quando você era criança a coisa veio te visitar, com berros ensurdecedores e uma presença nociva, no início apenas de noite, depois no final da tarde e então logo de manhã, sua mãe dizia 'não tem nada aqui', você realmente não a via mas sabia. Você dormiu e quando acordou, a coisa tinha ido embora.
Você cresceu e chegou á adolescência, a coisa voltou, não só uma mas várias vezes, te abraçou inclusive e foi a única que esteve ao seu lado. As palavras que dizia no seu ouvido ninguém jamais poderia dizer com tanta veracidade. Um dia você abriu a janela, tinha um jardim lá, sem flor nenhuma, você não sorriu mas se sentiu bem. Virou para o quarto, a coisa tinha partido.
Você amadureceu, arranjou um emprego, um amante, um partido político e uma religião. Um dia dormiu e quando acordou a coisa estava lá de novo. Só que mais fria, não berrava mais, parecia inofensiva até, não se moveu nem um instante. Você viu os dias passarem e a coisa esteve presente em todos eles. Quando se entregava aos prantos e ao calor da cama, a coisa nem uma palavra dizia mas olhava sem piscar, para dentro do seu rosto. A coisa te tomou por completo sem sequer se mexer. O seu amante se cansou da sua coisa. A coisa te fez se cansar do seu trabalho. A sua religião não atendia ás necessidades da coisa. O seu partido desconhecia a coisa. A coisa crescia, você diminuia. A coisa silenciava, você gritava. Você chorava, a coisa sorria. Um dia você dormiu, quando acordou sentiu uma coisa.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
segunda-feira
na segunda feira os sons são todos abafados e o ouvido é surdo. A boca se abre, os braços caem, os pés se tocam, os olhos se fecham. Uma mulher vestida de azul abre a porta da sua casa e observa a rua esperando alguém passar. Passa uma senhora, de braços caídos. A mulher diz olá, a velha sorri.
terça-feira
uma bola do tamanho de um pêssego percorre o caminho da avenida até a mata e entra por um buraco. Uma raposa que mora lá dentro parece feliz ao vê-la. Pega a bola com suas patas, caminha até o fundo da toca e a joga na direção de três raposinhas do tamanho de um vagalume. Estão mortas. Alguém cobre o buraco com terra.
quarta-feira
três garotas acordam ás oito da manhã, põem seus melhores vestidos, e os melhores sapatos, fazem os melhores laços no cabelo. Laço amarelo, laço vermelho, laço torto. Vão se sentar no banco da praça. Três outras garotas estão sentadas no banco logo á frente. Com seus melhores vestidos, melhores sapatos, melhores laços e um aspecto mais agradável.
quinta-feira
uma mãe sozinha chora na cozinha, segurando uma faca, segurando um peixe. O filho pequeno entra pela porta, observa a mulher, estranha, sente medo. A mãe chora o tempo todo e quando tenta gritar, mia. O filho vai até o quarto, toca as paredes suavemente e deixa deslizar as unhas até perdê-las. Pega um espelho. Dá á mãe. A mãe olha. O filho a pega no colo.
sexta-feira
o homem se levanta da queda, contorna o olho com uma cor escura, deixa os cabelos caírem nos olhos. Morde o lábio inferior, veste seu casaco novo com cheiro de velho. Pára na frente do espelho, pergunta algo numa língua estranha. Encosta o polegar na maçã do rosto, olha para os lados, abaixa a cabeça, vai até o armário, usa o perfume que ainda não pagou, volta para o espelho, bagunça o cabelo, sorri, faz expressão de apatia, de superioridade, de carência, de solidão, de volúpia. Tira o casaco, a maquiagem, massageia os cabelos, vai dormir. O cheiro fica até o dia seguinte
na segunda feira os sons são todos abafados e o ouvido é surdo. A boca se abre, os braços caem, os pés se tocam, os olhos se fecham. Uma mulher vestida de azul abre a porta da sua casa e observa a rua esperando alguém passar. Passa uma senhora, de braços caídos. A mulher diz olá, a velha sorri.
terça-feira
uma bola do tamanho de um pêssego percorre o caminho da avenida até a mata e entra por um buraco. Uma raposa que mora lá dentro parece feliz ao vê-la. Pega a bola com suas patas, caminha até o fundo da toca e a joga na direção de três raposinhas do tamanho de um vagalume. Estão mortas. Alguém cobre o buraco com terra.
quarta-feira
três garotas acordam ás oito da manhã, põem seus melhores vestidos, e os melhores sapatos, fazem os melhores laços no cabelo. Laço amarelo, laço vermelho, laço torto. Vão se sentar no banco da praça. Três outras garotas estão sentadas no banco logo á frente. Com seus melhores vestidos, melhores sapatos, melhores laços e um aspecto mais agradável.
quinta-feira
uma mãe sozinha chora na cozinha, segurando uma faca, segurando um peixe. O filho pequeno entra pela porta, observa a mulher, estranha, sente medo. A mãe chora o tempo todo e quando tenta gritar, mia. O filho vai até o quarto, toca as paredes suavemente e deixa deslizar as unhas até perdê-las. Pega um espelho. Dá á mãe. A mãe olha. O filho a pega no colo.
sexta-feira
o homem se levanta da queda, contorna o olho com uma cor escura, deixa os cabelos caírem nos olhos. Morde o lábio inferior, veste seu casaco novo com cheiro de velho. Pára na frente do espelho, pergunta algo numa língua estranha. Encosta o polegar na maçã do rosto, olha para os lados, abaixa a cabeça, vai até o armário, usa o perfume que ainda não pagou, volta para o espelho, bagunça o cabelo, sorri, faz expressão de apatia, de superioridade, de carência, de solidão, de volúpia. Tira o casaco, a maquiagem, massageia os cabelos, vai dormir. O cheiro fica até o dia seguinte
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