Orquídea
A minha pele, que coisa. Eu olho pro meu braço, um caroço imenso, com pus saíndo e muito sangue encrostado, eu olho bem e vejo uma dançarina vermelha com vestido de noiva, dançando pelo vento, seu véu é fino demais pra resistir. Eu corro meus olhos, um corte, não profundo mas eterno, a pele que cresceu ali é diferente, é a pele de um homem bem bonito e jovem, seus olhos refletem a lua, seu cabelo é quase o oceano, sua boca é outro oceano só que de fogo e ele também dança, em torno de si. Meus olhos correm pelo meu biceps onde há uma cicatriz de uma facada que eu dei em mim mesmo pois ninguém admitiu a culpa, e é tão bela, como é bela. Me lembra o nascimento da terra, se precipitando do útero do espaço pra respirar todo o ar que ainda não tinha. Que bonita. No meu ombro falta um pedaço, mas tudo o que falta ao menos há de se completar, e por isso eu preencho o espaço com flores, orquídeas. Orquídeas subindo e se embrenhando no rombo que existe em meu coração, que me faz lembrar que sou homem, uma memória que me foge pelo buraco na testa que se abriu quando disparei o revólver. Entre o meu peito o infinito espaço e é ali que tudo de bonito nasce. Uma ave do paraíso surge por si só e dança majestosamente, impiedosamente, e eu a noto, eu a quero. Asteróides da grande destruição aproximam-se e eu pinto atmosferas em suas superfícies pra que girem como os planetas. O líquido negro que corre do meu fígado logo abaixo pavimenta o chão pelo qual ando e pinta as paredes que me observam. Lindas figuras surgem, me lembra o cosmos de novo. De novo e sempre. O negro se junta com o vermelho do sangue que escorre das minhas tripas que agora pertencem a porção externa de mim. O intestino se desdobrando pelas minhas pernas, como correntes, correntes de paixão, cheirando como as orquídeas, e eu sinto. Eu sinto. A dor. A vida. Eu deito no chão, colorido de vida. E danço sobre ele, observando as estrelas, prestes a morrer. O medo é uma bobagem, a grande mentira da vida. Eu estou vivo.
o reino mineral
Eu tenho certeza que eu já andei por aqui, o que tá acontecendo com a minha cabeça parece que tudo tá tentando fugir mas ao mesmo tempo tudo tá tentando impedir essa fuga duas forças poderossímas estão agindo sobre a mesma matéria. Uma vez eu lembro de um lugar em que eu vivia, numa grutinha com uma casa bem bonita de madeira ao lado dela, mas de fato eu nunca a vi, pelo menos não até o dia da passagem. Até esse dia, a passagem, eu via apenas pela fresta que tinha, e era dela que vinha a luz da manhã e batia num pedregulho lá de dentro e formava a imagem de um leão no solo e eu o respeitava. E como um leão falava minha mãe, que possuia o dom da profecia. Teve esse dia em que eu vi a morte durante uma noite de sono, se movendo magnificamente como a vida e eu tirei sua túnica e ela se mostrou, da vida herdou a beleza também, que me paralisou por completo em seu encanto, Quando acordei, me faltou o ar e, devia estar muito escuro lá fora porque faltou o leão também e meu espiríto me guiou até a fresta, ao mesmo tempo ele dizia com palavras pouco compreensíveis mas que agora eu entendo mais, ele dizia sem parar "isso não pode tá acontecendo" e dizia " Porque eu não fui avisado antes?" e eu respondia "do que você tá falando" e ás vezes ele voltava " Não adianta eu te dizer agora". Eu fui na fresta e senti uma fraquissima corrente de ar e esfreguei meu nariz ali. Desesperadamente. E assim, nas trevas, algo mágico ocorreu, mãos de lá de fora acariciaram o meu nariz e tinha o cheiro maravilhoso de eu não lembrava o quê. E aos poucos a fresta foi ficando maior. E o ar entrava então, primeiro de leve, depois violentamente. O que era plenamente escuro se mostrou cinza e o sol detrás das cinzas batia com rigor nos meus olhos, que se fechavam. 'Você pode me ouvir?', eu perguntei pras mãos, que apenas sorriram. E de novo dizia a voz do caos formada por ruídos compostos no interior do espírito "Eu não acredito que isso tá acontecendo, não pode ser". Eu olhei pros olhos das mãos. Elas devem ter se encantado por que me olharam de volta por horas. E tudo o que não existia antes em mim, passou a ser percebido. Elas me seguraram com delicadeza, e me levaram até a margem de um lago próximo e então disseram, com a voz da ordem formada pela harmonia composta no interior do espírito " Pergunta e olha pro lago " e ali me deixaram. Eu observei o lago, refletindo o céu, cantando uma canção que lembra o nascimento e a morte e eu vi o reflexo e nesse reflexo o meu rosto finalmente foi visto e a voz de sempre voltou e perguntou" Tá acontecendo então, o que eu faço agora?" e depois na sua serenidade incomum o lago respondeu " Tenha calma ", enquanto eu observava nas suas águas duas orelhas peludas e imensas se refletindo e dois dentões bem engraçados e assustadores também e finalmente a cor dos meus olhos.
Janus
Uma vez eu tava tomando banho e passei a mão pelo meu cabelo pra massagear e eu senti uma boca, eu apalpei pra ver o que era e senti um nariz e dois olhos e um rosto inteiro. Eu ia dizer algo mas ele falou primeiro "Bem", " Tem algo acontecendo aqui ", "Você é um câncer", "Um câncer que surgiu deve ter sido nesse dia em que eu entortei minha própria coluna para carregar o peso do medo", " E como um cavalo eu o levei ", "Sabe, eu tinha muito medo da dor", "Porque eu sentia ela bem forte", " E como eu era tolinho", " A dor trazia a desordem, eu pensava", " A desordem já existia, desde sempre, eu vi depois", "Alguma coisa aqui não me cheira bem", " Um dia eu fui num velório, e estavam todos chorando", "Eu olhei pro cadáver e ele estava rindo", "Deve doer muito pra um bebê nascer, mas deve doer mais na mãe", " Eu soube de uma história onde uma mãe nunca ouviu o choro do seu bebê, porque seu próprio grito foi muito alto e longo", "Demais pra ser ignorado", "Uma vez eu fui no santuário, e estavam cultuando um cadáver", "E o cadáver estava chorando", " Apodrecido", "Santo", "Uma legião saíria dali, aos poucos", " E jamais falariam nada mas balbuciariam - ' o Sol queima nossos olhos'". "Nós precisamos andar", "Eu preciso da sua voz, e dos seu olhos e da sua memória" , " Eu preciso que você me ame", "Do contrário, ambos morreremos"