O mundo veio me chamar, gritou meu nome no portão. Não atendi. Entrou. Bateu na porta, com força, depois suave, me escondi nas cobertas. Foi á janela do quarto, murmurou, murmurou de novo. Aí foi embora.
Era cedo quando acordei e todos pareciam felizes com algo, falavam ao mesmo tempo, dançavam até. Eu sentei á mesa e tomei café, estava gelado. Olhei no fundo da xícara, havia algo lá, aproximei meus olhos e vi. Vi um rapaz sorridente. Ao lado dele uma senhora de idade, usando roupas de uma garota de 16 anos. Depois os vi indo para um cômodo apertado e no fundo desse cômodo tinha uma porta, bem pequena e quadrada. Vi as mãos do rapaz a abrindo e depois vi o mundo.
Saí de casa, num dia úmido, numa hora que ainda era a criança de todas as horas. O caminho era cinza mas eu continuei. Virei duas ruas, o céu parecia querer dizer algo e também as árvores. O céu devia estar cantando uma música, as árvores deviam estar dançando, as pessoas estavam dormindo. Cheguei ao ponto de ônibus, duas senhoras esperavam ali, com olhos fechados, com as mãos cheias de sacolas. O ônibus veio, vazio como nunca vem. Subimos nós três, sentamos nós três. Eu queria que houvesse um mar logo ao meu lado assim eu poderia mergulhar como me deu vontade de fazer. A viagem não demorou muito afinal prestei atenção a cada rosto voando do lado de fora da janela. Rostos de quem já viu um assassinato, de quem já fez sexo inúmeras vezes, de quem já tocou em muito dinheiro, de quem já esteve em outros países, em outras realidades, de quem já conheceu outros segredos ou viu outros rostos. Vi esses rostos e então desci. Segui por outro caminho, tão cinza e úmido, porém mais tarde. O céu estava em silêncio e as árvores não as vi nenhuma. Outra vez uma porta pequena e quadrada, entrei por ela, havia um garoto que não sorria, ele me levou a um cômodo apertado aonde deitava uma velha sua mãe, vestida de bebê. Me ofereceu um café, eu aceitei.
domingo, 11 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
seus olhos são meus agora, eu os pego e aperto e deles saem pequenos insetos sem asas, grandes insetos com asas que voam para algum fio atrevido de cabelo. Quando estou longe, eu os como.
UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.
TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.
INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.
QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.
AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.
UM APARTAMENTO MISTERIOSO
Tudo ia bem no novo apartamento dele, ele tinha uma filha, da qual nunca se soube, havia algum dinheiro no pote. O cachorro não deveria estar ali, tampouco o gato, o lince e a águia. De vez em quando ele subia as escadas e parava nos primeiros degraus e ali mesmo adormecia. Sua filha viu a cena durante alguns meses. Um dia ele dormiu ali e ali mesmo desapareceu.
TARDE NA PRAIA
A tarde era linda, coisas vermelhas ficariam mais vermelhas se estivessem sob o seu céu. A tarde abraçou a todos, enquanto choravam as ondas, enquanto gritavam o ardor e esmurravam o ódio. A brisa disse-lhes 'não' e as cabeças todas se esconderam. Uma música tocou no mar distante. Na praia os olhos arderam. Um segundo abraço veio de longe, vermelho e quente. Apenas a lembrança de um som.
INDO AO TRABALHO
Acordou bem cedo, mais cedo que antes para que pudesse pensar o porquê. De acordar e de o céu ser pálido, e de os ruídos serem tímidos e de os pássaros compreenderem. Acordou bem cedo para que não trabalhasse com fome. Fez seu pão e o seu café. Deixou a pequena casa e sentou no banco velho, cansado do sono que ainda não partiu. Olhou para cima. Perguntou o porquê. Uma voz respondeu.
QUERELA
Os dois não queriam voltar para casa, acima das árvores, a lua. Abaixo, as luzes, e logo as pessoas. Sedadas e loucas. As pessoas berravam, diziam tudo o que não podia ser dito e gargalhavam. Algumas gargalhavam enquanto choravam e outras que nunca sentiram pena, sorriram. Os dois se olhavam, como dois outros fossem. A boca de um se mexeu e produziu um som ininteligivel. O tempo parou. Ali naquela esquina todos eles se encontravam uma vez por semana, pra falar de coisas que ninguém quer ouvir, de coisas que se despreza, que já não valem mais, pra falar sobre um mundo que não é o seu. Os dois estão por aí também, procurando onde pousar os olhos. Na falta de um lugar pra pousá-los, os olhos se fecham.
AVÓ
Cinza. Era a pele dela. Sem pele. Também cinza era sua alma. E depois do espetáculo, nem falta nem soma, apenas isso. Pois quem se perdeu no tempo sabe como é viver sempre o ontem, e ver o relógio batendo incessantemente á meia-noite. Uma criança morre á meia-noite. E a avó vive, vive mais e mais e mais. Na cama um rato lhe canta a canção da pedra que move. A luz enfraquece. Os lençóis lhe cortam o corpo. O travesseiro é uma poça. A avó afunda.
domingo, 4 de dezembro de 2011
supostamente hoje eu teria que pegar as vacas todas elas e colocá-las para dentro pois chove lá fora e há a expectativa de um monstro que virá para pôr abaixo tudo que se construiu se hoje sou homem é porque sei cozinhar tudo aquilo que põe na mesa em prestações pequenos serviços vem vão e eu que fui noite e hoje sou ensolarado regado de benção mãos circuncidadas que querem me pegar pelo pescoço e me jogar no mais infimo abismo do esquecimento esse que hoje eu condeno e apesar de tudo tanto desejo para mim e minha familia para que comamos toda a refeição sem ter que dizer depois "obrigado" a noite vem calma com vestido preto e bolinhas de brilhante entre uma e outra áurea áurea eu digo proporções para que colocá-las todas num mesmo quadrado? eu rio todos riem a piada está feita não me ouviram agora os gritos mais altos que dei sempre pensei que nunca o mais alto grito poderia ser tão alto mas agora que o fiz penso como o farei da proxima vez terei que me silenciar como faço agora as pontuações exigem um pouco de consolidação e respeito as regras requerem cuidados proteção flores em suas orelhas meninas graciosas dançam em volta da mesa um senhor muito inoportuno pede por misericórdia bem agora eu sei o que é voar atrás de mim um canhão um vento a estrutura básica de todas as coisas me suspende na terra eu sou a paixão que consome a carne do boi o boi não queria morrer grupos defenderam seus ideais hoje eu almoçarei ideais e amanhã logo cedo estarei partindo numa viagem de encontro a outra coisa senão as malas porque devo levá-las são elas todas pesadas para minhas mãos e o piano agora sente ciúmes e quer que me diga uma nota só que corresponda a todas as estrelas do céu.
O sono veio me provocar me trazer desesperança e esse homem com o rosto coberto de rugas me diz "pare" e eu continuo a andar por entre as rochas embora queira voltar para casa mas a casa parece tao distante que agora me vejo como um quadro pendurado na parede bem aos olhos de uma dama que perdeu recentemente seu cachorro, seu pai, mestiço, luta por um pouco de autoridade enquanto toda a cidade pede bolo. A musica jamais parará, diz o monge, e o arco iris cairá do ceu como o pote de ouro que encontraram lá dentro do labirinto de judas, judas foi partidario palavreador, encontra ou perde-se logo depois de ser quem não pensou jamais que seria pois o filho na escola deixou que lhe ensinassem música e letras e seguiu rumo ao mar, no mar se afogou tal como estrela outrora fora todas as mulheres compatriotas de sua terra. Lá vem ele, envolto em sombras cantar a canção dos mortos que hoje se levantam e gritam "poxa". Amanhã serei finalmente sepultado desejo que tu me visites e me diga com palavras doces "eu sempore te amei, não hoje"!
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