na casa em que moro, um quadrado, acordei, meio morto meio vivo. Na noite passada não me lembro de ter ido dormir, mas lembro da confusão. Lembro de uma pergunta que alguém fez, alguém que não estava lá antes. Lembro de não ter podido respondê-la e lembro da vergonha. Tinha essa árvore na janela da casa em que moro, e por ela entrava uma luz laranja que é a luz da noite, entrava também os estranhos e na noite passada entrou um.
Entrou o estranho e desapareceu no espelho. Eu vi este rosto, então não me recordo se depois dormi, se corri pelas ruas, se ri, se disse coisas que não eram as que eu sentia, se disse verdades que desconhecia, se falei sobre coisas que não sei.
Agora já é amanhã, e eu acordo, ou durmo. Tem esses olhos que são os meus e tem esses outros que vejo quando os abro. Acima de mim flutuando, me encaram, sem piscar. Percebo que na verdade não olham pra mim, mas pra minha direção. São olhos que infiltram no mais profundo nada. Eu os chamo, em silêncio, mas eles apenas observam. O olhar é constante e parece me penetrar mas o sinto saindo pelo outro lado. Os olhos não olham pra mim. Eu olho pro lado. Me vejo acordando. Me vejo olhando. Levanto e encosto. A casa em que moro se tornou menor e não consigo ficar de pé. O outro de mim que vejo vê outro de mim sentado no chão, entre o sonho e a vigília, mas sempre cantando. Nós todos sentimos algo rasgando a garganta porque todos gritam. Os olhos apenas olham, pra cada um de nós três e nenhum de nós três. Os olhos são o céu, distante, belo e intocável. Pra sempre aqui, mas só daqui. Minhas mãos se estendem e assim ficam. O outro de mim estende as suas também. O terceiro de mim apenas deixa ser. Os olhos percorrem todo o cubículo que agora tem metade do meu tamanho. Me levanto e vou até o espelho. Um quarto de mim surge e me recrimina, deixo ele no espelho pra sempre trancafiado. Vou até a janela, o terceiro de mim pula mas não cai jamais, paira no ar eternamente. Os olhos olham e um riso é ouvido por todas as partes, de lugar nenhum. O segundo de mim ri também, sem achar graça. Eu paro por um instante e o observo, imóvel. Ele percebe e me olha também constrangido e surpreso. Depois sente medo. Sente medo e desvia os olhos para o espelho. Olho para o espelho e seis olhos me olham de volta, além dos olhos. Ouço uma palavra 'luta', de lugar nenhum. Não faz eco e morre envergonhada. O segundo de mim chora em silêncio. Eu o odeio. Eu o chuto e ele chora. Ele chora e eu o arranho e grito. Eu o empurro. Ele tem as mãos nos olhos e não as tira. Eu puxo suas mãos. Ele não tem mais olhos. Lágrimas transbordam do buraco em seu rosto. Eu o mando parar. Eu o odeio. Eu quero matá-lo. Mas ele não tem olhos. A casa que moro está encharcada e cada vez menor. A água não para de escorrer e chega aos meus joelhos. O quarto de mim que ri no espelho, amaldiçoa no espelho. Eu o olho. Ele me percebe. Ele diz 'já me afoguei antes', eu pergunto como foi, no que ele responde 'foi assim'. E nada acontece. Os olhos sorriem. Os olhos já estiveram por toda a parte e tudo o que busco os olhos já viram outros buscarem. Os olhos conhecem mas nunca contam. O quarto de mim pede para me aproximar. Eu tenho medo. Um medo horrível. Um medo que não se pode ter na casa onde se mora. Mas vou. Me aproximo do espelho e de repente não sei qual de nós é o reflexo pois ambos nos mexemos de maneira distinta e dançamos nossa própria canção. Percorro os olhos pelo espelho - embora não saiba de que lado estou - e vejo o segundo de mim, com a mesma fenda no rosto, mas tranquilo. Vejo um quinto de mim que talvez seja o primeiro deitado onde antes eu estava, olhando para cima, encarando o nada. O segundo de mim olha para o quinto de mim através do espelho, onde eu posso estar. Um acorda, o outro dorme. E vice-versa. Eu toco minhas mãos no espelho, que é uma janela. Eu pulo. Jamais caio, mas caio pra sempre. Sobre mim vejo de novo, os olhos. Os olhos acima e abaixo, os olhos dos lados. Os olhos nos meus sapatos. Os olhos num sapo. Os olhos um guarda-chuva. Os olhos dia de sol. Eu acho que amo os olhos, que nunca olham pra mim, mas sempre em minha direção. Enquanto caio vejo os outros de mim pulando também. Alguns voam. mas eu não sinto as asas. Nem o chão. Os olhos me afligem. Eu quero que me veja. Eu quero que me vejam. Que me restaurem a ordem das coisas apenas ao me fitar. Os olhos continuam imóveis e penetrantes. Colapsados em si mesmos, que é de onde eu ouço o riso, que na verdade é parte de uma música que tocou desde o início, quando acordei ou dormi. Eu pergunto aos olhos 'o que você vê?', mas ninguém responde.