segunda-feira, 15 de julho de 2019

Um breve encontro

:: Às 8 da noite, um espetáculo, não se atrase

Eu volto. Eu espero na estação. Faz frio mas estou suando por ter andado rápido. Na minha frente, todo tipo de distraídos, senhoras perdidas, moças interpretando cada passo, rapazes interpretando cada passo, olhando no celular, andando pra frente, parados no caminho. Meu único destino é a estação. Depois o trem. Depois a casa.
Na estação, cheia de pessoas cansadas e apressadas pra retornar aos seus destinos também, as suas casas, espero impaciente. A espera me entretém mais que uma leitura. Observar a espera dos outros me entretém mais do que a minha própria. Olho o relógio, o trem demora mais do que o normal. Olho pra alguém. Não tão rápido, de forma que eu possa sentir que estou ali. Não tão lento, de forma que ela perceba que estou ali. Uma luz, ao longe, cresce aos poucos, todos se preparam pra garantir o seu lugar, corpos se comprimem, bolsas em mão, bolsas nas costas, no peito. O trem, com as luzes internas apagadas, não para. Tento capturar alguma expressão sonora de decepção, como detalhe que preenche de vida o entretenimento banal que criei ali. Todos voltam a sua posição. Me volto pra direção de onde os trens vem. Mesmo nesses momentos eu interpreto. Interpreto alguém que tem pressa, através do meu rosto, dos meus gestos, meios pelo qual a minha verdadeira pressa não é capaz ou permitida de se manifestar. Viro meus olhos lentamente pra massa de pessoas que aguarda num ponto em frente ao meu. Todo mundo se habituou a sua entrada, por onde embarcar, por onde sair, qual porta lhe deixará mais perto de casa. Pouso meus olhos em um homem, não por nada em particular que me chame a atenção, mas de modo calculado. Sua aparente exiguidade se torna um traço desejável no processo de escolha de personagens que a minha complacência um tanto oportunista cria. Perguntas pré-fabricadas começam a se acumular na minha mente Quem é ele? O que será que ele faz aqui? Do que ele trabalha? Onde ele desce? Ele vai pra casa? Como é a casa dele? Ele tem alguém a sua espera? O que ele gosta de ouvir? Como ele se comporta diante de conversas fiadas? Como é ser um velho desimportante e ter alguém mais jovem que nunca olharia pra ele lhe dando tanta atenção, lhe levando tanto em conta? Nesse momento ele olha pra mim. Em um arroubo de coragem - uma pequena revolta contra minha própria natureza de me deixar desaparecer ao fundo e não ser notado - eu não viro os olhos. Continuo o encarando, tentando continuar com as minhas indagações, mesmo sendo claro que a concentração que a segurava havia se dissipado e, junto com ela, as palavras. Por um centésimo de segundo, eu não pensei mais no homem que me olhava, ou na minha própria presença, ou na noção de que cada músculo do meu corpo era agora analisado, friamente, em busca de uma razão, de um motivo, de um desmascaramento. Por um centésimo de segundo estive só com a rebelião a mim mesmo, com a consciência da minha impotência ao não conseguir resgatar as palavras que haviam me fugido, por estar subjugado, dissolvido por dentro, totalmente nu, destituído de qualquer existência interior, de qualquer paisagem, apenas uma voz vacilante numa sala branca. Essa noção me estremeceu, e o tremor atravessou a minha epiderme e escapou pelos meus lábios. Eu falhei.      Olhei rapidamente pra cima dele, pro relógio - não vi que horas eram - olhei pra massa de gente atrás de mim - não vi quem eram - olhei pra frente, o único lugar onde podia repousar meus olhos sem colidi-los com os de ninguém. Apenas a parede - não vi que cor era. Me esforcei pra testemunhar a parede. Pra me entregar ao teatro, me esquecer de mim. Burocraticamente, sistematicamente, corri meus olhos pela sua textura, seu material, suas cores, seu tamanho, tentei ler todas as informações que a parede guardava em seu cofre invisível. - Deve ser uma parede antiga. Quando será que foi construída? Porque esse reboco foi escolhido? Quantos estudos não houveram pra decidir que esse era de fato o melhor material? Quantos papeis, quantas conversas, quantas contas, quantas variáveis. Quantas pessoas foram necessárias pra levantá-la, quantas a levantaram sem nem sequer vê-la e partiram pra próxima seção, deixando ela pra trás, pra cumprir o seu papel de jamais ser observada, de desaparecer no fundo e ser esquecida também. De ser apenas uma parte daquele todo que parecia cumprir a tarefa tão nobre de separar o que existe lá fora do que existe aqui dentro, de barrar, de conter, de expulsar. O trem chegou, eclipsando a parede. A porta se abriu, eu entrei sendo empurrado. Todos correram pra garantir o seu lugar. Fiquei de pé, com a mochila entre as pernas, olhei levemente para os lados, pra ver se o meu observador ainda se entretinha comigo. Ele estava sentado, olhando no celular. Eu olhei pra parede de novo. Era só mais uma. O trem partiu, eu a esqueci. Não esqueci, no entanto, da outra parede. A que me colocou em frente daquela, em primeiro lugar.

:: Túnel

Era um vagão estranhamente silencioso, estranhamente frio para uma noite de clima ameno em um outono tropical. Meu teatro prosseguia. Na plateia, apenas um antigo convidado - imóvel nas sombras, seguro nas sombras - que jamais deixava o seu assento. Diretor e espectador. A próxima cena foi repetida inúmeras vezes ao longo de todos esses anos de viagens, com poucas e irrelevantes variações. Coloquei o fone no ouvido, deixei as músicas tocarem aleatoriamente, num volume baixo - meu corpo estava presente demais pra ser eclipsado agora.
Volta e meia retornava meus olhos para aquele pobre coitado, excitado pela prospectiva de cair novamente em sua teia, excitado por descobrir novas maneiras de desfazê-la, de escapar. Excitado por uma chance de recuperar meu orgulho. Um túnel. O trem entrou. O vento confinado produzia uma música violenta. As janelas estavam escuras. Um espelho se formou. O homem olhava para a escuridão. Eu olhava para a escuridão. Encontrava o seu reflexo. Era esse o lugar que eu procurava, um espelho bruto. Uma testemunha no escuro, mais uma vez espectador, e apenas espectador. A velocidade com que o trem atravessava o túnel criava um som altíssimo, que ecoava e reverberava por todo o vagão. Pensei ter identificado algumas vozes no conjunto de ruídos. Concentrei meu olhar no reflexo dele, e meus ouvidos no vento confinado, concentrei, olhei, ouvi. Ouvi mais. Um pequeno barulho, como o de ruído de um antigo rádio passa a ser escutado. No chiado, uma frequência meio humana, meio fantasmagórica. Algumas palavras começaram a ser içadas da turbulência ruidosa... "Esse é o rosto..." " Esse é o rosto de alguém soterrado, de alguém a quem faltou ar, não ontem, não ano passado, mas por décadas. Uma pequena reserva de oxigênio pra durar o quanto durasse. A vida pausada". Vento. Voz. "É o rosto... esculpido por uma existência vil, tenebrosa, assustada, parasita, esfomeada e mendiga.. De uma vida doméstica farsante, em frangalhos, da paródia do amor e da graça"; Voz. Vento. Outra voz. Mais aguda. "Os olhos. Veja bem. Uma existência soterrada. Não por dias, mas por décadas. Lá de baixo, apenas um feixe de luz. E uma brisa. A voz vacila, treme, as palavras, natimortas, desmancham antes que possam tocar o tecido do concreto. A ferrugem e o fogo esculpem o rosto, mas a brisa e a água esculpem os olhos". O túnel passa, o rosto desaparece. O vento confinado ainda reverbera, e aos poucos, vai se fundindo em cada pessoa que espera pacientemente naquele vagão.

:: Estação Barra Funda

O homem se levanta, quase cai por não ter segurado nas barras de ferro quando o trem para. Ele desce. Eu também. Não é aqui que eu desço. Minha casa é do outro lado. Em outra direção. Eu vivo em outra direção. Do outro lado. Há uns minutos atrás, decidi fazer um desvio. Uma decisão inconsciente, impulsionada pela minha distração. Todos descem. É o fim da linha. Seguro meus passos pra não andar tão rápido quanto meu corpo está habituado. Observo ele logo a frente, empurrado por uma dúzia de pessoas, desatento à pressa delas, lento e cansado. Retira o celular e começa a olhar enquanto sobe a escada. Minha pena só é superada pela repulsa. E assim continua por toda a estação. Lento demais, para mim. Começo a me arrepender de tudo isso e penso em voltar para a plataforma. Nesse momento, uma mulher passa ao seu lado, com uma calça legging e peitos enormes, consigo sentir o perfume daqui. Ele nem tenta disfarçar e se vira quase completamente pra olhar a sua bunda. Vejo que ele diz algo, bem baixo, pra si mesmo. Chacoalha a cabeça duas vezes e continua andando.
Estamos do lado de fora, a rua é movimentada, mesmo nesse horário. Vejo uns senhores reunidos nas mesas do lado de fora de um bar logo à porta da estação. Carros viram sem piscar, pessoas hesitam e continuam em frente na faixa de pedestres, buzinas. Conforme as ruas vão ficando mais escuras e mais vazias, ele aperta mais os passos. A distância entre a estação e o seu destino é meio grande, acreditei que alguém tão cansado pegaria um outro ônibus pra chegar lá. As poucas pessoas que nos acompanhavam nesse pequeno êxodo se dispersam lentamente. Pontos de ônibus com duas pessoas ou menos, faróis vermelhos sem ninguém pra atravessar. Estamos na avenida, em direção a um labirinto de comércios fechados e luzes de poste queimadas. Mais à frente, num local sem iluminação alguma, vejo levantadas algumas cabanas, cheias de moradores de rua, viciados de todo tipo, andando pra lá e pra cá, ocupando toda a calçada. Sinto um pouco de medo e decido encurtar a distância entre mim e ele. Me sinto protegido de certa forma, e gosto de pensar que ele se sente assim também. Ele vira uma rua antes do local onde estavam as cabanas. Fico aliviado. Não há absolutamente ninguém do lado de fora, tudo que ouço é o eco dos motores dos veículos passando na avenida, e quanto mais ele anda, mais distante eles parecem. Ao me dar conta dos arredores, percebo que a música que escutava havia parado, que o silêncio já vinha me acompanhando há algum tempo. Tiro o celular do bolso. Sem bateria. Percebo também como meus pés doem. Sinto, de repente, todo o meu corpo. É como se a peça tivesse acabado. Uma vergonha imensa, um medo terrível, minhas pernas latejam, minha garganta está seca, meu estômago faz sons estranhos. Passo debaixo da luz de um poste, paro por um instante e olho no meu relógio. Sou tomado de um enorme espanto quando vejo que faltam quinze pra meia-noite. Desisto por um instante de segui-lo ao pensar que as estações fecharão em quinze minutos, que não faço ideia de que caminho tomei. Volto uns passos pra ver se encontro alguma placa. Procuro desesperadamente por ela e não acho, nenhum número, nem nada. O homem vai desaparecendo na escuridão adiante. É preciso tomar uma decisão. Sei que não vou conseguir voltar para casa, nem mesmo para a estação. Confesso que meus olhos começam a ficar um pouco molhados, um desespero revoltado passa a me esfaquear por dentro, mas eu o seguro, o amordaço e jogo ele no porão. Ouço uma risada. Não sei de onde. Me sinto pequeno, cada vez mais pequeno. É verdade que agora o único jeito de voltar é esperar que ele se levante no outro dia, pra mesma rotina ridícula, e leve a mim, seu acompanhante invisível, de volta. Pra minha casa, pra longe dessa podridão, dessa escuridão que se espalha feito tumor, que se funde a tudo que toca, às estruturas, ao chão, às pessoas. Até a luz é fraca, de arder os olhos, as árvores são mortas, as paredes úmidas e sujas. Tudo o que eu detesto.... Penso ter ouvido de novo aquele chiado, e aquela voz, a mais grave, misturada ao eco dos motores dos carros que ficaram lá atrás "É o rosto..." chiado "soterrado, em julgamento, é..."...."a sonolência da atenção"... chiado, risadinhas. Tiro o fone e percebo que o perdi de vista. Vou correndo, com passos cuidadosos pra não ser visto, jamais ser visto. Sigo uma rua, vou até a esquina, olho para frente, para trás, volto, vou por outra rua, parece a mesma, tudo é igual, tudo é triste e hostil. Vejo essa viela, evitei ela até não ter outra escolha. Ela é ainda mais escura, mais estreita. Meu coração palpita de um jeito que eu não lembro de ter sentido antes jamais. Eu vou lembrar pra sempre dessa noite. Sigo reto pela viela, não é apenas estreita mas longa, uma fina camada de neblina vai se dissipando à minha frente. Lá está o homem, ainda lento, ainda distraído, nem sequer olha pra trás. Como eu detesto ele. Mais uns passos e ele para. A viela não tem saída. Bem no fundo dela há uma portinha de madeira, protegida por blocos quebrados e rodeada por uma espécie de cortiço. Casas que se amontoam, enclausuradas por outras portinhas de madeira e cadeados enferrujados. Ele entra pela portinha. Eu espero uns minutos e paro diante dela. Consigo observar pelas inúmeras frestas marcadas na superfície desse limiar medíocre, o seu abrigo, seu ninho, com suas lâmpadas fracas e amarelas se acendendo, trazendo com elas mais escuridão do que luz. Uma casinha minúscula, toda cinza e cheia de fungo, infiltrações, gambiarras, vidros quebrados. É impossível que alguém mais more aí. Essa casa foi feita à medida para ele. E apenas ele.

:: Banho, janta e CAMA!

Que dia! Minhas costas doem. Tiro meu casaco, ligo a TV e me deito no sofá. Minha vontade é adormecer aqui mesmo, de sapato e tudo. Expulso essa vontade pra longe em menos de dois minutos. Me levanto, vou até a cozinha. Minha esposa costuma deixar a janta pronta antes de sair pra trabalhar. Ela trabalha como enfermeira no turno da noite no hospital de Santa Cecília. Fez arroz, feijão, carne moída e salada de rúcula. Como duas colheradas de carne da panela e decido que é melhor tomar um banho antes. Subo a escada, tiro minhas roupas e ligo o chuveiro. Gosto de tomar banho com a porta aberta, pra já descer de roupão e jantar ali na sala. Coloco o jantar num prato, esquento no micro-ondas e mudo de canal pra ver o jornal da noite. Um terremoto fortíssimo, escala 7.8 atingiu a costa leste do Japão, apesar da força, pelo epicentro ter sido em um local distante do mar, o abalo não causou uma tragédia maior. Ainda assim, se tem indícios de que algumas estruturas foram rachadas e comprometidas, fala-se em pelo menos um morto, debaixo dos entulhos, sem confirmação. A repórter diz que o local do epicentro é quase uma antípoda exata do sudeste do Brasil. Volta pra mais um escândalo. A mesma coisa sempre. Sinto que estou preso no mesmo dia, todos os dias. Aquele abalo sísmico foi a coisa mais interessante de hoje. Desde criança sempre tive uma fascinação por catástrofes naturais, é meio ridículo admitir, mas sempre quis presenciar furacões, vulcões, tsunamis, a uma distância segura, é claro, sem tragédias ou nada disso, apenas aquele evento, único, assustador e até meio excitante, pra dar uma chacoalhada no dia... Mudo de canal e começo a ver um filme.
Se passaram 40 minutos, percebo que não vou conseguir assistir até o final. Meus olhos vão se fechando lentamente, eu os abro, eles permanecem atentos por uns segundos - se recusando a desistir do empreendimento que comecei - e se fecham de novo. Eu gosto desse jogo. Desisto e adormeço. Acordo de supetão ao ouvir um estrondo lá fora. Uma batida muito forte. Meio desorientado, muto a TV, vou até a janela e levanto com cuidado o canto da cortina. A janela é de vidro canelado e me esforço pra observar algo lá fora com nitidez. Penso ter visto uma sombra passar e aperto os olhos. Fico assim por um tempo. Consigo ouvir alguns sons, dessa vez mais baixos, como se tivesse alguém revirando os sacos de lixo lá da rua. Alguns cachorros começam a latir ao longe. Outros acompanham. Os latidos cessam aos poucos e logo param. Fico um tanto nervoso por ter tido o meu sono interrompido e sento no sofá. Continuo vendo o filme, ainda no mudo, sem entender nada de como a história chegou ali. O som constante do motor da geladeira me deixa levemente sonolento. Minha cabeça pende pro lado. Sinto uma pequena culpa de ter sono, de não estar fazendo mais com o resto do meu dia, de não estar avançando, em vez disso parado, amortecido, exausto. A culpa vai indo embora, os sonhos vão entrando. Um estrondo novamente. Dessa vez tenho a sensação de que foi mais perto, bem no portão de casa. Paro outra vez em frente à janela e fico observando. Vejo uma silhueta com formas aparentemente humanas, parada atrás de uma das grades do portão, completamente imóvel. Observo durante um tempo pra me certificar de que é real. De repente, a silhueta se move pro outro lado do portão. Odeio o vidro dessa janela, quero trocá-lo na primeira oportunidade que tiver. Aperto meus olhos e penso ter visto a silhueta se abaixando. Noto que minha respiração está ofegante e eu tremo um pouco. Sinto vergonha de mim mesmo e dou uma risadinha sonsa - como se tivesse alguém ali atrás de mim, me olhando - me desculpando, me desculpando e me defendendo pra um fantasma. Sinto mais vergonha ainda e, de uma forma inesperada, isso me deixa mais calmo. Mas o festival de auto-indulgência e auto-piedade é interrompido por um chiado débil que sai da minha TV. A programação entra e sai do ar. Nunca aconteceu nada do tipo antes. Aperto o botão de mutar e vejo que já estava mudo. Ainda assim, o chiado. Tudo começa a fazer sentido. Uns dias atrás ouvi dizer que um grupo de bandidinhos tavam saindo à noite e roubando os fios de telefone, TV e internet das casas. Como nunca vi, não levei muito a sério. Até agora. Pego meu celular pra ligar pra polícia, mas hesito. Não quero parecer afobado, precipitado. Sempre fui assim. Inclusive, ao ouvir a notícia do terremoto e me lembrar de todas as vezes que quis presenciar uma catástrofe natural, admito que uma voz, lá no canto da minha mente, me desafiava: "Em que momento, em que momento, num episódio como esse, você perceberia o que está acontecendo, o que está em jogo, e começaria a correr, a gritar, a pedir por ajuda. Em que momento você assimilaria a gravidade da situação?". Decidi esperar mais um pouco, pelo puxão da gravidade, mas antes que ela pudesse vir, todas as luzes de casa se apagaram.
Um calafrio correu pela minha espinha. Fui até a porta da sala em passos suaves e me certifiquei de que estava trancada. Fiz o mesmo com a porta da cozinha. Levantei a cortina da sala novamente e fiquei observando. A silhueta ainda estava ali. Provavelmente eram mais de um. Com certeza eram mais de um. Aquele ficaria ali pra avisar se eu saísse de casa, enquanto o outro, ou os outros, cortariam os cabos. Decidi que esse era o puxão da gravidade e decidi ligar pra polícia.
Passei meu nome, meu endereço e informei o que estava acontecendo, e minhas suspeitas de quem eram e o que queriam. A atendente me disse que uma viatura chegaria em dez minutos, pra eu me certificar de que todas as portas estavam trancadas, subir até o meu quarto, pegar algum objeto pra me defender e me esconder debaixo da cama ou em algum armário. Para, em hipótese alguma, confrontá-los, já que eles poderiam estar armados e em um número maior do que aquele que eu imaginava. Subi as escadas e fui até meu quarto. Notei que, desde que cheguei do trabalho, não havia entrado lá. E me assustei ao perceber que o uniforme da minha esposa estava na cama, preparado, como ela costuma deixar minutos antes de se trocar e sair. Vi também que a janela do quarto estava aberta e fui tomado de um pânico imenso, quase paralisante. Fechei a janela com cuidado e liguei pra minha esposa. Ou pelo menos tentei. Eu não conseguia acertar o número de jeito nenhum. Digitava números a mais ou a menos,  digitava o nome errado todas as vezes - Clara - Cllara, Clra, Lara, Allca, Clar, comecei a sentir uma falta de ar e lágrimas se esforçavam pra não correr dos meus olhos. Sentei na cama, respirei, digitei pausadamente cada número e liguei. Alguém atendeu "Clara, tá tudo bem?" Ninguém respondeu por um tempo "Clara?? Clara? Onde você tá?"... Um chiado sutil, então uma voz "Alô..."... Mas não era a voz dela. Onde tá minha esposa? Quem é que tá falando? Clara? Cadê a Clara? "Eu sou a Clara, quem é?" "Clara, você deixou seu uniforme em casa? Você não foi trabalhar? Onde você tá? O que aconteceu com a sua voz?". Uma risada, percebo que ela está num lugar cheio, ouço mais gente falando, uma comoção ali atrás, depois de um tempo sem dizer nada, a voz retorna "Veja bem. Os olhos..." Silêncio novamente, chiado. A ligação cai. Sinto um terror tomando conta de mim e minhas pernas enfraquecem. Olho pra janela e vejo um rosto. Um rosto... colado ao vidro, sorrindo com dentes enormes pra mim, indistinguível da própria escuridão. Mal consigo compreender o que está acontecendo, quando o rosto desaparece. Olho de novo pra janela e não vejo mais nada, começo a me questionar se realmente tinha algo ali em primeiro lugar. Ligo outra vez para Clara, mas ninguém atende dessa vez. Ligo de novo, e de novo e de novo. Nas primeiras vezes ele tocava até o fim, agora nem sequer chama. Me dou conta que muito tempo se passou desde que chamei a polícia, então ligo novamente. Demora até eu ser atendido, explico o que aconteceu pela segunda vez - é a mesma atendente de antes - e questiono porque ninguém chegou até agora. Ela me corta "A gente não vai conseguir mandar nenhuma carro aí agora. Estão todos ocupados... Meu senhor, eu peço que você aguarde debaixo da cama. Não deixe a sua casa de maneira alguma.... Meu senhor, meu senhor. Eu entendo que é grave mas o senhor tem que entender que o seu caso não é nada perto do que aconteceu. Todas as equipes estão ocupadas. A gente tá recebendo muita ligação, todas mais urgentes." Mas o que aconteceu, pelo amor de Deus? Eu suplico. "Meu senhor, o incêndio... nas estações. As estações foram queimadas... Meu senhor, os ônibus. Eu vou pedir pro senhor desligar e fazer conforme o orientado. Eu peço que o senhor libere a linha". A ligação caiu. Consternado, deslizei vagarosamente da ponta da cama, onde sentava, até ficar no chão. Consternado, fui me arrastando pra debaixo da cama, em choque, em indignação, em descrença.

Ali debaixo, continuava tentando ligar para Clara, perdi a conta de quantas vezes. Tentei ligar pra outras pessoas e vi que não conhecia ninguém. Ninguém que me importasse, ninguém pra quem eu abriria essa porta, a porta que dá acesso à minha nudez, ao meu soluço, à minha voz que gagueja. Procurei na internet sobre o incêndio, havia várias notícias de incêndios, incêndios em diversos lugares do Brasil, em comércios cujos donos negligenciaram a manutenção das fiações, em casas cujos moradores esqueceram o gás ligado, a lareira, uma vela. Incêndios criminosos, incêndios acidentais. Vi fotos de um homem que havia colocado fogo em si próprio. De outro homem que pegou fogo sem qualquer explicação. Pessoas que juravam de pés juntos que tavam lá quando aconteceu. 'Do nada, as chamas começaram a correr pelos seus braços, pernas, até engoli-los por completo'. Vi relatos de membros que permaneciam intactos em meio às cinzas. Não vi nada, porém, sobre o incêndio das estações, dos ônibus. Talvez fosse recente demais, os jornais deviam estar recebendo a notícia agora. Foi no meio dessas indagações que ouvi o vidro da janela lá de baixo se quebrar... Ouvi o vidro da janela se quebrar. Estilhaços, passos sobre os estilhaços. A janela se abrindo. Com violência. Eu nunca senti tanto medo na minha vida. Pensei como me defenderia mas não tinha trazido nada comigo. Droga, a policial tinha falado pra eu levar alguma coisa antes de me esconder. Eu sou um idiota, um burro, um distraído. Tenho medo de sair debaixo da cama e procurar. Ouço os passos se aproximando. São leves e rápidos. Parecem os passos de alguém decidido, determinado a chegar em um lugar, com um objetivo claro. Parecem os passos que ouço nas estações e nas ruas todos os dias, passos apressados, atrasados, ávidos pra chegar ao seu destino. Ouço eles já próximos da porta do quarto, até que param. Por debaixo da cama, consigo enxergar apenas uma silhueta, imóvel. Ela sabe que eu estou ali. Começo a chorar silenciosamente. Eu nunca chorei tanto. É o choro de uma vida inteira, de anos em que eu hesitei, em que eu segurei, impedi que qualquer tipo de lágrima caísse desses olhos. Começo a lembrar, sem controle, de toda a minha história até aqui, do momento em que vi o mundo pela primeira vez, em que quis tocá-lo, em que quis mais dele, até quando senti que o havia dominado, conhecido por completo, desmascarado toda a opressão dos seus supostos mistérios. Me senti injustiçado, humilhado, uma humilhação de décadas, soterrado por elas, nunca capaz de levantá-las, de expressá-las, aguentei tudo, tudo sozinho, sem qualquer testemunha, sem qualquer consolo, respirando calculadamente por anos, pra conservar o pouco ar que me restava, gestando dentro mim a semente de uma força, uma força forjada na terra, na areia, na ferrugem e no sangue, uma árvore com sua copa gigantesca que cobria o céu das cidades, um abrigo contra o sol escaldante que roubava diariamente a água de milhões de corpos, suados e exaustos, embrutecidos, orgulhosos. O orgulho, o orgulho, meu único filho, minha única obra. Injustamente tirada de mim, toda a minha história, toda a minha existência. A sombra se aproximou. Eu não quis sair. Senti uma vergonha terrível, uma criancinha, molhada de mijo e de choro, minha água sendo roubada de mim. Fechei os olhos com forças. Senti a sombra se aproximando mais e mais, pude ouvir sua respiração. Anormal. Não é desse mundo. Um calor terrível acobertou todo o quarto, cada vez mais quente, mais quente, mais perto de mim, meus braços ardiam, eu me recusei a abrir os olhos. Vê-lo era ser vencido. Eu me recusei a ser vencido. O fogo tomou minhas mãos primeiro, depois o meu peito e então a minha cabeça e o resto do meu corpo. Exceto pelos pés.

:: Estranho amigo

Essa noite é diferente. Olhei no relógio. Eram ainda duas da manhã mas o céu estava quase violeta: O sol nascia entre os prédios, o horizonte ocultado por aquelas naves gigantescas paralisadas no espaço. Singelos raios de luz tocavam a névoa e iluminavam o chão e as paredes daquele cortiço. A lua, cheia, ainda brilhava no alto do céu, seu reino sendo invadido por um estranho amigo. Que fenômeno maravilhoso. E todo mundo dormindo, tendo sonhos que jamais seriam capazes de imitar o esplendor desse milagre. Olhei pra fresta na madeira do portãozinho de novo, e olhei praquele homem. Desde que acendeu a fraca luz da sua casa, ele me viu. Me viu no portão. E ali ficou, imóvel e atônito. Toda a raiva que eu sentia por aquela pobre alma e todas as outras iguais a ela desapareceu em face da aurora inesperada. Abri o portãozinho e depois a porta. Tava trancada. Fiz alguma força e ela abriu. Ao entrar lá, vi que a casa não podia ser mais que um quadrado. Quarto, sala, banheiro e cozinha no mesmo lugar. Ele olhava com terror pra mim. Eu quis confortá-lo mas parecia que todas as vezes que eu tentava ele se encolhia ainda mais. Peguei nas suas mãos. Completamente submisso, humilhado e destituído de qualquer orgulho. Saímos os dois pelo portãozinho, parados ali, no final daquele beco. Eu jamais iria imaginar que era o mesmo lugar por onde havia atravessado a noite. A luz violeta, dourada e prateada, banhava tudo. Ficamos ali em pé, por vários minutos, observando o Sol se levantar, como fazia todos os dias, sem qualquer noção da sua inconveniência arrebatadora. Do meio dos prédios, ele brilhou. Não tive qualquer vontade de piscar e continuei olhando, bem no centro, no centro do Sol, até que tudo ficou branco. Levei minhas mãos até os olhos pra protegê-los. Ao tirar, vi aquele velho espectador, irresoluto em seu assento. A expressão misteriosa sempre resguardada pelas sombras finalmente se deixou ser vista, nua, raquítica, estremecida e soluçando. O homem estava ali sentado, assistindo tudo, desde o início. A luz brilhando sobre mim, e não sobre ele, e, ainda assim, era ele quem sentia a vergonha, uma vergonha intensa.

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