muito se fala sobre a porta e sobre a pessoa que chora á sua frente. Se fala bastante também sobre atravessar o tempo, sobre atravessar a matéria, sobre andar em círculos até atingir o buraco.
Alguns realmente comentam sobre o que há do outro lado, alguns realmente vivem lá, e sorriem. E o outro lado é lá, aqui é o lado onde não estou.
Bate á porta:
quem é?
me deixa entrar
Entra:
seu sofá, me sento nele. Seu quadro na parede, entro nele. Sou seu quadro, sou seus olhos o observando, sou sua mente se distraindo, sou o quarto em que você entra, sou a cama em que você deita, o travesseiro em que você sonha, sou os pés que paralisam, a mão que afaga o lençol, o nada que absorve, a boca que mordisca, a brisa que balança seus cabelos e o calafrio. Sou o quadro, sou os olhos que me olham. Saio do quadro, sou a mão que toca meus braços, sou meus braços e sou você. Caminho até o quarto, você na cama, afagando o nada e absorvendo a brisa. Entro no armário, você mora ali, te dou as mãos, sou as mãos. Você me segue, abrimos um caminho, com pedras. Não, com bolhas, bolhas com cores frias, que se tornam cores quentes que se tornam insetos minusculos, que se tornam tigres do tamanho de formigas, que voam em direção ao céu e se tornam nuvens também. Sou a nuvem, te vejo só afagando as bolhas, tropeçando no caminho, absorvendo as formigas, beijando a parede, deitado na parede olhando para as nuvens. Sou o céu, a nuvem ri, eu grito, você chora e ri depois. Eu desço, encontro o caminho, vejo pegadas, pego as pegadas, afago as pegadas, cheiro as pegadas. Cheiro de nada. Sigo o caminho, encontro o armário, abro suas portas, de saída pro travesseiro. Encontro seus cabelos, sou seus cabelos, entro em sua cabeça, encontro uma porta. Bato a porta. Você atende. Sou você.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
o homem
o homem saiu pra um passeio com o próprio homem, passeio esse que há um bom tempo planejava. E lá no campo esverdeado, debaixo de árvores enormes, se sentaram e tomaram o café.
-não sei
-o quê?
-viver
-ora
-sim
-assim se é
-é dificil
- você não é especial
-eu sei
-pois
-mas sei agora, ontem não sabia, acordei hoje e soube disso
-acontece assim mesmo
-não me sinto bem
-logo passa
-tenho medo
-de quê
-de me conformar, de aceitar e deitar
-pois não aceite, não deite, não se conforme
-tenho medo
-de quê
-de ser obstinado, intolerante e imprudente
-não seja
-mas tenho medo
de acordar daqui a dois anos ou sete meses e descobrir que sempre fui
-seja outra coisa
-não sei o que ser
-seja você mesmo
-esse sou eu
-continue sendo
-me incomoda
-grita
-eu grito
-não ouço
-o grito é lugar-comum agora, não quero cair nos clichês
-a vida é cheia deles
-me odiarão
-suporte
-suporto
-suporte sempre
-não sou forte
-seja
-me esforço
-que diz
-é ilusão, é só querer ser forte, não é ser forte
-esqueça
-queria esquecer
queria não ver
e não me importar
-se engane até que acredite
-como?
-uma hora entenderá
-é dificil
-assim é
-dói saber
-esconda
-depois que se sabe não dá pra esconder mais
-mostre
- me tacarão pedras
-sangre
-e então?
-que mais queres da vida?
- um abraço
-a vida não abraça
-eu sei
-não sei
-o quê?
-viver
-ora
-sim
-assim se é
-é dificil
- você não é especial
-eu sei
-pois
-mas sei agora, ontem não sabia, acordei hoje e soube disso
-acontece assim mesmo
-não me sinto bem
-logo passa
-tenho medo
-de quê
-de me conformar, de aceitar e deitar
-pois não aceite, não deite, não se conforme
-tenho medo
-de quê
-de ser obstinado, intolerante e imprudente
-não seja
-mas tenho medo
de acordar daqui a dois anos ou sete meses e descobrir que sempre fui
-seja outra coisa
-não sei o que ser
-seja você mesmo
-esse sou eu
-continue sendo
-me incomoda
-grita
-eu grito
-não ouço
-o grito é lugar-comum agora, não quero cair nos clichês
-a vida é cheia deles
-me odiarão
-suporte
-suporto
-suporte sempre
-não sou forte
-seja
-me esforço
-que diz
-é ilusão, é só querer ser forte, não é ser forte
-esqueça
-queria esquecer
queria não ver
e não me importar
-se engane até que acredite
-como?
-uma hora entenderá
-é dificil
-assim é
-dói saber
-esconda
-depois que se sabe não dá pra esconder mais
-mostre
- me tacarão pedras
-sangre
-e então?
-que mais queres da vida?
- um abraço
-a vida não abraça
-eu sei
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
esse não é um sonho meu, mas eu estava nele. Embora não seja um sonho meu, eu sou do sonho, então ali estava. Ali estava quando vi a garota sair do carro com pressa, e quando vi três homens a perseguindo. Ali estava quando os vi pegá-la pelo braço. Quando os vi levantar a sua saia. Ainda estava ali quando começaram a lhe fazer doentices.
Não estava mais ali, estava em outro lugar, mais claro, com mais flores, e mais jardins e mais pessoas e menos carros, ou mais carros, ás vezes. Um som de trompete tocou lá no fundo e eu fui ver o que era. O som continuava, mas a cada passo que eu dava, mais distante ele parecia. Andei por vários minutos então, quando percebi que estava longe. Voltava pro lugar de partida e o ouvia mais próximo. Segui por todas as direções, sem conseguir localizá-lo. Dois passos para trás, para frente ou para os lados, dois decibéis mais baixo, duas ruas mais distante. Então olhei pra cima.
A estrada estava praticamente deserta, demorou horas pra que o primeiro motorista passasse, não só o primeiro motorista, mas o primeiro motorista que parou. Desceu ele o homem/motorista e foi pegar a garota caída no chão, suja de sangue e de sêmen e descabelada e cinza. Pôs a moça no porta-malas e continuou viagem. Nesse momento lembro de haver um animal que olhava fixamente todo o ocorrido e que foi para o bosque contar alguma coisa. De volta aos pneus, sentia esse cheiro de perfume antigo, de perfume de alguém que não existe mais, que existiu uma vez, deixou o cheiro e partiu. Me incomodou um pouco mas continuei dirigindo. Não liguei o rádio, ainda assim tocou um som, uma música calma, como uma mão macia, tocou meu rosto e depois meus cabelos e então meus lábios, e desceu por meu peito até minha calça. Alguns instantes depois tudo pareceu mais lento, como se o tempo se tornasse sólido o suficiente para que eu pudesse senti-lo agarrando meus braços, me impedindo de continuar. Meu ar, quase o perdi, a voz, a perdi totalmente, mas lembro de soltar gritos silenciosos, que só eu ouvia. Se eu fosse alguém além de mim, teria me salvado. Já era noite, quando fiquei livre, e o banco do carro era uma cama, parece, pois senti como se tivesse deitado ali dois dias seguidos. Os limpadores de parabrisa se moviam devagar, era o tempo que ainda não tinha passado totalmente. A chuva que caía batia no vidro e os pingos formavam imagens, pelo menos achei isso até que percebi que eles realmente dançavam. Vi um rosto, não no vidro, nem no espelho, mas nas gotas d'água. Ele me encarou e disse -"prossiga". E eu prossegui.
Corri por entre tantos galhos, e tantas folhas e cada vez mais verde, marrom e musgo. E as abelhas tinham uma forma estranha, e tamanho de rato. O céu não é tão longe assim, pensei. A grama estava úmida, as folhagens criavam coreografias absurdas, que não deviam ser criadas nessa época do ano. Achei uma árvore velha e um grande buraco nela. Desse buraco saía uma luz amarelada, bem fraca, mas nos dias cinzas toda luz é excessivamente brilhante. O som desapareceu quando entrei ali. Nesses segundos de supressão, vi olhos, não dois, mas dez, olhos com corpos sentados á mesa, olhos que olhavam a carne na sopa de flores, cozinhando, olhos que tinham linguas e que lambiam uns aos outros e que comiam as próprias linguas enquanto as olhavam. Sentei-me ali, ouvi um estalo. O som voltou, o vento soube disso e assobiou lá fora, da árvore. O olho mais curioso perguntou "que foi?", o mais covarde insistiu "que foi?", o olho mais alegre apenas olhou e então os contei: "houve uma confusão"
Vesti minhas roupas de verão, era inverno, andei pelo quarto enquanto me olhava no espelho e me via com cabelos mais lisos, e rosto mais belo e corpo mais definido. E olhos azuis. E graciosidade latente. Olhei muito o espelho até que ele próprio se cansasse e minha imagem partisse me deixando sozinho. Fui até a janela, olhei as palmeiras e ouvi a música. Vi a dança e também a euforia. Um moço lá debaixo gritou que eu descesse. Desci. A porta apenas se abriu. E lá fui eu, pisando no chão como um anjo pisa nas nuvens, como um peixe-cigarra mergulha no nada. Lá fui eu, andando, e os passos produziam notas. E as notas sempre se calavam quando eu pensava em me apressar. Fui de encontro ao moço. Que agora de perto não parecia tão bonito quanto lá de cima, da janela. Que agora de perto era mais de um. Que agora de perto me tocou suavemente e me fez ceder. Que agora de perto eu vejo isso. Que agora de perto volto pra onde não deveria estar.
Não estava mais ali, estava em outro lugar, mais claro, com mais flores, e mais jardins e mais pessoas e menos carros, ou mais carros, ás vezes. Um som de trompete tocou lá no fundo e eu fui ver o que era. O som continuava, mas a cada passo que eu dava, mais distante ele parecia. Andei por vários minutos então, quando percebi que estava longe. Voltava pro lugar de partida e o ouvia mais próximo. Segui por todas as direções, sem conseguir localizá-lo. Dois passos para trás, para frente ou para os lados, dois decibéis mais baixo, duas ruas mais distante. Então olhei pra cima.
A estrada estava praticamente deserta, demorou horas pra que o primeiro motorista passasse, não só o primeiro motorista, mas o primeiro motorista que parou. Desceu ele o homem/motorista e foi pegar a garota caída no chão, suja de sangue e de sêmen e descabelada e cinza. Pôs a moça no porta-malas e continuou viagem. Nesse momento lembro de haver um animal que olhava fixamente todo o ocorrido e que foi para o bosque contar alguma coisa. De volta aos pneus, sentia esse cheiro de perfume antigo, de perfume de alguém que não existe mais, que existiu uma vez, deixou o cheiro e partiu. Me incomodou um pouco mas continuei dirigindo. Não liguei o rádio, ainda assim tocou um som, uma música calma, como uma mão macia, tocou meu rosto e depois meus cabelos e então meus lábios, e desceu por meu peito até minha calça. Alguns instantes depois tudo pareceu mais lento, como se o tempo se tornasse sólido o suficiente para que eu pudesse senti-lo agarrando meus braços, me impedindo de continuar. Meu ar, quase o perdi, a voz, a perdi totalmente, mas lembro de soltar gritos silenciosos, que só eu ouvia. Se eu fosse alguém além de mim, teria me salvado. Já era noite, quando fiquei livre, e o banco do carro era uma cama, parece, pois senti como se tivesse deitado ali dois dias seguidos. Os limpadores de parabrisa se moviam devagar, era o tempo que ainda não tinha passado totalmente. A chuva que caía batia no vidro e os pingos formavam imagens, pelo menos achei isso até que percebi que eles realmente dançavam. Vi um rosto, não no vidro, nem no espelho, mas nas gotas d'água. Ele me encarou e disse -"prossiga". E eu prossegui.
Corri por entre tantos galhos, e tantas folhas e cada vez mais verde, marrom e musgo. E as abelhas tinham uma forma estranha, e tamanho de rato. O céu não é tão longe assim, pensei. A grama estava úmida, as folhagens criavam coreografias absurdas, que não deviam ser criadas nessa época do ano. Achei uma árvore velha e um grande buraco nela. Desse buraco saía uma luz amarelada, bem fraca, mas nos dias cinzas toda luz é excessivamente brilhante. O som desapareceu quando entrei ali. Nesses segundos de supressão, vi olhos, não dois, mas dez, olhos com corpos sentados á mesa, olhos que olhavam a carne na sopa de flores, cozinhando, olhos que tinham linguas e que lambiam uns aos outros e que comiam as próprias linguas enquanto as olhavam. Sentei-me ali, ouvi um estalo. O som voltou, o vento soube disso e assobiou lá fora, da árvore. O olho mais curioso perguntou "que foi?", o mais covarde insistiu "que foi?", o olho mais alegre apenas olhou e então os contei: "houve uma confusão"
Vesti minhas roupas de verão, era inverno, andei pelo quarto enquanto me olhava no espelho e me via com cabelos mais lisos, e rosto mais belo e corpo mais definido. E olhos azuis. E graciosidade latente. Olhei muito o espelho até que ele próprio se cansasse e minha imagem partisse me deixando sozinho. Fui até a janela, olhei as palmeiras e ouvi a música. Vi a dança e também a euforia. Um moço lá debaixo gritou que eu descesse. Desci. A porta apenas se abriu. E lá fui eu, pisando no chão como um anjo pisa nas nuvens, como um peixe-cigarra mergulha no nada. Lá fui eu, andando, e os passos produziam notas. E as notas sempre se calavam quando eu pensava em me apressar. Fui de encontro ao moço. Que agora de perto não parecia tão bonito quanto lá de cima, da janela. Que agora de perto era mais de um. Que agora de perto me tocou suavemente e me fez ceder. Que agora de perto eu vejo isso. Que agora de perto volto pra onde não deveria estar.
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