O som do mar
Tudo era água e escuro. Ouvi a música. Ela contava uma história. Na história, eu nasceria, eu era de barro. O ar me moldaria, como as pedras, a areia e o chumbo. Eu veria no parque uma outra criança. Num aviãozinho de brinquedo que subia e descia. Os cabelos loiros, amante do vento. Eu desejaria ser livre, e flutuar. Eu seria expulso, da casa onde cresci. E iria pra um cortiço, eu moro nele. Eu era de barro, ao barro eu me fundiria. Meu corpo tomaria uma forma, tocada pelas pedras, as pedras arranham e cortam. O esqueleto se curva, e se distorce, ele é de água. O esqueleto dança, ele é de água. Os órgãos apertados em um vão, procurando um espaço, buscando uma dança. A pele é delicada, brutalizada, bruta. O desejo é gás, gás venenoso, eu nunca desejei. 300 anos se passariam. Eu conheceria o mar e ficaria encantado. Parado na costa, a água me molda. Eu fui desenhado. A geologia do corpo. Curvado, distorcido, inóspito, resistente à gravidade, premido por ela. Querendo escapar. De volta pra água e pro escuro. A música nunca cessa. O barro é sagrado. Sagradamente seria modelado. Um vaso torto guarda um cacto. Na janela de uma casa de pau e terra. Em um cortiço. Eu ouvi o mar. Eu fui envenenado. Eu jamais esquecerei.
Na madrugada, de volta pra casa, caminho olhando tudo o que o homem fez. Os postes, os portões, os prédios e a Cidade. Fogo e terra. Vejo um velhinho negro e sujo deitado na frente de uma loja fechada. Dormindo. Falando alto, delirante e com febre. Eu o toco e pergunto se tá tudo bem. Ele abre os olhos devagar, meio assustado. Olha em volta, retornando ao mundo dos vivos. Ao mundo dos mortos. Sua expressão muda rapidamente e ele sorri. Levanta as mãos, estala o dedo, e uma pequena chama surge da ponta de seu indicador. Ele me pede um cigarro, eu me agacho e dou um pra ele. "Ferro", ele diz, "Eu vi o ferro pela primeira vez aos três anos de idade, e tive medo, pavor, assombro".... "Aqui mesmo, passando com a minha mãe, de mãos dadas pra não me perder, olhei exatamente pra esse lugar onde eu estou e vi uma estátua de mim, feita de ferro. O corpo enrugado e encolhido. Não reconhecia nada, mas algo me disse o que eu já sabia, era eu. Os olhos quase se fechando, as pálpebras pesadas de ferro. Nem a chuva, nem o fogo e nem o vento me corroíam. Eu fugi, gritando e esperneando. Todos os dias depois desse dia, eu buscaria a água, eu buscaria os insetos, os animais, o campo, a terra marrom, os fungos e o trigo. Me mudei pra uma casa de madeira, perto de um lago. Morei lá por muitos anos, ali eu cresci, trabalhei, plantei meus próprios alimentos. Um dia eu te conheci e você dançou pra mim. A terra permitia que o seu corpo dançasse. Ela desejava que o seu corpo dançasse. Você não sabia de início, mas depois soube. Sua alma faminta, trincada, pesada. A terra te deixou flutuar. Ela nunca disse não. Você visitou a Cidade, os postes, os portões e os prédios. Você estudou a arquitetura de tudo o que foi erigido. Você estudou a mecânica de tudo o que abre e fecha. De tudo que se transforma. De tudo que foi transformado. A história de cada matéria presente no globo. Uma mitologia de você. Você desejou. Você teve. Um presente direto das estrelas. Uma mensagem formada na noite mais escura. Aqui é a sua casa. Proteção e abandono. A dor mais fulminante. O medo mais paralisante. Você se mexeu. Você dançou. Se tornou um ator, interpretando suas sombras. Tocando em outras sombras, milhões de sombras vivem aqui. Querendo ser ouvidas, vistas. Querendo existir, nem que seja um pouco. A sua boca sente uma sede natural pela água do rio da memória. As linhas são traçadas com nitidez, como teias de aranha, levando a outros tempos remotos. Ao momento em que você foi concebido, em que você nascerá e morrerá. O ferro derrete, o fogo é real. Uma vez eu vi a luz da lua, a lua se foi mas a luz ficou. Até hoje eu me lembro. Eu esqueço de tudo. Eu tomei a água do outro rio, do esquecimento. As palavras se perdem antes que eu possa terminar uma história. Meu corpo era de madeira, um mestre que me desenhou. Mas sua obra só ficou pronta quando eu me rebelei contra os seus desígnios. Nunca real, aprendi alquimia nos túneis e nos esgotos e me tornei ferro. Uma criatura espantosa, o mundo inteiro pararia e o Criador sentiria todo o terror e a culpa, a culpa pela criação. Quem prenderia uma criança num túmulo itinerante? Expondo ela a turistas e curiosos, matéria de livros e filmes, assunto em mesas de bar, em escritórios, nas arenas mais perversas e sutis do mundo. O homem de ferro. Um grande fenômeno, a minha maior obra. Mas lá, no túnel e no esgoto, haveria uma fila enorme, maior do que as que se formavam do lado de cima. Todos queriam fazer a transição. A vergonha dessa realização paralisava nossas línguas. Já estávamos sendo transformados, Já havíamos sido transformados. Lá em cima, o burburinho era antigo. E conhecido. Lembrei da minha visão. A estátua de ferro. As estrelas e a lua e os asteroides já sabiam. O médico que me tirou da água e do escuro já sabia. Minha mãe, a quem perdi, já sabia. Tudo sabe. Todos sabemos. O fogo não é real"
A pequena chama se apaga. Olho de novo pro senhorzinho que estava ali comigo. Mas só vejo um manequim, sentado nos degraus na frente da loja de roupas. Já é dia. Um menino que não deve ter nem seus 16 anos pega o manequim, abre a porta da loja e põe ele sentado numa cadeira que estava ali dentro. Observo pelas frestas. O rapaz é muito cuidadoso. Pega algumas roupas do estoque, um casaco, uma boina, óculos, pulseiras, sapatos.... Veste o manequim de forma muito hábil, em seu rosto nenhum tipo de emoção é manifestada. Ele percebe que eu o assisto. Vai até a porta e a fecha. Vou pra frente da vitrine, esperando o momento em que ele irá expor sua pequena obra, o corpo nulo. Seria perfeito.