptura era na ponta da sua coisa, e a sua coisa ficava cada vez maior e molhada, conforme ele se rompia. Três bocas esfomeadas a engoliram de vez até que ele gozasse nas magnólias e na terra. Ao terminarem,, amarraram-lhe as mãos num cipó e botaram fogo no seu cabelo. Ele sorriu.
A árvore
Era bem de noite. O homem parecia menos homem de noite, sobretudo enquanto apoiava a cabeça nas mãos e batia o pé sem parar. O demônio sorriu, o espelho quem disse. Ouviu-se passos, bem de longe, bem vagarosos, mas ruidosos, passos através da porta, detrás da porta, acima do quintal, em cima, no cume. Ele destrancou a porta girando a chave quatro vezes e esperou ali, rijo, olhando pra cima. Um pequeno ponto branco começou a ganhar forma, os sons dos passos ficaram mais altos. Via-se já umas mãos e um andar vacilante. E então uma cabeça, e uns olhos. Olhos pequenos. Era uma criança.
-de onde veio?
-do bosque, do fundo da terra.
-quem te mandou aqui?
-a árvore minha mãe e a raposa faminta, minha irmã.
-o que quer de mim.
-eu quero te olhar por bastante tempo.
-ora, volta lá pra cima que aqui não tem nada, a comida é pouca e o cobertor só tem um, como a cadeira e o copo.
-eu me alimento de planta e durmo no teto.
-aqui não é lugar de estar.
(que tipo de frase é essa??)
A criança entrou, era careca, suja de terra e de folhas. O homem ligou a água e encheu a bacia, desnudou a criança e a enfiou toda lá dentro. Enquanto dava o banho viu o demônio escalando as paredes, como uma lagartixa. O menino começou a gritar. 'Mata!!!'. Essa criança não tira os olhos do homem, ás vezes vira a cabeça totalmente e seus olhos entram como que para espiar através de seu crânio. Quando está dormindo, o faz de olho aberto. Quando o homem a põe deitada, levanta e dorme no pé da sua cama.
Os dias sucediam, e o homem sentia nervoso pois já estava no fim o pão. A criança lhe olhou com tanto afinco que ele sentiu culpa, uma culpa horrível.
Uma vez era uma estranha vez, parecia que o mundo ia acabar e tinha cheiro de jasmim as coisas. O homem sentiu um ar quente subindo da sua barriga, martelando o seu peito até chegar no pescoço. Ele acreditava que era ali que as pessoas existiam, sua consciência e os seus desejos. Ele desnudou a criança para um outro banho. A criança não parava de olhá-lo, ele não parava de olhar a criança. Passou-lhe o sabão nas costas, na nuca, esfregou bem a sua cabeça redonda, com pequenos fios brancos de cabelo e então a sua coxa, esfregou-lhe o pequeno pênis que parecia tanto o seu, esfregou-lhe até que crescesse e coubesse na sua boca. A criança olhava. O demônio olhava. A árvore e a terra olhavam. O pescoço estava vermelho. A criança gemeu, o homem também. Largou a criança, tirou as suas roupas e correu nu pela mata. Deitou-se no chão e apertou toda sua ereção contra a terra. Uma vez mais. A terra lhe envolveu todo, lhe massageou o pescoço. As trepadeiras se enrolaram no seu corpo e ele então, fora de seu pescoço, fecundou a terra. Uma vez mais.
Duas noites se passaram e ele permanecia deitado, sentindo o orgasmo do mundo. Após um certo tempo, desnorteado, se levantou e voltou para casa. Enforcada na porta, a criança. Foi o diabo. Lá mesmo ficou, esperando que uma outra descesse do bosque numa noite qualquer.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
domingo
Era noite quando deixei o lugar que vivia, assombrado por vozes desconhecidas, que produziam frases desconhecidas com palavras conhecidas, em cujo interior morriam tantas outras e elas próprias. Era dia quando deixei o lugar que vivia. Um caminho coberto com pedras á minha frente e se eu ousasse olhar ainda assim veria sua inclinação, para o céu e depois para o nunca. Era dia quando o segui.
Já eram dez passos dados quando a primeira flor gigante rasgou o chão e prostrou-se no caminho. 'onde vai agora não tem destino, não tem resposta' no que respondi 'não sei' no que retrucou 'está dito' e então voltou para o fundo da terra. Algumas pétalas da flor maldita entraram nos meus olhos e o seu perfume era o dos defuntos que levaram consigo mais vida do que já vivi. Alguns outros passos e vem o gavião sorrateiro, gigante do tamanho de um navio naufragado - 'eu sei muitas coisas, aprendi com homens que sabiam muitas coisas dentre as quais nada sabem' onde perguntei -'de onde você vem há algum lugar que se queira ir?' -' há ainda esse lugar, ele dorme' -'e suas asas?' -'não enxugam meus olhos'.
Na terra verde, havia casas adiante, havia pessoas nas portas das casas, havia uma casa em particular, tão parecida com a casa da minha infância, que desapareceu numa bela manhã e a qual procuro para sempre 'é esta casa, a casa de todas as manhãs' Sai uma senhora de 400 anos e sua irmã de 400 anos -'Esta casa é a casa da noite eterna, foi onde matei meu corpo e ele se regenerou em segundos' -'que ainda faz viva?' -'vingança' -'este solo é infértil' - 'todos são, no entanto o fruto que alimenta a mim e aos outros homens é o fruto do nada e do óbvio' e a voz ressonante de sua irmã completa 'há algo no nada e no não nascido que sacia uma fome aguda que um dia começamos a sentir, meu estomago apertou tanto que olhei pelo campo e no lugar do nada vi uma parede e dentro dessa parede mil bacias que dois anos antes eram apenas ostras, e então pérola alguma, a pérola estava atrás da parede que por acaso não estava ali' a primeira prosseguiu -'apontei para o céu e não soube se estava apontando para a cor ou para a forma, ou para a palavra ou para mim mesma, eu descrevo coisas com o intuito de explicá-las e então eu as compreendo, na sua total incompreensão, e vejo que não apontei nunca para algo mas todo o algo,as formas, as cores, as texturas, as estranhezas e as ambiguidades, se apontava para o meu dedo', me convidaram então para entrar e tomar um chá -'não posso há tanto caminho' -'há sim' e trouxeram o chá. Enquanto segurava a xícara, me olhavam com o olhar fixo, num momento tão breve percebi que estavam mortas, que nunca estiveram vivas -'nunca', disseram em uníssono. O chá, que chá ruim, não tinha gosto de chá, tinha gosto de lombadas, eu tentei me lembrar do gosto de chá e ele morreu, o gosto, comigo há uns tempos atrás. -'este é o tempo de novos chás!'. Essas senhoras sabem tudo, eu penso, elas veem as minhas palavras não ditas se formarem em meus olhos e eu me pergunto se elas movimentam minhas púpilas ou se minhas púpilas as guiam. Minha mãe disse algo sobre um homem que podia ler pupilas em cada minimo movimento delas, que havia uma palavra dada para cada estado e posição da pupila, mesmo que nada significasse a palavra. Uma das senhoras me contou, com voz de uma doce menina' estamos aqui do seu lado pois precisamos de você aqui, nos sentimos solitárias, em duas, e nos sentiríamos também em três, por isto vamos reparti-lo em dois, para que cada metade possa nos mostrar o infinito', a outra continou -'você parece a gente quando jovem e talvez além disso, a gente quando imortais'. Eu senti medo e ela soube, através das minhas pupilas -'esse medo não é o maior dos medos, entretanto todos os medos são os maiores medos' -'se eu vivesse até os 400 anos meu maior medo não seria maior que o meu medo primeiro ainda assim, me sentiria sem ar'. Não há ar. Fui embora.
Atrás de mim, bem atrás, ouvi o estrondo que era o da flor que rompe o chão, lembrei das suas pétalas, que arderam meus olhos antes e que agora eram eles próprios e continuei. Um cavalo de carga veio até mim apoiado em suas patas traseiras, lentamente, e me propôs -'se você olhar bem um homem', respirou tão fundo quanto pôde -'se olhar bem para um homem, verá cada átomo seu, e após isso cada particula que os compõe' respirou -'e se for da sua vontade olhar ainda mais, verá mãos, e pernas, e também uma estrada, se continuar, verá seus olhos e, se ainda ousar, verá lágrimas', e então se pôs ás quatro patas galopando tão lindamente pelo caminho que hei de seguir.
Encontro uma bifurcação, que sempre soube que apareceria em algum lugar, ouvia uma lenda antes que dizia que as crianças nasciam nas bifurcações e que os pais eram o vento e a tristeza. Acima de mim percebo uma estrela que existiu há uns bilhões de anos atrás e que hoje é somente a luz da sua memória. Essa estrela ainda existe. Enquanto ando, percebo que não sei pra onde estou indo ou como cheguei até ali, sinto uma força constante e caótica me puxando para um lado e para o outro. As pedras riem. Eu me abaixo e as tateio, tateio toda sua solidez inanimada, então uma pequena pedra protesta -'tudo no cosmo tem vida'. Eu sento ali e me pergunto, e pergunto também ás pedras, que agora tem vida -'o que eu quero?' -'você quer o fim do caminho' -'e o que há lá?' -'lá há você' -'e o outro?' -'o outro não há, não há nunca, sobre o outro você anda' -'mas eu estou aqui' -'não está, nós te tateamos e sentimos a solidez inanimada do seu eu, você está longe como qualquer pessoa que passa por aqui' -'quanto ainda devo andar?' -'você deve apenas andar'. As pedras então se enterram na terra molhada e uma única, a mais rudimentar de todas sussurra -'uma hora você pensará ter amado, sem nunca saber que há uns tantos milhares de fetos no útero dessa palavra e que todos são monstros dentro dos quais você assoprou vida. Você corrompeu, e estuprou. Seus filhos nascerão sem olhos'.
Andei, e ainda sentia essa força que move todas as particulas, aleatoriamente em alguma direção.
Já eram dez passos dados quando a primeira flor gigante rasgou o chão e prostrou-se no caminho. 'onde vai agora não tem destino, não tem resposta' no que respondi 'não sei' no que retrucou 'está dito' e então voltou para o fundo da terra. Algumas pétalas da flor maldita entraram nos meus olhos e o seu perfume era o dos defuntos que levaram consigo mais vida do que já vivi. Alguns outros passos e vem o gavião sorrateiro, gigante do tamanho de um navio naufragado - 'eu sei muitas coisas, aprendi com homens que sabiam muitas coisas dentre as quais nada sabem' onde perguntei -'de onde você vem há algum lugar que se queira ir?' -' há ainda esse lugar, ele dorme' -'e suas asas?' -'não enxugam meus olhos'.
Na terra verde, havia casas adiante, havia pessoas nas portas das casas, havia uma casa em particular, tão parecida com a casa da minha infância, que desapareceu numa bela manhã e a qual procuro para sempre 'é esta casa, a casa de todas as manhãs' Sai uma senhora de 400 anos e sua irmã de 400 anos -'Esta casa é a casa da noite eterna, foi onde matei meu corpo e ele se regenerou em segundos' -'que ainda faz viva?' -'vingança' -'este solo é infértil' - 'todos são, no entanto o fruto que alimenta a mim e aos outros homens é o fruto do nada e do óbvio' e a voz ressonante de sua irmã completa 'há algo no nada e no não nascido que sacia uma fome aguda que um dia começamos a sentir, meu estomago apertou tanto que olhei pelo campo e no lugar do nada vi uma parede e dentro dessa parede mil bacias que dois anos antes eram apenas ostras, e então pérola alguma, a pérola estava atrás da parede que por acaso não estava ali' a primeira prosseguiu -'apontei para o céu e não soube se estava apontando para a cor ou para a forma, ou para a palavra ou para mim mesma, eu descrevo coisas com o intuito de explicá-las e então eu as compreendo, na sua total incompreensão, e vejo que não apontei nunca para algo mas todo o algo,as formas, as cores, as texturas, as estranhezas e as ambiguidades, se apontava para o meu dedo', me convidaram então para entrar e tomar um chá -'não posso há tanto caminho' -'há sim' e trouxeram o chá. Enquanto segurava a xícara, me olhavam com o olhar fixo, num momento tão breve percebi que estavam mortas, que nunca estiveram vivas -'nunca', disseram em uníssono. O chá, que chá ruim, não tinha gosto de chá, tinha gosto de lombadas, eu tentei me lembrar do gosto de chá e ele morreu, o gosto, comigo há uns tempos atrás. -'este é o tempo de novos chás!'. Essas senhoras sabem tudo, eu penso, elas veem as minhas palavras não ditas se formarem em meus olhos e eu me pergunto se elas movimentam minhas púpilas ou se minhas púpilas as guiam. Minha mãe disse algo sobre um homem que podia ler pupilas em cada minimo movimento delas, que havia uma palavra dada para cada estado e posição da pupila, mesmo que nada significasse a palavra. Uma das senhoras me contou, com voz de uma doce menina' estamos aqui do seu lado pois precisamos de você aqui, nos sentimos solitárias, em duas, e nos sentiríamos também em três, por isto vamos reparti-lo em dois, para que cada metade possa nos mostrar o infinito', a outra continou -'você parece a gente quando jovem e talvez além disso, a gente quando imortais'. Eu senti medo e ela soube, através das minhas pupilas -'esse medo não é o maior dos medos, entretanto todos os medos são os maiores medos' -'se eu vivesse até os 400 anos meu maior medo não seria maior que o meu medo primeiro ainda assim, me sentiria sem ar'. Não há ar. Fui embora.
Atrás de mim, bem atrás, ouvi o estrondo que era o da flor que rompe o chão, lembrei das suas pétalas, que arderam meus olhos antes e que agora eram eles próprios e continuei. Um cavalo de carga veio até mim apoiado em suas patas traseiras, lentamente, e me propôs -'se você olhar bem um homem', respirou tão fundo quanto pôde -'se olhar bem para um homem, verá cada átomo seu, e após isso cada particula que os compõe' respirou -'e se for da sua vontade olhar ainda mais, verá mãos, e pernas, e também uma estrada, se continuar, verá seus olhos e, se ainda ousar, verá lágrimas', e então se pôs ás quatro patas galopando tão lindamente pelo caminho que hei de seguir.
Encontro uma bifurcação, que sempre soube que apareceria em algum lugar, ouvia uma lenda antes que dizia que as crianças nasciam nas bifurcações e que os pais eram o vento e a tristeza. Acima de mim percebo uma estrela que existiu há uns bilhões de anos atrás e que hoje é somente a luz da sua memória. Essa estrela ainda existe. Enquanto ando, percebo que não sei pra onde estou indo ou como cheguei até ali, sinto uma força constante e caótica me puxando para um lado e para o outro. As pedras riem. Eu me abaixo e as tateio, tateio toda sua solidez inanimada, então uma pequena pedra protesta -'tudo no cosmo tem vida'. Eu sento ali e me pergunto, e pergunto também ás pedras, que agora tem vida -'o que eu quero?' -'você quer o fim do caminho' -'e o que há lá?' -'lá há você' -'e o outro?' -'o outro não há, não há nunca, sobre o outro você anda' -'mas eu estou aqui' -'não está, nós te tateamos e sentimos a solidez inanimada do seu eu, você está longe como qualquer pessoa que passa por aqui' -'quanto ainda devo andar?' -'você deve apenas andar'. As pedras então se enterram na terra molhada e uma única, a mais rudimentar de todas sussurra -'uma hora você pensará ter amado, sem nunca saber que há uns tantos milhares de fetos no útero dessa palavra e que todos são monstros dentro dos quais você assoprou vida. Você corrompeu, e estuprou. Seus filhos nascerão sem olhos'.
Andei, e ainda sentia essa força que move todas as particulas, aleatoriamente em alguma direção.
domingo, 3 de junho de 2012
passarinho
um animal desconhecido veio de longe, devorou uma criança que passeava, levou a criança no seu estomago e regurgitou suas mãos sobre a poça, que boiaram até o mar e de lá balançaram. Um peixe arisco as mastigou e morreu em seguida. No sul do país uma mulher que enlouqueceu disse ter visto um olho no meio do sol. Um muro velho caiu sobre uma senhora igualmente velha, um cachorro dormiu sob um pneu, uma mãe viu partes de seu filho dentro de uma sacola de cebolas, uma esposa descobriu que era solteira, um antigo amigo voltou de longe, uma mariposa assustou o bebê, dois aviões se colidiram no céu, a porta de uma casa emperrou, dois braços que remavam foram amputados, uma linda garota percebeu uma linda coisa, todas as lagrimas do mundo viraram ponta de lápis, a luz que era amarela se apagou, um homem engoliu um cacto, um senhor disse sentir coisas que não podiam ser provadas, uma mulher encontrou a verdadeira felicidade e a perdeu logo em seguida, um gavião comeu uma cobra de vinte e três metros, um pai disse a enteada que iria passar, uma boca sempre muda disse algo no dia da sua morte, as dálias se tornaram touros sem que ninguém visse, uma estrela brilhou intensamente até explodir, cinco homens se sentaram e sorriram sem razão, uma familiar que morava longe disse que sentia saudades, dois amantes que nunca se viram nunca se verão, uma pedra foi jogada na água e pulou pra sempre, um homem contou todos os números e encontrou o último, em seguida morreu, um outro homem então começou novamente.
A vó contou
Era um homem mas acima de tudo era uma mulher mas acima de tudo era um filho mas acima de tudo era solitário mas acima de tudo era feliz mas acima de tudo faltava algo mas acima de tudo faltava pouco mas acima de tudo as vezes chorava mas acima de tudo não enxergava mas acima de tudo percebia mas acima de tudo havia algo mais mas acima de tudo não havia nada a ser feito mas acima de tudo correu quão rápido pode mas acima de tudo nunca saiu do lugar mas acima de tudo gritou mas acima de tudo esteve sempre calado mas acima de tudo quis mas acima de tudo somente desejava mas acima de tudo amou mas acima de tudo era indiferente mas acima de tudo não entendia mas acima de tudo não tentava entender mas acima de tudo sentou-se numa poltrona mas acima de tudo havia a sede mas acima de tudo o desespero mas acima de tudo o corpo mas acima de tudo girava mas acima de tudo poderia acontecer mas acima de tudo acabava mas acima de tudo existia mas acima de tudo nada mas acima de tudo não importa mas acima de tudo tudo acima de tudo nada importa acima de tudo silencio
quinta-feira, 31 de maio de 2012
casa
Seguro suas mãos, que são de vento e se dissipam. Aperto seus ombros e sinto todos os ossos dos meus dedos. Olho dentro dos seus olhos, que olham para o sol. A luz do sol reflete nos seus olhos que passam de castanho para laranja depois verde depois castanho. Sinto seu cheiro, não de hoje, de ontem, é o cheiro das coisas que existem só na memória, não há no mundo lugar onde se possa sentir tal cheiro. Seus pés são grandes e leves, não foram feitos para caminhar, você flutua para longe.
Estou deitado, na minha mente já dormi mas a voz diz que ainda é real. Estou no mais escuro do meu quarto. Estou no mais profundo da cama, que é de lama. Estou mais próximo de você. A janela se abre, um anel de luz azulada atravessa o quarto e desaparece, mas o ilumina por três dias. Vou até a janela, a tempestade passa assoprando, eu digo olá. Olho para um ponto bem distante do horizonte onde as folhas das árvores se fundem com o negro da madrugada do céu. Lá é minha casa mas eu apenas sei. Venta forte, é você que ainda não se foi. Quando fecho os olhos e procuro por mim, uma porta se abre. Atrás dessa porta há um corredor coberto com plantas e atrás dessas plantas uma pequena janela. Dela vejo cada passo seu em direção a bem longe. Vejo também a mim mesmo, não completo mas em partes. Meus braços estão em todos os muros da cidade, minha cabeça está dentro do peito de um cavalo morto no lago. Meus pés são a samambaia. Minha língua é um peixe abissal. Meus cabelos formam moléculas num lugar aonde não posso chegar. Meus olhos são a cama de prego em que deito. Me concentro por algum tempo, que é pouco mas parece muito. Minha testa se parte ao meio e dela sai um pedaço de carne, como a barriga de um homem mas com uma boca no meio. Desta boca sai um som débil e incessante. Levo-a comigo por entre as árvores e a enterro. Nos dias seguintes, o dia ainda é o mesmo. Pessoas se reúnem em volta do meu quarto que nunca toca o chão. Eu sinto medo e indico um caminho. Aponto para o bosque. Lá desenterram a boca inquieta e levam para suas cozinhas. Depois de lavá-la, a cozem e preparam uma sopa. Todos são convidados pra comer num banquete sob uma forte chuva, que enche todos os copos. Comem por muito tempo e arrotam em quase perfeita sintonia, juntos, durante várias horas.
sábado, 26 de maio de 2012
poema das coisas
na cidade tinha um rio que transbordava toda noite e desaparecia toda manhã
na nuvem tem um rosto que sorri e se desfaz
na pedra morava uma velha que não viveu um único dia
na cabana tinha uma mesa com comida quente o tempo todo
a árvore balança porque quer fugir
a escada tem fim pra que o homem possa subir de novo
a luz iluminou o quarto pra escuridão ser percebida
o peito dói porque é deformado
o pé bate no chão pra que o chão caminhe
a mulher fala duas vezes pra dizer uma terceira
na casa tem janelas pra você sair lá fora
sábado, 12 de maio de 2012
na casa em que moro, um quadrado, acordei, meio morto meio vivo. Na noite passada não me lembro de ter ido dormir, mas lembro da confusão. Lembro de uma pergunta que alguém fez, alguém que não estava lá antes. Lembro de não ter podido respondê-la e lembro da vergonha. Tinha essa árvore na janela da casa em que moro, e por ela entrava uma luz laranja que é a luz da noite, entrava também os estranhos e na noite passada entrou um.
Entrou o estranho e desapareceu no espelho. Eu vi este rosto, então não me recordo se depois dormi, se corri pelas ruas, se ri, se disse coisas que não eram as que eu sentia, se disse verdades que desconhecia, se falei sobre coisas que não sei.
Agora já é amanhã, e eu acordo, ou durmo. Tem esses olhos que são os meus e tem esses outros que vejo quando os abro. Acima de mim flutuando, me encaram, sem piscar. Percebo que na verdade não olham pra mim, mas pra minha direção. São olhos que infiltram no mais profundo nada. Eu os chamo, em silêncio, mas eles apenas observam. O olhar é constante e parece me penetrar mas o sinto saindo pelo outro lado. Os olhos não olham pra mim. Eu olho pro lado. Me vejo acordando. Me vejo olhando. Levanto e encosto. A casa em que moro se tornou menor e não consigo ficar de pé. O outro de mim que vejo vê outro de mim sentado no chão, entre o sonho e a vigília, mas sempre cantando. Nós todos sentimos algo rasgando a garganta porque todos gritam. Os olhos apenas olham, pra cada um de nós três e nenhum de nós três. Os olhos são o céu, distante, belo e intocável. Pra sempre aqui, mas só daqui. Minhas mãos se estendem e assim ficam. O outro de mim estende as suas também. O terceiro de mim apenas deixa ser. Os olhos percorrem todo o cubículo que agora tem metade do meu tamanho. Me levanto e vou até o espelho. Um quarto de mim surge e me recrimina, deixo ele no espelho pra sempre trancafiado. Vou até a janela, o terceiro de mim pula mas não cai jamais, paira no ar eternamente. Os olhos olham e um riso é ouvido por todas as partes, de lugar nenhum. O segundo de mim ri também, sem achar graça. Eu paro por um instante e o observo, imóvel. Ele percebe e me olha também constrangido e surpreso. Depois sente medo. Sente medo e desvia os olhos para o espelho. Olho para o espelho e seis olhos me olham de volta, além dos olhos. Ouço uma palavra 'luta', de lugar nenhum. Não faz eco e morre envergonhada. O segundo de mim chora em silêncio. Eu o odeio. Eu o chuto e ele chora. Ele chora e eu o arranho e grito. Eu o empurro. Ele tem as mãos nos olhos e não as tira. Eu puxo suas mãos. Ele não tem mais olhos. Lágrimas transbordam do buraco em seu rosto. Eu o mando parar. Eu o odeio. Eu quero matá-lo. Mas ele não tem olhos. A casa que moro está encharcada e cada vez menor. A água não para de escorrer e chega aos meus joelhos. O quarto de mim que ri no espelho, amaldiçoa no espelho. Eu o olho. Ele me percebe. Ele diz 'já me afoguei antes', eu pergunto como foi, no que ele responde 'foi assim'. E nada acontece. Os olhos sorriem. Os olhos já estiveram por toda a parte e tudo o que busco os olhos já viram outros buscarem. Os olhos conhecem mas nunca contam. O quarto de mim pede para me aproximar. Eu tenho medo. Um medo horrível. Um medo que não se pode ter na casa onde se mora. Mas vou. Me aproximo do espelho e de repente não sei qual de nós é o reflexo pois ambos nos mexemos de maneira distinta e dançamos nossa própria canção. Percorro os olhos pelo espelho - embora não saiba de que lado estou - e vejo o segundo de mim, com a mesma fenda no rosto, mas tranquilo. Vejo um quinto de mim que talvez seja o primeiro deitado onde antes eu estava, olhando para cima, encarando o nada. O segundo de mim olha para o quinto de mim através do espelho, onde eu posso estar. Um acorda, o outro dorme. E vice-versa. Eu toco minhas mãos no espelho, que é uma janela. Eu pulo. Jamais caio, mas caio pra sempre. Sobre mim vejo de novo, os olhos. Os olhos acima e abaixo, os olhos dos lados. Os olhos nos meus sapatos. Os olhos num sapo. Os olhos um guarda-chuva. Os olhos dia de sol. Eu acho que amo os olhos, que nunca olham pra mim, mas sempre em minha direção. Enquanto caio vejo os outros de mim pulando também. Alguns voam. mas eu não sinto as asas. Nem o chão. Os olhos me afligem. Eu quero que me veja. Eu quero que me vejam. Que me restaurem a ordem das coisas apenas ao me fitar. Os olhos continuam imóveis e penetrantes. Colapsados em si mesmos, que é de onde eu ouço o riso, que na verdade é parte de uma música que tocou desde o início, quando acordei ou dormi. Eu pergunto aos olhos 'o que você vê?', mas ninguém responde.
Entrou o estranho e desapareceu no espelho. Eu vi este rosto, então não me recordo se depois dormi, se corri pelas ruas, se ri, se disse coisas que não eram as que eu sentia, se disse verdades que desconhecia, se falei sobre coisas que não sei.
Agora já é amanhã, e eu acordo, ou durmo. Tem esses olhos que são os meus e tem esses outros que vejo quando os abro. Acima de mim flutuando, me encaram, sem piscar. Percebo que na verdade não olham pra mim, mas pra minha direção. São olhos que infiltram no mais profundo nada. Eu os chamo, em silêncio, mas eles apenas observam. O olhar é constante e parece me penetrar mas o sinto saindo pelo outro lado. Os olhos não olham pra mim. Eu olho pro lado. Me vejo acordando. Me vejo olhando. Levanto e encosto. A casa em que moro se tornou menor e não consigo ficar de pé. O outro de mim que vejo vê outro de mim sentado no chão, entre o sonho e a vigília, mas sempre cantando. Nós todos sentimos algo rasgando a garganta porque todos gritam. Os olhos apenas olham, pra cada um de nós três e nenhum de nós três. Os olhos são o céu, distante, belo e intocável. Pra sempre aqui, mas só daqui. Minhas mãos se estendem e assim ficam. O outro de mim estende as suas também. O terceiro de mim apenas deixa ser. Os olhos percorrem todo o cubículo que agora tem metade do meu tamanho. Me levanto e vou até o espelho. Um quarto de mim surge e me recrimina, deixo ele no espelho pra sempre trancafiado. Vou até a janela, o terceiro de mim pula mas não cai jamais, paira no ar eternamente. Os olhos olham e um riso é ouvido por todas as partes, de lugar nenhum. O segundo de mim ri também, sem achar graça. Eu paro por um instante e o observo, imóvel. Ele percebe e me olha também constrangido e surpreso. Depois sente medo. Sente medo e desvia os olhos para o espelho. Olho para o espelho e seis olhos me olham de volta, além dos olhos. Ouço uma palavra 'luta', de lugar nenhum. Não faz eco e morre envergonhada. O segundo de mim chora em silêncio. Eu o odeio. Eu o chuto e ele chora. Ele chora e eu o arranho e grito. Eu o empurro. Ele tem as mãos nos olhos e não as tira. Eu puxo suas mãos. Ele não tem mais olhos. Lágrimas transbordam do buraco em seu rosto. Eu o mando parar. Eu o odeio. Eu quero matá-lo. Mas ele não tem olhos. A casa que moro está encharcada e cada vez menor. A água não para de escorrer e chega aos meus joelhos. O quarto de mim que ri no espelho, amaldiçoa no espelho. Eu o olho. Ele me percebe. Ele diz 'já me afoguei antes', eu pergunto como foi, no que ele responde 'foi assim'. E nada acontece. Os olhos sorriem. Os olhos já estiveram por toda a parte e tudo o que busco os olhos já viram outros buscarem. Os olhos conhecem mas nunca contam. O quarto de mim pede para me aproximar. Eu tenho medo. Um medo horrível. Um medo que não se pode ter na casa onde se mora. Mas vou. Me aproximo do espelho e de repente não sei qual de nós é o reflexo pois ambos nos mexemos de maneira distinta e dançamos nossa própria canção. Percorro os olhos pelo espelho - embora não saiba de que lado estou - e vejo o segundo de mim, com a mesma fenda no rosto, mas tranquilo. Vejo um quinto de mim que talvez seja o primeiro deitado onde antes eu estava, olhando para cima, encarando o nada. O segundo de mim olha para o quinto de mim através do espelho, onde eu posso estar. Um acorda, o outro dorme. E vice-versa. Eu toco minhas mãos no espelho, que é uma janela. Eu pulo. Jamais caio, mas caio pra sempre. Sobre mim vejo de novo, os olhos. Os olhos acima e abaixo, os olhos dos lados. Os olhos nos meus sapatos. Os olhos num sapo. Os olhos um guarda-chuva. Os olhos dia de sol. Eu acho que amo os olhos, que nunca olham pra mim, mas sempre em minha direção. Enquanto caio vejo os outros de mim pulando também. Alguns voam. mas eu não sinto as asas. Nem o chão. Os olhos me afligem. Eu quero que me veja. Eu quero que me vejam. Que me restaurem a ordem das coisas apenas ao me fitar. Os olhos continuam imóveis e penetrantes. Colapsados em si mesmos, que é de onde eu ouço o riso, que na verdade é parte de uma música que tocou desde o início, quando acordei ou dormi. Eu pergunto aos olhos 'o que você vê?', mas ninguém responde.
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