Antípodas
Era um homem parece. Tinha uma casa, tão horrível, a casa assumia, de noite, a forma de coisas e como coisas, sussurrava, exalava um cheiro estranho nos dias ruins para que eles ficassem piores e fazia se mover sombras pela parede mimetizando o demônio da perna marrom. Tinha um espelho nessa casa e tinha o ar, que subia pela nuca, gélido. O demônio começou a aparecer com frequência, primeiro no canto dos olhos. Depois fazia zumbido nos ouvidos e ás vezes fazia a pessoa querer bater a cabeça na parede. Uma certa vez, bem de noite, na hora que se mistura a tinta das coisas posteriores, o demônio lhe apertou tão forte o peito que o ar faltou. Demorou cinco dias pra que voltasse o ar, mas o medo ficou. A falta é sentida, alguns meses, anos, quilômetros ou gramas depois.
Sim parece mais um homem olhando agora, se você vir-lo de costas, parecerá um homem sério. Ele não tem cama então dorme no chão. O chão lhe recompensa amaciando seu cabelo durante a noite. Quando acorda anda descalço. Do alto do teto, um buraco, no centro desse buraco dá pra ver alguém olhando, bem de longe. Tudo está olhando. Tudo está feliz.
Uma carta é deixada debaixo da porta. Ele pega. É de um parente, um parente próximo, que lhe incluiu no testamento e lhe deixou um bosque, no cume. Foi um dos beneficiários. A outra foi uma criança, a qual se apoderou de um lindo berço de bronze.
Ele veste roupas escuras porque as claras não parecem mais roupas, parecem a nudez. Ele penteia o cabelo pro lado direito porque pro esquerdo parece que alguém vai morrer ou que a estrada vai rachar. Ele subiu o cume, tinha mesmo um bosque. Três pessoas estavam lá, advertiram-lhe o atraso -'Você está atrasado', disseram, e desabotoaram sua camisa e então sua calça e o deixaram completamente nu como se estivesse vestindo roupas claras, e lhe bagunçaram o cabelo pra esquerda como se a morte o esperasse. E então se poram a lamber-lhe todo para encontrar o ponto de ruptura. O ponto de ruptura era na ponta da sua coisa, e a sua coisa ficava cada vez maior e molhada, conforme ele se rompia. Três bocas esfomeadas a engoliram de vez até que ele gozasse nas magnólias e na terra. Ao terminarem,, amarraram-lhe as mãos num cipó e botaram fogo no seu cabelo. Ele sorriu.
A árvore
Era bem de noite. O homem parecia menos homem de noite, sobretudo enquanto apoiava a cabeça nas mãos e batia o pé sem parar. O demônio sorriu, o espelho quem disse. Ouviu-se passos, bem de longe, bem vagarosos, mas ruidosos, passos através da porta, detrás da porta, acima do quintal, em cima, no cume. Ele destrancou a porta girando a chave quatro vezes e esperou ali, rijo, olhando pra cima. Um pequeno ponto branco começou a ganhar forma, os sons dos passos ficaram mais altos. Via-se já umas mãos e um andar vacilante. E então uma cabeça, e uns olhos. Olhos pequenos. Era uma criança.
-de onde veio?
-do bosque, do fundo da terra.
-quem te mandou aqui?
-a árvore minha mãe e a raposa faminta, minha irmã.
-o que quer de mim.
-eu quero te olhar por bastante tempo.
-ora, volta lá pra cima que aqui não tem nada, a comida é pouca e o cobertor só tem um, como a cadeira e o copo.
-eu me alimento de planta e durmo no teto.
-aqui não é lugar de estar.
(que tipo de frase é essa??)
A criança entrou, era careca, suja de terra e de folhas. O homem ligou a água e encheu a bacia, desnudou a criança e a enfiou toda lá dentro. Enquanto dava o banho viu o demônio escalando as paredes, como uma lagartixa. O menino começou a gritar. 'Mata!!!'. Essa criança não tira os olhos do homem, ás vezes vira a cabeça totalmente e seus olhos entram como que para espiar através de seu crânio. Quando está dormindo, o faz de olho aberto. Quando o homem a põe deitada, levanta e dorme no pé da sua cama.
Os dias sucediam, e o homem sentia nervoso pois já estava no fim o pão. A criança lhe olhou com tanto afinco que ele sentiu culpa, uma culpa horrível.
Uma vez era uma estranha vez, parecia que o mundo ia acabar e tinha cheiro de jasmim as coisas. O homem sentiu um ar quente subindo da sua barriga, martelando o seu peito até chegar no pescoço. Ele acreditava que era ali que as pessoas existiam, sua consciência e os seus desejos. Ele desnudou a criança para um outro banho. A criança não parava de olhá-lo, ele não parava de olhar a criança. Passou-lhe o sabão nas costas, na nuca, esfregou bem a sua cabeça redonda, com pequenos fios brancos de cabelo e então a sua coxa, esfregou-lhe o pequeno pênis que parecia tanto o seu, esfregou-lhe até que crescesse e coubesse na sua boca. A criança olhava. O demônio olhava. A árvore e a terra olhavam. O pescoço estava vermelho. A criança gemeu, o homem também. Largou a criança, tirou as suas roupas e correu nu pela mata. Deitou-se no chão e apertou toda sua ereção contra a terra. Uma vez mais. A terra lhe envolveu todo, lhe massageou o pescoço. As trepadeiras se enrolaram no seu corpo e ele então, fora de seu pescoço, fecundou a terra. Uma vez mais.
Duas noites se passaram e ele permanecia deitado, sentindo o orgasmo do mundo. Após um certo tempo, desnorteado, se levantou e voltou para casa. Enforcada na porta, a criança. Foi o diabo. Lá mesmo ficou, esperando que uma outra descesse do bosque numa noite qualquer.