quinta-feira, 31 de maio de 2012

casa

Seguro suas mãos, que são de vento e se dissipam. Aperto seus ombros e sinto todos os ossos dos meus dedos. Olho dentro dos seus olhos, que olham para o sol. A luz do sol reflete nos seus olhos que passam de castanho para laranja depois verde depois castanho. Sinto seu cheiro, não de hoje, de ontem, é o cheiro das coisas que existem só na memória, não há no mundo lugar onde se possa sentir tal cheiro. Seus pés são grandes e leves, não foram feitos para caminhar, você flutua para longe.
Estou deitado, na minha mente já dormi mas a voz diz que ainda é real. Estou no mais escuro do meu quarto. Estou no mais profundo da cama, que é de lama. Estou mais próximo de você. A janela se abre, um anel de luz azulada atravessa o quarto e desaparece, mas o ilumina por três dias. Vou até a janela, a tempestade passa assoprando, eu digo olá. Olho para um ponto bem distante do horizonte onde as folhas das árvores se fundem com o negro da madrugada do céu. Lá é minha casa mas eu apenas sei. Venta forte, é você que ainda não se foi. Quando fecho os olhos e procuro por mim, uma porta se abre. Atrás dessa porta há um corredor coberto com plantas e atrás dessas plantas uma pequena janela. Dela vejo cada passo seu em direção a bem longe. Vejo também a mim mesmo, não completo mas em partes. Meus braços estão em todos os muros da cidade, minha cabeça está dentro do peito de um cavalo morto no lago. Meus pés são a samambaia. Minha língua é um peixe abissal. Meus cabelos formam moléculas num lugar aonde não posso chegar. Meus olhos são a cama de prego em que deito. Me concentro por algum tempo, que é pouco mas parece muito. Minha testa se parte ao meio e dela sai um pedaço de carne, como a barriga de um homem mas com uma boca no meio. Desta boca sai um som débil e incessante. Levo-a comigo por entre as árvores e a enterro. Nos dias seguintes, o dia ainda é o mesmo. Pessoas se reúnem em volta do meu quarto que nunca toca o chão. Eu sinto medo e indico um caminho. Aponto para o bosque. Lá desenterram a boca inquieta e levam para suas cozinhas. Depois de lavá-la, a cozem e preparam uma sopa. Todos são convidados pra comer num banquete sob uma forte chuva, que enche todos os copos. Comem por muito tempo e arrotam em quase perfeita sintonia, juntos, durante várias horas.

sábado, 26 de maio de 2012

poema das coisas

na cidade tinha um rio que transbordava toda noite e desaparecia toda manhã
na nuvem tem um rosto que sorri e se desfaz
na pedra morava uma velha que não viveu um único dia
na cabana tinha uma mesa com comida quente o tempo todo
a árvore balança porque quer fugir
a escada tem fim pra que o homem possa subir de novo
a luz iluminou o quarto pra escuridão ser percebida
o peito dói porque é deformado
o pé bate no chão pra que o chão caminhe
a mulher fala duas vezes pra dizer uma terceira
na casa tem janelas pra você sair lá fora

sábado, 12 de maio de 2012

na casa em que moro, um quadrado, acordei, meio morto meio vivo. Na noite passada não me lembro de ter ido dormir, mas lembro da confusão. Lembro de uma pergunta que alguém fez, alguém que não estava lá antes. Lembro de não ter podido respondê-la e lembro da vergonha. Tinha essa árvore na janela da casa em que moro, e por ela entrava uma luz laranja que é a luz da noite, entrava também os estranhos e na noite passada entrou um.
Entrou o estranho e desapareceu no espelho. Eu vi este rosto, então não me recordo se depois dormi, se corri pelas ruas, se ri, se disse coisas que não eram as que eu sentia, se disse verdades que desconhecia, se falei sobre coisas que não sei.
Agora já é amanhã, e eu acordo, ou durmo. Tem esses olhos que são os meus e tem esses outros que vejo quando os abro. Acima de mim flutuando, me encaram, sem piscar. Percebo que na verdade não olham pra mim, mas pra minha direção. São olhos que infiltram no mais profundo nada. Eu os chamo, em silêncio, mas eles apenas observam. O olhar é constante e parece me penetrar mas o sinto saindo pelo outro lado. Os olhos não olham pra mim. Eu olho pro lado. Me vejo acordando. Me vejo olhando. Levanto e encosto. A casa em que moro se tornou menor e não consigo ficar de pé. O outro de mim que vejo vê outro de mim sentado no chão, entre o sonho e a vigília, mas sempre cantando. Nós todos sentimos algo rasgando a garganta porque todos gritam. Os olhos apenas olham, pra cada um de nós três e nenhum de nós três. Os olhos são o céu, distante, belo e intocável. Pra sempre aqui, mas só daqui. Minhas mãos se estendem e assim ficam. O outro de mim estende as suas também. O terceiro de mim apenas deixa ser. Os olhos percorrem todo o cubículo que agora tem metade do meu tamanho. Me levanto e vou até o espelho. Um quarto de mim surge e me recrimina, deixo ele no espelho pra sempre trancafiado. Vou até a janela, o terceiro de mim pula mas não cai jamais, paira no ar eternamente. Os olhos olham e um riso é ouvido por todas as partes, de lugar nenhum. O segundo de mim ri também, sem achar graça. Eu paro por um instante e o observo, imóvel. Ele percebe e me olha também constrangido e surpreso. Depois sente medo. Sente medo e desvia os olhos para o espelho. Olho para o espelho e seis olhos me olham de volta, além dos olhos. Ouço uma palavra 'luta', de lugar nenhum. Não faz eco e morre envergonhada. O segundo de mim chora em silêncio. Eu o odeio. Eu o chuto e ele chora. Ele chora e eu o arranho e grito. Eu o empurro. Ele tem as mãos nos olhos e não as tira. Eu puxo suas mãos. Ele não tem mais olhos. Lágrimas transbordam do buraco em seu rosto. Eu o mando parar. Eu o odeio. Eu quero matá-lo. Mas ele não tem olhos. A casa que moro está encharcada e cada vez menor. A água não para de escorrer e chega aos meus joelhos. O quarto de mim que ri no espelho, amaldiçoa no espelho. Eu o olho. Ele me percebe. Ele diz 'já me afoguei antes', eu pergunto como foi, no que ele responde 'foi assim'. E nada acontece. Os olhos sorriem. Os olhos já estiveram por toda a parte e tudo o que busco os olhos já viram outros buscarem. Os olhos conhecem mas nunca contam. O quarto de mim pede para me aproximar. Eu tenho medo. Um medo horrível. Um medo que não se pode ter na casa onde se mora. Mas vou. Me aproximo do espelho e de repente não sei qual de nós é o reflexo pois ambos nos mexemos de maneira distinta e dançamos nossa própria canção. Percorro os olhos pelo espelho - embora não saiba de que lado estou - e vejo o segundo de mim, com a mesma fenda no rosto, mas tranquilo. Vejo um quinto de mim que talvez seja o primeiro deitado onde antes eu estava, olhando para cima, encarando o nada. O segundo de mim olha para o quinto de mim através do espelho, onde eu posso estar. Um acorda, o outro dorme. E vice-versa. Eu toco minhas mãos no espelho, que é uma janela. Eu pulo. Jamais caio, mas caio pra sempre. Sobre mim vejo de novo, os olhos. Os olhos acima e abaixo, os olhos dos lados. Os olhos nos meus sapatos. Os olhos num sapo. Os olhos um guarda-chuva. Os olhos dia de sol. Eu acho que amo os olhos, que nunca olham pra mim, mas sempre em minha direção. Enquanto caio vejo os outros de mim pulando também. Alguns voam. mas eu não sinto as asas. Nem o chão. Os olhos me afligem. Eu quero que me veja. Eu quero que me vejam. Que me restaurem a ordem das coisas apenas ao me fitar. Os olhos continuam imóveis e penetrantes. Colapsados em si mesmos, que é de onde eu ouço o riso, que na verdade é parte de uma música que tocou desde o início, quando acordei ou dormi. Eu pergunto aos olhos 'o que você vê?', mas ninguém responde.

sábado, 5 de maio de 2012

um

em três lugares distintos eu agonizo, no quarto eu morro. Depois, retorno e me vingo do crime com raiva e lamentação. Num dia comum eu nasci. Olhei minhas mãos e faltavam dedos, não pude pegar o martelo, nem a tesoura para cortar o cordão umbilical. Minha mãe morreu no meu parto e posteriormente no parto dos meus irmãos, que ainda não nasceram e que nascerão mortos. Hoje caminha velha apesar de tão nova, na flor dos seus cinquenta anos desabrochou três séculos que parecem três meses se você olhar cinquenta anos depois. Olho no espelho. No lugar dos meus olhos há um outro espelho que reflete a mãe. A mãe é um bebê carregando um outro bebê que morreu antes de existir. Olho nos olhos do bebê onde também há um espelho que não reflete nada. No nada há uma compilação de pequenas coisas que se amontoam e formam algo, mas estão cansadas e perdidas. A mãe diz com voz de anjo 'haverá de ser'. A mãe da mãe a abraça. Ninguém abraça o filho, exceto os braços. Uma outra voz inquietante e que já não diz nada ainda fala sobre amanhã. A mãe alimenta o filho. O filho sente fome.

Dois
Chega de noite uma senhora. No seu rosto todos os lugares por onde passou e por onde evitou passar. Ela chama por mim, sem falar meu nome. Eu a atendo. Ela diz sobre os cactos. Você quis dizer ratos? Eu quis dizer oceanos. Eu entendo poeira sobre o copo. Ela me fita. Eu sorrio timido, quando alguém me fita assim eu não sei pra onde olhar então olho pra tudo o que está ao meu redor. Ela me fita por horas. Não há mais nada pra se olhar ao redor. Olho pra mim mesmo. A senhora estava lá me esperando. Ela me mostra um dos lugares pra onde foi. Reconheço a placenta, o berço e a fome. Ela me manda prosseguir.

Três
Encontro essa fruta que não tem gosto de nada. Cuido pra não comê-la de novo, mas não vejo outras frutas pelo caminho. Um cachorro sentado numa pedra distante diz que é melhor entrar nas cavernas, 'mas isto é uma caverna' digo, ele diz 'sim mas e então?'. Bato meu pé com força no solo que racha e abre um buraco. Caio e toco o chão novamente com outro cachorro sentado numa pedra distante que diz também sobre a caverna, fazendo com que eu bata o pé de novo e caia. E toco o chão. E nele bato. E nele toco. E nele bato.

Quatro e último
Sobe nas montanhas uma figura estranha, colorida e brilhante, que emite um som harmonioso e remete a coisas que eu sei que são minhas mas que nunca conheci. Lá atrás caminha minha mãe, com suas pernas esmagadas, com sua mãe no colo e seus filhos no ventre. Eu tento entender porque estou ali e sinto o liquido amniotico na minha boca, que me afoga. A figura se torna opaca e distante e a montanha desaba. A mãe ri. Eu vejo a mãe na montanha, numa outra montanha da qual hoje se ouve apenas o eco da sua destruição. Olho pra cima e vejo outras montanhas formadas de outras substancias, montanhas que não tem fim, nem começo. Vejo outras mães flutuando sobre elas. E mães que flutuam sobre seus destroços. E mães que carregam suas montanhas no bolso. E seus filhos no bolso. E mães que nunca tiveram mãe. Olho pro oceano de novo, penso 'ele mata'. E penso 'ele leva'. E penso no útero e olho pra mãe. Eu tento dar minhas mãos mas nelas faltam dedos e os poucos dedos que restam dançam uma dança sombria que é a dança da minha vida. Digo 'desculpa' e deixo a mãe morrer. O corpo se decompõe instantaneamente e se junta ao solo. Seus fluídos correm até o oceano e formam embriões. E do oceano nascem meus irmãos. Nasce também minha mãe, mas eu espero um pouco ainda.

terça-feira, 1 de maio de 2012

o contraste

num caminho dividido por seis outros caminhos e dois riachos e duas escadas sem fim. Em cada um dos seis caminhos doze maçanetas sem portas e quatro janelas que dão pra onde você está. No fim de cada escada sem fim um tigre vestido de deusa segura numa mão um arco e na outra um quasar. No fundo de um dos riachos nada uma sereia que é metade mulher, metade mulher. Mais fundo no mesmo riacho dorme um homem sossegado e suspenso que ás vezes acorda pensando em dormir. Embaixo do homem dançam os peixes sem compasso e ritmo. Embaixo dos peixes dormem os prédios imóveis e distantes. Dentro dos prédios uma única árvore com uma única fruta que dá milhares de frutos em um único segundo que já passou. No outro riacho uma grande panela cozinha uma criança com fome enquanto sua mãe se sente sozinha. Uma batata caminha do centro do quasar até a ponta da flecha, desce a escadaria, mergulha no riacho e se senta ao lado da mãe. Duas estrelas de ar sobem á superfície da água e continuam até tocar o céu, que é feito de vidro e de pastel oleoso.  Cinco homens pequenos se abraçam até se tornarem um único homem pequeno. Um único homem pequeno abraça a panela e come a criança. A mãe sorri e abre a porta do céu com uma tesoura-martelo. O riacho pega fogo que queima o caminho. Tem um outro caminho ainda e outro riacho e tem as escadas. A árvore abre seus olhos e o tigre ruge.