Como sinto uma dor aguda ás vezes, chamo das partes claras do meu quarto duas irmãs, que aparecem lentamente e serenas. Elas são pequenas, mas velhas, e usam uma máscara de flores pra não parecerem gente, e tem vozes incrivelmente graves pra não parecerem gente e contam histórias pra mim que eu jamais ouvi antes. 'Você sabe', diz a primeira, 'que esta árvore que bate os galhos no seu rosto enquanto você dorme não dará fruto algum, é a árvore do não fruto e da não flor, suas folhas são suaves mas não caem e não param de nascer, a árvore precisa engolí-las de novo, do contrário, desmoronará e se tornará um monte, um monte de plantas que não saem dali, e então se tornará grama e então a árvore não terá nunca valido a pena." A irmã segunda, que tem uma coisa engraçada de não piscar sem apertar o dedo anular, contesta 'é o vento!' e contesta mais 'o vento sopra a árvore com tanta força, pra levar suas folhas, e com tanta mais força ela as mantém, e com tanta mais força ela as prende por dentro, para não perdê-las, mas o vento é mais forte que tudo e sopra lá dentro e lá dentro, da árvore, estão os insetos. Fecho meus olhos porque é tarde, e amanhã corre o boato de que haverá algo logo cedo.
logo cedo
Eu. Um anão em cima do meu guarda roupa me olhando, imóvel. Não sei o que fazer, apenas espero. Após uns longos minutos ele mexe os pés, como que impaciente. 'Você sabe', diz ele 'que o tempo já passou há muito tempo' diz ele 'e que você está em cima da hora, com essas roupas de dormir, e essa cara de sono e este cabelo de sono e um hálito insuportável, que temo você já tenha aprendido a suportar' diz ele. Abro a janela pois faz tanto calor, embora o céu esteja ainda negro como se fosse noite. O anão, lá em cima, anda de um lado pro outro. 'Eles te esperam, há um bom tempo, e estão ficando impacientes' enquanto diz isso, mexe a orelha direita circularmente como se o vórtice estivesse ali: 'Eles não são obrigados a esperar por você ou mesmo pensar em você, nem sequer consideraram um encontro. Este é um interesse totalmente seu. As portas daquele lugar continuarão se abrindo e fechando como o habitual, e tudo o que é habitual hoje continuará habitual sempre. Agora, é comum que você não vá, e se deite e volte pro seu sono, você esquece deles e eles tão mais facilmente se esquecem de você. Porém me pergunto, se você esqueceria mesmo, da roda girando lá fora, com o ruído ensurdecedor e com tudo se convergindo a ela. Eu respondo que não e aconselho que se levante agora e que corra tanto quanto possa pois a ruína já gangrenou em suas pernas e na ponta de seu nariz e em seus lábios e digo também que corra mais e mais e mais porque todo o seu esforço será pouco para compensar o abandono e o descaso'
O endereço
Era á direita. Mas partindo de qual direção? Ele me disse que haveria um pântano, depois um deserto, então uma cidade cheia de luzes e construções inacabadas e nessa cidade outro pequeno deserto e virando á direita eu veria, a mansão, com seus portões habituais. Ando tentando disfarçar que não sei pra onde estou indo, penso em perguntar pra senhora que está parada na calçada mas temo que me dirigindo a ela eu ouça palavras estranhas que uma vez já ouvi serem suficientes pra trazer ao dia o demônio que atenta o espírito. Aliás percebo que, não somente ela, mas também umas outras nos dois lados da rua observam e cochicham. Começo a suar e aperto os passos, mas não demora para eu tropeçar num paralelepípedo que se salientava logo á frente. Eu não olho mas ouço rirem, uma delas tenta conter o riso abanando com a mão e se vira em seguida. Eu me levanto e com mais pressa viro a primeira rua, não importa onde dê. A mansão está em algum lugar.
A rua onde entro é um beco estreito com duas bancas cada uma de um lado atrás das quais estão um homem segurando caixotes com alfaces podres e uma mulher bem velha ou cansada lavando peixe. Olho para suas mãos habilidosas com a faca, e a faca no peixe e o peixe vivo e penso de onde vem esses peixes será. Olho para atrás do vestido encardido da mulher e percebo que uma criança que deve ser filha sua mexe numa poça imunda que se formou no chão, então faz uma cara de surpresa e tira um peixe, o entregando para a suposta mãe, e faz isso de novo e de novo. Tira dali uns 15 peixes, todos enormes e com um cheiro fortíssimo. A mãe os corta no meio e joga do outro lado, para o homem com os caixotes de alface. Ele envolve o peixe com sua alface podre e come, insaciável. Sigo e me deparo com uma pequena floricultura. Não há ninguém lá, então resolvo entrar. Pergunto á atendente 'Ei, onde fica a mansão?', algo deve estar errado pois ela não responde. Me aproximo e tento ser mais claro 'Ei, com licença, você sabe onde fica a mansão???', mas ela novamente não responde. De repente, percebo que estavam ao meu lado uma mulher de meia idade e um adolescente. Me olhando suponho, pois notei que viraram os olhos. Por não saber o que fazer, pergunto a eles 'A mansão, sabe onde fica, por favor ', a mulher hesita um pouco, olha para o garoto do seu lado, ele sussurra algo e ela responde que não, enquanto tenta evitar um sorriso cínico que escapa por entre seus lábios. Me viro para sair mas minha blusa enrosca num parafuso da gôndola e derrubo os ramos que estavam lá. Me abaixo para pegar, alguns rolaram para perto do pé da atendente. Agachado, pego um por um e percebo que todos continuam no mesmo lugar. Coloco tudo de volta e peço desculpas um pouco atordoado, mas eles parecem não notar nada. Ao deixar o lugar olho pra cima um pouco e me amaldiçoo por não ter visto antes. Parece a mansão. Parece longe também, mas vê-la já é um caminho.
Andar
Eu ando então, tento evitar as ruas movimentadas mas me perco muitas vezes e penso se não é melhor seguir mesmo pelas ruas movimentadas. Sigo assim, entre as grandes ruas e alguns atalhos até chegar próximo do que parece o pequeno deserto que o anão havia me alertado antes. Vejo ao longe, sem tréguas, uma cortina de areia imensa, no deserto minúsculo, penso em correr de volta, mas sinto um mal estar por parecer precipitado da minha parte. A cortina não para e eu me cubro com os braços. Os grãos entram no meu nariz e na minha garganta. Por um instante eu aguento mas tenho dúvidas se não é melhor voltar e tentar outro caminho. Olho pra trás e devido á tempestade vejo apenas silhuetas, silhuetas observando, distante, imaginando onde dará tudo isso, esperando o incrível momento onde poderá-se rir tanto, tanto, que tudo terá valido a pena, a desgraça e a resignação. Apesar disso continuo, com a garganta seca e o nariz entupido, tentando a todo custo me esquivar da cortina interminável que me atinge. E assim, aos poucos, percebo se formar adiante, o que parece uma casa. Chama a atenção seu tamanho. Conforme passa a tempestade vejo melhor. Deve ser ali mesmo. Devem estar me esperando há um bom tempo. Devem estar impacientes. Provavelmente eu levarei uma bronca ao chegar. Não deverão inclusive achar legal que as roupas estejam cheias de poeira e com cheiro de crisântemo e peixe. E se perguntarem que caminho peguei, eu não saberei responder. Antes de continuar me permito sentar um pouco na grama, que aqui é mais esverdeada, para então me recompor. Com a minha própria saliva tento ajeitar o cabelo e limpar o sapato.
Portões
Portões. 'O único portão', tinha dito o anão. Ando por todo o perímetro da mansão. Alguns de seus salões são cobertos por vidros e vejo lá dentro várias pessoas sentadas e conversando. Percorro ás suas voltas e não encontro a entrada exatamente. Tateio a parede pois pode ser que eu não esteja enxergando devidamente por conta da areia. Dou a volta três vezes por toda a mansão. Na terceira, as pessoas que estão no salão de vidro claramente se exaltam e um pequeno rumor tem início. Volto um pouco o caminho, pra ver se é possível, de longe, encontrar a entrada. Infelizmente sou obrigado a rodar toda a propriedade de novo. Algumas pessoas do salão de vidro encostam e viram a cabeça para assistir o ridículo espetáculo. Corro e me encosto atrás de uma viga protegida do sol escaldante. Um homem que, ao que tudo indica, é o segurança do local sai detrás de uma das vigas. Eu então o chamo, com desconfiança, ele olha e eu pergunto 'A entrada, onde fica???' -'A entrada' diz ele, 'A entrada', repete, no que continuo 'Sim, eu rondei todo o lugar e não encontrei porta nenhuma, talvez eu esteja no lugar errado mas mesmo que esteja é muito importante para mim agora saber por onde as pessoas entraram aqui'. O segurança, como que já esperando a pergunta responde com um sorriso inocente 'Sim, claro, é preciso que se saiba por onde se entra, do contrário, como entrará?' Ele põe seu braço em volta do meu pescoço e olha pra cima, uns 15 metros acima. Avisto ali então uma porta, cercada por uma alvenaria toda cinzenta e maravilhosamente habitual e aberta. 'Bem', diz o segurança da mansão, acredito que o senhor esteja atrasado já que não conseguiu identificar a entrada. Talvez seja de má fé minha se eu não te der alternativas agora mas você pode entrar por outro lugar também. Vem aqui', ele me puxa gentilmente e caminha pelo meio jardim, onde fica uma escultura de alumínio de um rosto, sem olhos, mas com uma expressão rude e inflexível e também uma fonte, desligada e já bem antiga aparentemente. Ele continua andando pelo jardim até perto de um bosque, há quase 15 metros de distância da mansão. Puxa então uma alça no chão, com alguma força, e levanta a portinhola, coberta de poeira e lama e musgo. 'Eu só posso te ajudar até aqui. Na verdade eu não sei exatamente pra onde este caminho leva. Mas já vi pessoas entrando desesperadamente por ela. Dias depois, estavam lá dentro, no salão de vidro, sentadas e conversando. Já vi algumas caídas, mas toda vez que uma nova pessoa chegava e se perdia, lá estavam eles observando, calados e sorridentes. Eu espero que além disso, tudo dê certo lá dentro, pois já passa da hora, e há a impaciência, a vida é curta, a estrada é longa e árdua, a tempestade vem sempre, e ainda assim se chega. Eu espero que dê certo lá dentro, do contrário, penso que talvez você tenha um pouco mais de dificuldade de sair.''
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
água
da próxima vez quem sabe. Tem um lugar agora que conheço, é o lugar onde está deitado um corpo que parece o meu, com sua boca aberta e com um peixe tigre se debatendo lá dentro. Quando abriram os portões desse lugar, talvez até tivessem imaginado, talvez não, sobre as águas que entrariam. Não há remédio. O sono leva tudo, como a morte, mas ao contrário da morte, o sono não é de todos. Algo foi levado e o sono, o sono não veio, finalmente os sonhos abandonaram. Cada coisa no seu espaço, de onde jamais deveria ser tirada. Na perfeita harmonia do mundo. Tudo em seu devido estado e tempo, conforme é sempre. Sempre estar agora. Os vultos vem e vão detrás do poste e não gostam de ser observados, no entanto porque eles saem á luz? De quem era aquela voz suave que me guiou até aqui? Eu olho pra trás quando dizem que se deve olhar pra frente mas todos os lugares são o meu passado. A vida está pendente e nunca haverá silêncio. Amenizar o grito. Amanhã é dia de jogar bola, esperamos que o dia esteja claro e fresco e que ninguém desista. Depois do jogo conversaremos e contaremos umas piadas, então riremos e contaremos umas outras, e quando o dia estiver virando outro dia contaremos tantas quanto for possível até que o riso subsista por si só sem que ninguém precise criá-lo. A criação é divina. O martírio sutil. Venta na estrada de volta, pra casa. A família é toda estranha. A amizade é toda estranha e o amor é o diabo. A violência conforta, a tristeza diz que sim e a gente vai então. Naquele beco nunca houve tantos corpos antes, amontoados, uns tentando entrar nos outros, pra ver se acham, a coisa perdida. Quando eu toco em alguém, quero entrar lá, pra ver com aqueles olhos, o que não consigo enxergar com os meus. A semana que passou se parece com a que passa, exceto que o sorriso é mais sincero. Muitas outras se passarão e pra cada resposta muda que foi ouvida haverá um suplicio igualmente mudo, porque eu não estarei satisfeito nunca.
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