sábado, 5 de maio de 2012

um

em três lugares distintos eu agonizo, no quarto eu morro. Depois, retorno e me vingo do crime com raiva e lamentação. Num dia comum eu nasci. Olhei minhas mãos e faltavam dedos, não pude pegar o martelo, nem a tesoura para cortar o cordão umbilical. Minha mãe morreu no meu parto e posteriormente no parto dos meus irmãos, que ainda não nasceram e que nascerão mortos. Hoje caminha velha apesar de tão nova, na flor dos seus cinquenta anos desabrochou três séculos que parecem três meses se você olhar cinquenta anos depois. Olho no espelho. No lugar dos meus olhos há um outro espelho que reflete a mãe. A mãe é um bebê carregando um outro bebê que morreu antes de existir. Olho nos olhos do bebê onde também há um espelho que não reflete nada. No nada há uma compilação de pequenas coisas que se amontoam e formam algo, mas estão cansadas e perdidas. A mãe diz com voz de anjo 'haverá de ser'. A mãe da mãe a abraça. Ninguém abraça o filho, exceto os braços. Uma outra voz inquietante e que já não diz nada ainda fala sobre amanhã. A mãe alimenta o filho. O filho sente fome.

Dois
Chega de noite uma senhora. No seu rosto todos os lugares por onde passou e por onde evitou passar. Ela chama por mim, sem falar meu nome. Eu a atendo. Ela diz sobre os cactos. Você quis dizer ratos? Eu quis dizer oceanos. Eu entendo poeira sobre o copo. Ela me fita. Eu sorrio timido, quando alguém me fita assim eu não sei pra onde olhar então olho pra tudo o que está ao meu redor. Ela me fita por horas. Não há mais nada pra se olhar ao redor. Olho pra mim mesmo. A senhora estava lá me esperando. Ela me mostra um dos lugares pra onde foi. Reconheço a placenta, o berço e a fome. Ela me manda prosseguir.

Três
Encontro essa fruta que não tem gosto de nada. Cuido pra não comê-la de novo, mas não vejo outras frutas pelo caminho. Um cachorro sentado numa pedra distante diz que é melhor entrar nas cavernas, 'mas isto é uma caverna' digo, ele diz 'sim mas e então?'. Bato meu pé com força no solo que racha e abre um buraco. Caio e toco o chão novamente com outro cachorro sentado numa pedra distante que diz também sobre a caverna, fazendo com que eu bata o pé de novo e caia. E toco o chão. E nele bato. E nele toco. E nele bato.

Quatro e último
Sobe nas montanhas uma figura estranha, colorida e brilhante, que emite um som harmonioso e remete a coisas que eu sei que são minhas mas que nunca conheci. Lá atrás caminha minha mãe, com suas pernas esmagadas, com sua mãe no colo e seus filhos no ventre. Eu tento entender porque estou ali e sinto o liquido amniotico na minha boca, que me afoga. A figura se torna opaca e distante e a montanha desaba. A mãe ri. Eu vejo a mãe na montanha, numa outra montanha da qual hoje se ouve apenas o eco da sua destruição. Olho pra cima e vejo outras montanhas formadas de outras substancias, montanhas que não tem fim, nem começo. Vejo outras mães flutuando sobre elas. E mães que flutuam sobre seus destroços. E mães que carregam suas montanhas no bolso. E seus filhos no bolso. E mães que nunca tiveram mãe. Olho pro oceano de novo, penso 'ele mata'. E penso 'ele leva'. E penso no útero e olho pra mãe. Eu tento dar minhas mãos mas nelas faltam dedos e os poucos dedos que restam dançam uma dança sombria que é a dança da minha vida. Digo 'desculpa' e deixo a mãe morrer. O corpo se decompõe instantaneamente e se junta ao solo. Seus fluídos correm até o oceano e formam embriões. E do oceano nascem meus irmãos. Nasce também minha mãe, mas eu espero um pouco ainda.