domingo, 26 de agosto de 2012

sonhos na casa pequena

uma vez eu sonhei, um sonho que sempre me lembro, de estar num lugar úmido, um lugar não muito bem definido, que se tornava outros lugares, mas os olhos enxergavam a mesma coisa sempre. As pessoas não paravam de falar, elas falavam tudo, sobre tudo, o tempo todo. Elas falavam sobre a conta vencida, sobre as sempre-verdes, sobre não dever fazer isso, sobre sobre, tudo misturado, as frases não respeitavam nenhuma estrutura sintática, as palavras não diziam nada, mas elas falavam, o tempo todo. Em seguida mudou. Eu vou contar uma história que não tem nenhum espaço onde possa se alojar exatamente, por isso entra em alguns cantos.

Antípodas

Era um homem parece. Tinha uma casa, tão horrível, a casa assumia, de noite, a forma de coisas e como coisas, sussurrava, exalava um cheiro estranho nos dias ruins para que eles ficassem piores e fazia se mover sombras pela parede mimetizando o demônio da perna marrom. Tinha um espelho nessa casa e tinha o ar, que subia pela nuca, gélido. O demônio começou a aparecer com frequência, primeiro no canto dos olhos. Depois fazia zumbido nos ouvidos e ás vezes fazia a pessoa querer bater a cabeça na parede. Uma certa vez, bem de noite, na hora que se mistura a tinta das coisas posteriores, o demônio lhe apertou tão forte o peito que o ar faltou. Demorou cinco dias pra que voltasse o ar, mas o medo ficou. A falta é sentida, alguns meses, anos, quilômetros ou gramas depois. 
Sim parece mais um homem olhando agora, se você vir-lo de costas, parecerá um homem sério. Ele não tem cama então dorme no chão. O chão lhe recompensa amaciando seu cabelo durante a noite. Quando acorda anda descalço. Do alto do teto, um buraco, no centro desse buraco dá pra ver alguém olhando, bem de longe. Tudo está olhando. Tudo está feliz. 
Uma carta é deixada debaixo da porta. Ele pega. É de um parente, um parente próximo, que lhe incluiu no testamento e lhe deixou um bosque, no cume. Foi um dos beneficiários. A outra foi uma criança, a qual se apoderou de um lindo berço de bronze. 
Ele veste roupas escuras porque as claras não parecem mais roupas, parecem a nudez. Ele penteia o cabelo pro lado direito porque pro esquerdo parece que alguém vai morrer ou que a estrada vai rachar. Ele subiu o cume, tinha mesmo um bosque. Três pessoas estavam lá, advertiram-lhe o atraso -'Você está atrasado', disseram, e desabotoaram sua camisa e então sua calça e o deixaram completamente nu como se estivesse vestindo roupas claras, e lhe bagunçaram o cabelo pra esquerda como se a morte o esperasse. E então se poram a lamber-lhe todo para encontrar o ponto de ruptura. O ponto de ruptura era na ponta da sua coisa, e a sua coisa ficava cada vez maior e molhada, conforme ele se rompia. Três bocas esfomeadas a engoliram de vez até que ele gozasse nas magnólias e na terra. Ao terminarem,, amarraram-lhe as mãos num cipó  e botaram fogo no seu cabelo. Ele sorriu.

A árvore

Era bem de noite. O homem parecia menos homem de noite, sobretudo enquanto apoiava a cabeça nas mãos e batia o pé sem parar. O demônio sorriu, o espelho quem disse. Ouviu-se passos, bem de longe, bem vagarosos, mas ruidosos, passos através da porta, detrás da porta, acima do quintal, em cima, no cume. Ele destrancou a porta girando a chave quatro vezes e esperou ali, rijo, olhando pra cima. Um pequeno ponto branco começou a ganhar forma, os sons dos passos ficaram mais altos. Via-se já umas mãos e um andar vacilante. E então uma cabeça, e uns olhos. Olhos pequenos. Era uma criança.
-de onde veio?
-do bosque, do fundo da terra.
-quem te mandou aqui?
-a árvore minha mãe e a raposa faminta, minha irmã.
-o que quer de mim.
-eu quero te olhar por bastante tempo.
-ora, volta lá pra cima que aqui não tem nada, a comida é pouca e o cobertor só tem um, como a cadeira e o copo.
-eu me alimento de planta e durmo no teto.
-aqui não é lugar de estar.
(que tipo de frase é essa??)
A criança entrou, era careca, suja de terra e de folhas. O homem ligou a água e encheu a bacia, desnudou a criança e a enfiou toda lá dentro. Enquanto dava o banho viu o demônio escalando as paredes, como uma lagartixa. O menino começou a gritar. 'Mata!!!'. Essa criança não tira os olhos do homem, ás vezes vira a cabeça totalmente e seus olhos entram como que para espiar através de seu crânio. Quando está dormindo, o faz de olho aberto. Quando o homem a põe deitada, levanta e dorme no pé da sua cama. 
Os dias sucediam, e o homem sentia nervoso pois já estava no fim o pão. A criança lhe olhou com tanto afinco que ele sentiu culpa, uma culpa horrível. 
Uma vez era uma estranha vez, parecia que o mundo ia acabar e tinha cheiro de jasmim as coisas. O homem sentiu um ar quente subindo da sua barriga, martelando o seu peito até chegar no pescoço. Ele acreditava que era ali que as pessoas existiam, sua consciência e os seus desejos. Ele desnudou a criança para um outro banho. A criança não parava de olhá-lo, ele não parava de olhar a criança. Passou-lhe o sabão nas costas, na nuca, esfregou bem a sua cabeça redonda, com pequenos fios brancos de cabelo e então a sua coxa, esfregou-lhe o pequeno pênis que parecia tanto o seu, esfregou-lhe até que crescesse e coubesse na sua boca. A criança olhava. O demônio olhava. A árvore e a terra olhavam. O pescoço estava vermelho. A criança gemeu, o homem também. Largou a criança, tirou as suas roupas e correu nu pela mata. Deitou-se no chão e apertou toda sua ereção contra a terra. Uma vez mais. A terra lhe envolveu todo, lhe massageou o pescoço. As trepadeiras se enrolaram no seu corpo e ele então, fora de seu pescoço, fecundou a terra. Uma vez mais. 
Duas noites se passaram e ele permanecia deitado, sentindo o orgasmo do mundo. Após um certo tempo, desnorteado, se levantou e voltou para casa. Enforcada na porta, a criança. Foi o diabo. Lá mesmo ficou, esperando que uma outra descesse do bosque numa noite qualquer.