segunda-feira, 30 de julho de 2012

domingo

Era noite quando deixei o lugar que vivia, assombrado por vozes desconhecidas, que produziam frases desconhecidas com palavras conhecidas, em cujo interior morriam tantas outras e elas próprias. Era dia quando deixei o lugar que vivia. Um caminho coberto com pedras á minha frente e se eu ousasse olhar ainda  assim veria sua inclinação, para o céu e depois para o nunca. Era dia quando o segui.
Já eram dez passos dados quando a primeira flor gigante rasgou o chão e prostrou-se no caminho. 'onde vai agora não tem destino, não tem resposta' no que respondi 'não sei' no que retrucou 'está dito' e então voltou para o fundo da terra. Algumas pétalas da flor maldita entraram nos meus olhos e o seu perfume era o dos defuntos que levaram consigo mais vida do que já vivi. Alguns outros passos e vem o gavião sorrateiro, gigante do tamanho de um navio naufragado - 'eu sei muitas coisas, aprendi com homens que sabiam muitas coisas dentre as quais nada sabem' onde perguntei -'de onde você vem há algum lugar que se queira ir?' -' há ainda esse lugar, ele dorme' -'e suas asas?' -'não enxugam meus olhos'.
Na terra verde, havia casas adiante, havia pessoas nas portas das casas, havia uma casa em particular, tão parecida com a casa da minha infância, que desapareceu numa bela manhã e a qual procuro para sempre 'é esta casa, a casa de todas as manhãs' Sai uma senhora de 400 anos e sua irmã de 400 anos -'Esta casa é a casa da noite eterna, foi onde matei meu corpo e ele se regenerou em segundos' -'que ainda faz viva?' -'vingança' -'este solo é infértil' - 'todos são, no entanto o fruto que alimenta a mim e aos outros homens é o fruto do nada e do óbvio' e a voz ressonante de sua irmã completa 'há algo no nada e no não nascido que sacia uma fome aguda que um dia começamos a sentir, meu estomago apertou tanto que olhei pelo campo e no lugar do nada vi uma parede e dentro dessa parede mil bacias que dois anos antes eram apenas ostras, e então pérola alguma, a pérola estava atrás da parede que por acaso não estava ali' a primeira prosseguiu -'apontei para o céu e não soube se estava apontando para a cor ou para a forma, ou para a palavra ou para mim mesma, eu descrevo coisas com o intuito de explicá-las e então eu as compreendo, na sua total incompreensão, e vejo que não apontei nunca para algo mas todo o algo,as formas, as cores, as texturas, as estranhezas e as ambiguidades, se apontava para o meu dedo', me convidaram então para entrar e tomar um chá -'não posso há tanto caminho' -'há sim' e trouxeram o chá. Enquanto segurava a xícara, me olhavam com o olhar fixo, num momento tão breve percebi que estavam mortas, que nunca estiveram vivas -'nunca', disseram em uníssono. O chá, que chá ruim, não tinha gosto de chá, tinha gosto de lombadas, eu tentei me lembrar do gosto de chá e ele morreu, o gosto, comigo há uns tempos atrás. -'este é o tempo de novos chás!'. Essas senhoras sabem tudo, eu penso, elas veem as minhas palavras não ditas se formarem em meus olhos e eu me pergunto se elas movimentam minhas púpilas ou se minhas púpilas as guiam. Minha mãe disse algo sobre um homem que podia ler pupilas em cada minimo movimento delas, que havia uma palavra dada para cada estado e posição da pupila, mesmo que nada significasse a palavra. Uma das senhoras me contou, com voz de uma doce menina' estamos aqui do seu lado pois precisamos de você aqui, nos sentimos solitárias, em duas, e nos sentiríamos também em três, por isto vamos reparti-lo em dois, para que cada metade possa nos mostrar o infinito', a outra continou -'você parece a gente quando jovem e talvez além disso, a gente quando imortais'. Eu senti medo e ela soube, através das minhas pupilas -'esse medo não é o maior dos medos, entretanto todos os medos são os maiores medos' -'se eu vivesse até os 400 anos meu maior medo não seria maior que o meu medo primeiro ainda assim, me sentiria sem ar'. Não há ar. Fui embora.
Atrás de mim, bem atrás, ouvi o estrondo que era o da flor que rompe o chão, lembrei das suas pétalas, que arderam meus olhos antes e que agora eram eles próprios e continuei. Um cavalo de carga veio até mim apoiado em suas patas traseiras, lentamente, e me propôs -'se você olhar bem um homem', respirou tão fundo quanto pôde -'se olhar bem para um homem, verá cada átomo seu, e após isso cada particula que os compõe' respirou -'e se for da sua vontade olhar ainda mais, verá mãos, e pernas, e também uma estrada, se continuar, verá seus olhos e, se ainda ousar, verá lágrimas', e então se pôs ás quatro patas galopando tão lindamente pelo caminho que hei de seguir.
Encontro uma bifurcação, que sempre soube que apareceria em algum lugar, ouvia uma lenda antes que dizia que as crianças nasciam nas bifurcações e que os pais eram o vento e a tristeza. Acima de mim percebo uma estrela que existiu há uns bilhões de anos atrás e que hoje é somente a luz da sua memória. Essa estrela ainda existe. Enquanto ando, percebo que não sei pra onde estou indo ou como cheguei até ali, sinto uma força constante e caótica me puxando para um lado e para o outro. As pedras riem. Eu me abaixo e as tateio, tateio toda sua solidez inanimada, então uma pequena pedra protesta -'tudo no cosmo tem vida'. Eu sento ali e me pergunto, e pergunto também ás pedras, que agora tem vida -'o que eu quero?' -'você quer o fim do caminho' -'e o que há lá?' -'lá há você' -'e o outro?' -'o outro não há, não há nunca, sobre o outro você anda' -'mas eu estou aqui' -'não está, nós te tateamos e sentimos a solidez inanimada do seu eu, você está longe como qualquer pessoa que passa por aqui' -'quanto ainda devo andar?' -'você deve apenas andar'. As pedras então se enterram na terra molhada e uma única, a mais rudimentar de todas sussurra -'uma hora você pensará ter amado, sem nunca saber que há uns tantos milhares de fetos no útero dessa palavra e que todos são monstros dentro dos quais você assoprou vida. Você corrompeu, e estuprou. Seus filhos nascerão sem olhos'.
Andei, e ainda sentia essa força que move todas as particulas, aleatoriamente em alguma direção.

domingo, 3 de junho de 2012

passarinho

um animal desconhecido veio de longe, devorou uma criança que passeava, levou a criança no seu estomago e regurgitou suas mãos sobre a poça, que boiaram até o mar e de lá balançaram. Um peixe arisco as mastigou e morreu em seguida. No sul do país uma mulher que enlouqueceu disse ter visto um olho no meio do sol. Um muro velho caiu sobre uma senhora igualmente velha, um cachorro dormiu sob um pneu, uma mãe viu partes de seu filho dentro de uma sacola de cebolas, uma esposa descobriu que era solteira, um antigo amigo voltou de longe, uma mariposa assustou o bebê, dois aviões se colidiram no céu, a porta de uma casa emperrou, dois braços que remavam foram amputados, uma linda garota percebeu uma linda coisa, todas as lagrimas do mundo viraram ponta de lápis, a luz que era amarela se apagou, um homem engoliu um cacto, um senhor disse sentir coisas que não podiam ser provadas, uma mulher encontrou a verdadeira felicidade e a perdeu logo em seguida, um gavião comeu uma cobra de vinte e três metros, um pai disse a enteada que iria passar, uma boca sempre muda disse algo no dia da sua morte, as dálias se tornaram touros sem que ninguém visse, uma estrela brilhou intensamente até explodir, cinco homens se sentaram e sorriram sem razão, uma familiar que morava longe disse que sentia saudades, dois amantes que nunca se viram nunca se verão, uma pedra foi jogada na água e pulou pra sempre, um homem contou todos os números e encontrou o último, em seguida morreu, um outro homem então começou novamente.
A vó contou
Era um homem mas acima de tudo era uma mulher mas acima de tudo era um filho mas acima de tudo era solitário mas acima de tudo era feliz mas acima de tudo faltava algo mas acima de tudo faltava pouco mas acima de tudo as vezes chorava mas acima de tudo não enxergava mas acima de tudo percebia mas acima de tudo havia algo mais mas acima de tudo não havia nada a ser feito mas acima de tudo correu quão rápido pode mas acima de tudo nunca saiu do lugar mas acima de tudo gritou mas acima de tudo esteve sempre calado mas acima de tudo quis mas acima de tudo somente desejava mas acima de tudo amou mas acima de tudo era indiferente mas acima de tudo não entendia mas acima de tudo não tentava entender mas acima de tudo sentou-se numa poltrona mas acima de tudo havia a sede mas acima de tudo o desespero mas acima de tudo o corpo mas acima de tudo girava mas acima de tudo poderia acontecer mas acima de tudo acabava mas acima de tudo existia mas acima de tudo nada mas acima de tudo não importa mas acima de tudo tudo acima de tudo nada importa acima de tudo silencio

quinta-feira, 31 de maio de 2012

casa

Seguro suas mãos, que são de vento e se dissipam. Aperto seus ombros e sinto todos os ossos dos meus dedos. Olho dentro dos seus olhos, que olham para o sol. A luz do sol reflete nos seus olhos que passam de castanho para laranja depois verde depois castanho. Sinto seu cheiro, não de hoje, de ontem, é o cheiro das coisas que existem só na memória, não há no mundo lugar onde se possa sentir tal cheiro. Seus pés são grandes e leves, não foram feitos para caminhar, você flutua para longe.
Estou deitado, na minha mente já dormi mas a voz diz que ainda é real. Estou no mais escuro do meu quarto. Estou no mais profundo da cama, que é de lama. Estou mais próximo de você. A janela se abre, um anel de luz azulada atravessa o quarto e desaparece, mas o ilumina por três dias. Vou até a janela, a tempestade passa assoprando, eu digo olá. Olho para um ponto bem distante do horizonte onde as folhas das árvores se fundem com o negro da madrugada do céu. Lá é minha casa mas eu apenas sei. Venta forte, é você que ainda não se foi. Quando fecho os olhos e procuro por mim, uma porta se abre. Atrás dessa porta há um corredor coberto com plantas e atrás dessas plantas uma pequena janela. Dela vejo cada passo seu em direção a bem longe. Vejo também a mim mesmo, não completo mas em partes. Meus braços estão em todos os muros da cidade, minha cabeça está dentro do peito de um cavalo morto no lago. Meus pés são a samambaia. Minha língua é um peixe abissal. Meus cabelos formam moléculas num lugar aonde não posso chegar. Meus olhos são a cama de prego em que deito. Me concentro por algum tempo, que é pouco mas parece muito. Minha testa se parte ao meio e dela sai um pedaço de carne, como a barriga de um homem mas com uma boca no meio. Desta boca sai um som débil e incessante. Levo-a comigo por entre as árvores e a enterro. Nos dias seguintes, o dia ainda é o mesmo. Pessoas se reúnem em volta do meu quarto que nunca toca o chão. Eu sinto medo e indico um caminho. Aponto para o bosque. Lá desenterram a boca inquieta e levam para suas cozinhas. Depois de lavá-la, a cozem e preparam uma sopa. Todos são convidados pra comer num banquete sob uma forte chuva, que enche todos os copos. Comem por muito tempo e arrotam em quase perfeita sintonia, juntos, durante várias horas.

sábado, 26 de maio de 2012

poema das coisas

na cidade tinha um rio que transbordava toda noite e desaparecia toda manhã
na nuvem tem um rosto que sorri e se desfaz
na pedra morava uma velha que não viveu um único dia
na cabana tinha uma mesa com comida quente o tempo todo
a árvore balança porque quer fugir
a escada tem fim pra que o homem possa subir de novo
a luz iluminou o quarto pra escuridão ser percebida
o peito dói porque é deformado
o pé bate no chão pra que o chão caminhe
a mulher fala duas vezes pra dizer uma terceira
na casa tem janelas pra você sair lá fora

sábado, 12 de maio de 2012

na casa em que moro, um quadrado, acordei, meio morto meio vivo. Na noite passada não me lembro de ter ido dormir, mas lembro da confusão. Lembro de uma pergunta que alguém fez, alguém que não estava lá antes. Lembro de não ter podido respondê-la e lembro da vergonha. Tinha essa árvore na janela da casa em que moro, e por ela entrava uma luz laranja que é a luz da noite, entrava também os estranhos e na noite passada entrou um.
Entrou o estranho e desapareceu no espelho. Eu vi este rosto, então não me recordo se depois dormi, se corri pelas ruas, se ri, se disse coisas que não eram as que eu sentia, se disse verdades que desconhecia, se falei sobre coisas que não sei.
Agora já é amanhã, e eu acordo, ou durmo. Tem esses olhos que são os meus e tem esses outros que vejo quando os abro. Acima de mim flutuando, me encaram, sem piscar. Percebo que na verdade não olham pra mim, mas pra minha direção. São olhos que infiltram no mais profundo nada. Eu os chamo, em silêncio, mas eles apenas observam. O olhar é constante e parece me penetrar mas o sinto saindo pelo outro lado. Os olhos não olham pra mim. Eu olho pro lado. Me vejo acordando. Me vejo olhando. Levanto e encosto. A casa em que moro se tornou menor e não consigo ficar de pé. O outro de mim que vejo vê outro de mim sentado no chão, entre o sonho e a vigília, mas sempre cantando. Nós todos sentimos algo rasgando a garganta porque todos gritam. Os olhos apenas olham, pra cada um de nós três e nenhum de nós três. Os olhos são o céu, distante, belo e intocável. Pra sempre aqui, mas só daqui. Minhas mãos se estendem e assim ficam. O outro de mim estende as suas também. O terceiro de mim apenas deixa ser. Os olhos percorrem todo o cubículo que agora tem metade do meu tamanho. Me levanto e vou até o espelho. Um quarto de mim surge e me recrimina, deixo ele no espelho pra sempre trancafiado. Vou até a janela, o terceiro de mim pula mas não cai jamais, paira no ar eternamente. Os olhos olham e um riso é ouvido por todas as partes, de lugar nenhum. O segundo de mim ri também, sem achar graça. Eu paro por um instante e o observo, imóvel. Ele percebe e me olha também constrangido e surpreso. Depois sente medo. Sente medo e desvia os olhos para o espelho. Olho para o espelho e seis olhos me olham de volta, além dos olhos. Ouço uma palavra 'luta', de lugar nenhum. Não faz eco e morre envergonhada. O segundo de mim chora em silêncio. Eu o odeio. Eu o chuto e ele chora. Ele chora e eu o arranho e grito. Eu o empurro. Ele tem as mãos nos olhos e não as tira. Eu puxo suas mãos. Ele não tem mais olhos. Lágrimas transbordam do buraco em seu rosto. Eu o mando parar. Eu o odeio. Eu quero matá-lo. Mas ele não tem olhos. A casa que moro está encharcada e cada vez menor. A água não para de escorrer e chega aos meus joelhos. O quarto de mim que ri no espelho, amaldiçoa no espelho. Eu o olho. Ele me percebe. Ele diz 'já me afoguei antes', eu pergunto como foi, no que ele responde 'foi assim'. E nada acontece. Os olhos sorriem. Os olhos já estiveram por toda a parte e tudo o que busco os olhos já viram outros buscarem. Os olhos conhecem mas nunca contam. O quarto de mim pede para me aproximar. Eu tenho medo. Um medo horrível. Um medo que não se pode ter na casa onde se mora. Mas vou. Me aproximo do espelho e de repente não sei qual de nós é o reflexo pois ambos nos mexemos de maneira distinta e dançamos nossa própria canção. Percorro os olhos pelo espelho - embora não saiba de que lado estou - e vejo o segundo de mim, com a mesma fenda no rosto, mas tranquilo. Vejo um quinto de mim que talvez seja o primeiro deitado onde antes eu estava, olhando para cima, encarando o nada. O segundo de mim olha para o quinto de mim através do espelho, onde eu posso estar. Um acorda, o outro dorme. E vice-versa. Eu toco minhas mãos no espelho, que é uma janela. Eu pulo. Jamais caio, mas caio pra sempre. Sobre mim vejo de novo, os olhos. Os olhos acima e abaixo, os olhos dos lados. Os olhos nos meus sapatos. Os olhos num sapo. Os olhos um guarda-chuva. Os olhos dia de sol. Eu acho que amo os olhos, que nunca olham pra mim, mas sempre em minha direção. Enquanto caio vejo os outros de mim pulando também. Alguns voam. mas eu não sinto as asas. Nem o chão. Os olhos me afligem. Eu quero que me veja. Eu quero que me vejam. Que me restaurem a ordem das coisas apenas ao me fitar. Os olhos continuam imóveis e penetrantes. Colapsados em si mesmos, que é de onde eu ouço o riso, que na verdade é parte de uma música que tocou desde o início, quando acordei ou dormi. Eu pergunto aos olhos 'o que você vê?', mas ninguém responde.

sábado, 5 de maio de 2012

um

em três lugares distintos eu agonizo, no quarto eu morro. Depois, retorno e me vingo do crime com raiva e lamentação. Num dia comum eu nasci. Olhei minhas mãos e faltavam dedos, não pude pegar o martelo, nem a tesoura para cortar o cordão umbilical. Minha mãe morreu no meu parto e posteriormente no parto dos meus irmãos, que ainda não nasceram e que nascerão mortos. Hoje caminha velha apesar de tão nova, na flor dos seus cinquenta anos desabrochou três séculos que parecem três meses se você olhar cinquenta anos depois. Olho no espelho. No lugar dos meus olhos há um outro espelho que reflete a mãe. A mãe é um bebê carregando um outro bebê que morreu antes de existir. Olho nos olhos do bebê onde também há um espelho que não reflete nada. No nada há uma compilação de pequenas coisas que se amontoam e formam algo, mas estão cansadas e perdidas. A mãe diz com voz de anjo 'haverá de ser'. A mãe da mãe a abraça. Ninguém abraça o filho, exceto os braços. Uma outra voz inquietante e que já não diz nada ainda fala sobre amanhã. A mãe alimenta o filho. O filho sente fome.

Dois
Chega de noite uma senhora. No seu rosto todos os lugares por onde passou e por onde evitou passar. Ela chama por mim, sem falar meu nome. Eu a atendo. Ela diz sobre os cactos. Você quis dizer ratos? Eu quis dizer oceanos. Eu entendo poeira sobre o copo. Ela me fita. Eu sorrio timido, quando alguém me fita assim eu não sei pra onde olhar então olho pra tudo o que está ao meu redor. Ela me fita por horas. Não há mais nada pra se olhar ao redor. Olho pra mim mesmo. A senhora estava lá me esperando. Ela me mostra um dos lugares pra onde foi. Reconheço a placenta, o berço e a fome. Ela me manda prosseguir.

Três
Encontro essa fruta que não tem gosto de nada. Cuido pra não comê-la de novo, mas não vejo outras frutas pelo caminho. Um cachorro sentado numa pedra distante diz que é melhor entrar nas cavernas, 'mas isto é uma caverna' digo, ele diz 'sim mas e então?'. Bato meu pé com força no solo que racha e abre um buraco. Caio e toco o chão novamente com outro cachorro sentado numa pedra distante que diz também sobre a caverna, fazendo com que eu bata o pé de novo e caia. E toco o chão. E nele bato. E nele toco. E nele bato.

Quatro e último
Sobe nas montanhas uma figura estranha, colorida e brilhante, que emite um som harmonioso e remete a coisas que eu sei que são minhas mas que nunca conheci. Lá atrás caminha minha mãe, com suas pernas esmagadas, com sua mãe no colo e seus filhos no ventre. Eu tento entender porque estou ali e sinto o liquido amniotico na minha boca, que me afoga. A figura se torna opaca e distante e a montanha desaba. A mãe ri. Eu vejo a mãe na montanha, numa outra montanha da qual hoje se ouve apenas o eco da sua destruição. Olho pra cima e vejo outras montanhas formadas de outras substancias, montanhas que não tem fim, nem começo. Vejo outras mães flutuando sobre elas. E mães que flutuam sobre seus destroços. E mães que carregam suas montanhas no bolso. E seus filhos no bolso. E mães que nunca tiveram mãe. Olho pro oceano de novo, penso 'ele mata'. E penso 'ele leva'. E penso no útero e olho pra mãe. Eu tento dar minhas mãos mas nelas faltam dedos e os poucos dedos que restam dançam uma dança sombria que é a dança da minha vida. Digo 'desculpa' e deixo a mãe morrer. O corpo se decompõe instantaneamente e se junta ao solo. Seus fluídos correm até o oceano e formam embriões. E do oceano nascem meus irmãos. Nasce também minha mãe, mas eu espero um pouco ainda.

terça-feira, 1 de maio de 2012

o contraste

num caminho dividido por seis outros caminhos e dois riachos e duas escadas sem fim. Em cada um dos seis caminhos doze maçanetas sem portas e quatro janelas que dão pra onde você está. No fim de cada escada sem fim um tigre vestido de deusa segura numa mão um arco e na outra um quasar. No fundo de um dos riachos nada uma sereia que é metade mulher, metade mulher. Mais fundo no mesmo riacho dorme um homem sossegado e suspenso que ás vezes acorda pensando em dormir. Embaixo do homem dançam os peixes sem compasso e ritmo. Embaixo dos peixes dormem os prédios imóveis e distantes. Dentro dos prédios uma única árvore com uma única fruta que dá milhares de frutos em um único segundo que já passou. No outro riacho uma grande panela cozinha uma criança com fome enquanto sua mãe se sente sozinha. Uma batata caminha do centro do quasar até a ponta da flecha, desce a escadaria, mergulha no riacho e se senta ao lado da mãe. Duas estrelas de ar sobem á superfície da água e continuam até tocar o céu, que é feito de vidro e de pastel oleoso.  Cinco homens pequenos se abraçam até se tornarem um único homem pequeno. Um único homem pequeno abraça a panela e come a criança. A mãe sorri e abre a porta do céu com uma tesoura-martelo. O riacho pega fogo que queima o caminho. Tem um outro caminho ainda e outro riacho e tem as escadas. A árvore abre seus olhos e o tigre ruge.

domingo, 18 de março de 2012

quando você sente medo e foge. A cabana é um castelo o lago é um rio a abelha é um dragão a estrela é sua casa. Quando você abre a porta e olha, com os olhos que sempre foram cegos, você cai. Quando você cai e sente o que julgava improvavel, você sorri e se cala.
E se todas as vozes de todas as pessoas no mundo fizessem um coro e dissessem ' assim é ' você se juntaria ao coro também. E sua voz não seria mais sua, nem suas mãos, suas mãos são da areia. Você afunda, o mar é um garoto que nunca envelheceu e segura suas mãos, a onda vem e dança, você dança também, a onda vai e depois vem e depois dança.  No céu as nuvens rodam, as nuvens são sua mãe elas dizem palavras bonitas que são todas reais mas você não acredita as palavras quando são ditas muitas vezes perdem o valor mas não necessariamente sua verdade sua pureza. A pureza as vezes não se explica as vezes é um aforismo. O aforismo é seu pai, ele te abandonou. O seu pai você vê flutuando em alto-mar. A sua alma você vê submersa, a sua mãe, nuvem que agora também é as arvores, canta pra você dormir, mas a certa idade não se dorme mais, se inquieta. Você se inquieta até não poder mais e começa a tremer, você treme até não poder mais e rodopia, você rodopia até cansar e cansa. E quando cansa, cai. E a porta pela qual entrou não está mais lá, ao invés dela está uma chave tão pequena que nem se pode ver. E do outro lado da sala uma janela que dá pro mar. Acima o mar, abaixo o céu e entre os dois apenas o negrume. Você escala o negrume e encontra sua mãe, que agora é um sabiá e te diz 'vai acontecer mais vezes' mas você só ouve um pio. Você estende sua cabeça até as aguas que te afogam enquanto seus pés caminham sobre o ar. Você morreu. Mas ainda está vivo. Você grita todas as palavras no mundo então passa a inventá-las e quando você as inventa elas te enfraquecem. Até te tornar um 'ah' e depois um velho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

a coisa

quando você era criança a coisa veio te visitar, com berros ensurdecedores e uma presença nociva, no início apenas de noite, depois no final da tarde e então logo de manhã, sua mãe dizia 'não tem nada aqui', você realmente não a via mas sabia. Você dormiu e quando acordou, a coisa tinha ido embora.
Você cresceu e chegou á adolescência, a coisa voltou, não só uma mas várias vezes, te abraçou inclusive e foi a única que esteve ao seu lado. As palavras que dizia no seu ouvido ninguém jamais poderia dizer com tanta veracidade. Um dia você abriu a janela, tinha um jardim lá, sem flor nenhuma, você não sorriu mas se sentiu bem. Virou para o quarto, a coisa tinha partido.
Você amadureceu, arranjou um emprego, um amante, um partido político e uma religião. Um dia dormiu e quando acordou a coisa estava lá de novo. Só que mais fria, não berrava mais, parecia inofensiva até, não se moveu nem um instante. Você viu os dias passarem e a coisa esteve presente em todos eles. Quando se entregava aos prantos e ao calor da cama, a coisa nem uma palavra dizia mas olhava sem piscar, para dentro do seu rosto. A coisa te tomou por completo sem sequer se mexer. O seu amante se cansou da sua coisa. A coisa te fez se cansar do seu trabalho. A sua religião não atendia ás necessidades da coisa. O seu partido desconhecia a coisa. A coisa crescia, você diminuia. A coisa silenciava, você gritava. Você chorava, a coisa sorria. Um dia você dormiu, quando acordou sentiu uma coisa.