Uma vez, durante vários dias, na tenra idade, eu vi o futuro e no futuro havia um pequeno monte e em cima do pequeno monte eu parava e ao parar eu olhava pra cima porque o vento soprava no meu ouvido e me pedia para olhar e eu ouvi o vento e olhei e quando olhei os meus olhos ficaram brancos e as minhas mãos se abriram e a minha boca se abriu e as nuvens se fecharam e das nuvens vieram raios que caíam na minha testa e espalhavam fogo pela minha cabeça e vieram trovões que junto com o vento misturavam todas as palavras pra que elas parecessem sempre a verdade e veio também a chuva que entrou na minha boca aberta e no meu nariz aberto e ao entrar inundou o meu corpo que começou a tremer e da minha boca aberta e do meu nariz aberto se expeliu toda a água e à minha frente e por detrás de mim vinham pessoas carregando baldes e enchiam seus baldes com a minha água e assim a usavam para tomar banho em certos dias.
:Cipreste
Uma vez, na idade edênica, eu abri um livro e no livro dizia que meus pés não pertenciam ao chão. Nesse mesmo dia recebi uma visita, através da janela e fora do chão, de um homem grande com um manto branco e com olhos também brancos e ele ofereceu suas mãos e eu as peguei e ele me envolveu em seu manto que o permitia flutuar sobre a cidade, os campos e as montanhas. Sobrevoamos todos eles e pude ver as florestas como um todo e a cidade como um todo dentro da floresta e todas as montanhas como parte de um todo sem fim. O homem tocou os meus olhos e o que não tinha cor ganhou cor, ele tocou meu ouvido e o que era mudo passou a dizer, ele tocou minha boca e o que era mudo passou a dizer. Nós descemos e eu vi um campo como nenhum outro campo e me lembrei do cheiro que suas flores exalavam e perguntei 'porque me lembro desse cheiro?' e ele respondeu que no parto junto de mim nasceu também o campo e suas flores e a montanha e as florestas e a cidade e o mar. Ao dizer isso ele sumiu
ao sumir eu quis voltar mas não soube o caminho
continuei andando pelos campos então, onde tudo era diferente do que eu conhecia. Andei por vários dias e por vários anos e temi que não houvesse fim....
Avistei um cipreste bebê e uma grande panela na minha frente sobre a boca de um vulcão e dentro da panela não havia nada dentro. Eu procurei pelo campo interminável a luz e os vegetais e os animais e os peguei todos e os cozinhei. E fiz isso por várias horas e na hora mais ensolarada da tarde senti uma fome imensa e passei a comê-los crus. A minha barriga ficou grande e a fome ficou maior. Eu deixei a panela e continuei andando, porém uma singela bruma foi se tornando mais espessa e à minha frente se abriu um grande precipício de cujo interior brotavam águas violentas que atingiam uma altura imensa, acima das nuvens. Eu senti medo e, do cipreste que havia encontrado uns passos atrás, extrai a cepa e com a cepa construí a minha casa no fim do campo sem fim e com mais cepa e barro envolvi as paredes da casa para que não entrassem nem a névoa nem a água.
Durante vários dias estive na casa até o dia em que ela se pareceu com a casa onde eu morava antes. Um sono insólito se abateu sobre mim e eu dormi e sonhei com um cavaleiro que trazia consigo caixas e deixava todas na minha porta, com um selo. E eu não entendia o que estava escrito lá. Eu coloquei as minhas coisas dentro das caixas vazias e esperei que ele voltasse. Ele voltou e ateou fogo em todas elas. Depois tive um sonho em que eu vinha de longe portando um relógio maciço de ouro, e me via dormindo, e colocava as mãos em meu próprio rosto e o afagava e o pedia que acordasse. E depois eu me lembro de ter acordado. E minha cabeça parecia ter se fundido à cama e a cama parecia ter se fundido ao solo e os meus olhos estavam colados mas meus ouvidos podiam escutar tudo e eu passei a ver figuras com meus olhos de dentro e entre essas figuras eu vi homens inocentes e eu vi o pai de todas as criaturas vis e uma estátua de um vampiro com trajes de santo mordendo sua própria boca e cuspindo sangue sobre os homens. Eu me dirigi até o lugar onde o som estava mais alto. Eu ouvi o som da águia e o som da cachoeira e eu fiz bastante força para que meus olhos se abrissem de novo. E eles se abriram o suficiente pra que eu visse a minha casa destruída e a panela vazia e a barriga vazia e o campo novamente à minha frente. Eu olhei ao redor e não havia mais ninguém.
:O que houve no bosque
Eu passei a procurar o que havia visto no sonho. É sagrado, disse a sequoia. Passei a procurar nos bosques o que havia visto no sonho mas nada se parecia com aquilo. Eu perguntei pra sequoia gigante se ela havia visto e ela pediu que eu desenhasse na areia e eu não consegui desenhar na areia. Ela pediu que eu desenhasse na folha e eu não pude desenhar na folha e ela pediu que eu desenhasse com a sua seiva e eu não pude desenhar com sua seiva porque sempre surgia a imagem de uma tartaruga ou de uma erva daninha. A sequoia gigante disse que muitos homens chegaram até ela com a mesma história, sobre uma visão pela qual certa vez foram acometidos e ela apontou com seus galhos para uma direção dentro do bosque e disse 'é pra lá que foram os homens'. Eu hesitei e fui pelo caminho contrário, e no caminho contrário uma sequoia gigante gêmea surgiu e apontou seus galhos e disse 'é pra lá que foram os homens '. Eu me enfurnei pelos arbustos e pelo pântano seguindo os homens que tinham sumido em seus labirintos. As folhas das árvores passaram a cobrir o sol e eu não soube mais se era dia ou noite e tudo passou a ficar úmido. Eu toquei no tronco de uma videira e uma flor se abriu e dentro dessa flor estava uma garotinha com as pernas fundidas ao estigma da flor e ela alisou o meu cabelo e passou a chorar e eu disse 'não chora' e ela disse que havia uma história que se contava naquele pântano e ela me contou a história e, ao contar, grãos de pólen pulavam de sua língua. 'Um lago', disse ela ' um lago estava calmo, suas águas alimentavam os animais e as plantas, uma vez a noite foi anormal e uma estrela imensa brilhou com muita intensidade e refletiu no lago e a água do lago se comportou como as águas do mar e fez ondas e depois um sorvedouro que assustou seus peixes que começaram a pular e cair pra fora das águas e lá se debatiam e os animais famintos saíram então das suas grutas para se alimentar dos peixes e a estrela ficava cada vez maior e o céu mais vermelho e um clarão imenso tomou a floresta e as corujas ficaram confusas e gritaram e os lobos ficaram confusos e uivaram e a estrela imensa caiu no riacho e esparramou as águas pelo bosque e o bosque se inundou e da cratera onde caiu a estrela saiu um cavalo amarelo e ele correu mais rápido que a luz e levantou poeira do solo e o solo ficou nu e revelou os animais e as plantas que morreram há muito tempo e os animais e as plantas que estavam vivos se agitaram e os animais se tornaram canibais e as plantas se tornaram carnívoras e o cavalo continuou correndo e bateu seu casco tão forte contra a raiz da sequoia que se abriu a terra sob ela e lá havia uma caverna e dentro da caverna havia uma luz e no centro da luz havia uma ostra e dentro da ostra havia uma ostra e o cavalo entrou em todas elas e a árvore gigante pendeu pro lado e sua copa cobriu a floresta e os leões cuja fome nunca findava vieram furiosos e cobriram a entrada da caverna com o corpo dos antílopes e das garças e das raposas e depois cobriram os corpos desses animais com briófitas e depois com pedras e mais musgos e a árvore tremeu como nunca e suas folhas caíram uma a uma e do lago restou pouca água e finalmente houve silêncio"
O meu corpo se cobriu de pólen e eu me sentei. Eu encarei a videira e perguntei 'pra onde nós fomos?' e apertei o dedo bem fundo contra a videira e ela disse 'ai' e eu vi lá dentro o campo que surgiu nos meus sonhos, com toda sua infinitude e eu fitei o tronco e pus minhas pernas dentro dele. A lagarta que se arrastava pelos galhos parou de se mexer. Um manto de seda unificou as árvores. A menina que estava dentro da flor virou uma fruta e eu a comi. Entrei no tronco da videira e pisei naquele solo. Eu conheci a sensação e senti medo mas continuei.