domingo, 16 de setembro de 2012
corpúsculo táctil
A luz é fraca na cozinha, é início da manhã ou fim da tarde. Eu preciso cuidar dessa coisa, um bebê. Este bebê, olhando bem agora, se parece com um besouro, um besouro peludo com patas de aranha. Eu o ponho na mesa. Minha irmã grita: 'uma aranha!!' a aranha vem correndo em minha direção, eu chego a fugir para fora, mas decido entrar e encará-la. Piso nela com força, mas nada acontece. Ela consegue sair e dá um pulo imenso. Penso 'parece o meu bebê'. Olho para a mesa, ele não está mais ali. "Onde está o bebê do qual devo cuidar?', pergunto, ninguém sabe. Tiro os móveis do lugar, olho nos cantos da cozinha, em todos os vãos e frestas. Olho para cima da mesa novamente, tem um besouro lá. Não pode ser o meu bebê. 'Que lugar estranho é este?', digo. Por que não há luz? Eu ouço uma conversa lá fora, lá fora, bem longe, não, mais distante. Isto é um sonho! Mas eu acabei de acordar! Isto é um sonho. Eu acordo.
A carta do ator
Um belo dia tudo está estranho. É dia de trabalho, o primeiro da semana. Eu saio. Chego ao ponto de ônibus e espero. Algo me diz para olhar para baixo, eu olho: "onde estão meus sapatos???'. Eu rio. Que situação! Volto pelo mesmo caminho de onde vim. Na frente da minha casa, um ônibus. Percebo que não há ninguém lá dentro quando olho pela janela, no entanto, ao entrar, vejo que está cheio. Eu subo. Todas as pessoas me olham, mas de algum modo eu não sinto pânico. 'Este é o meu lugar', penso, então escolho um banco e me sento. O ônibus segue adiante. Quão estranhos esses caminhos, as árvores não tem cor de árvore, a estrada desaparece às vezes e a cacofonia soa como violino. Um passageiro, que não estava lá quando entrei e não subiu enquanto eu estava lá, se aproxima: 'certamente, muito certamente, as coisas bonitas se esconderam, então numa certa manhã, ou num certo dia de chuva torrencial, apareceram como se estivessem camufladas, desenhadas entre as superfícies de todas as coisas cotidianas. Aquela linda águia, seus olhos estavam entre o branco das nuvens e o laranja do pôr do sol, suas asas se dissolviam entre o cinza dos muros quebrados e a transparência das coisas que os olhos não podem interpretar. Suas garras malditas enterradas no solo, e sua penugem delicada espalhada entre os objetos que nada significam.", no que conto "Deve então haver mãos, por aí ao esmo, tocando as coisas e as pessoas, passando suavemente o dedo em seus peitos e a palma em suas faces. Essas mãos devem ter olhos também, e esses olhos devem encarar, entre os muros cinzas e tudo o que não é percebido". Olhei para fora, as árvores tinham cor de árvore, a estrada não havia desaparecido. Ele continuou "Presta bem atenção nisso, vai ter uma noite em que você precisará vingar o sono. Vai ter um dia em que você precisará se vingar da vigília. Olhe bem para frente, não na parede que te cerca, ou qualquer outro objeto no seu campo de visão. Olhe bem. Você não precisa estar de olhos abertos. Olhe bem. Veja o escuro. Meu filho tinha morrido. Nós o enterramos. Na terceira noite após sua morte, eu ouvi um grito agudo. De longe, mais longe. Eu corri pela chuva, eu corri pela lama e pelas pedras. Eu cheguei até o seu túmulo e abri o caixão. Lá dentro estava meu filho, desesperado, não conseguia fechar os olhos ou a boca. Me suplicou 'pai, me tira daqui', eu já havia aberto o caixão e o tirei de lá mas ele insistia 'pai, me tira daqui'. Eu não podia mais aguentar, aquela visão horrível. Voltamos pelo mesmo caminho, pela lama, pela pedra e pela chuva, o carreguei pelos braços com muita dificuldade. 'O que há meu pai? Me tira daqui de dentro!', eu comecei a tremer, não conseguia me controlar. O meu filho - algo nesse momento me escapou - o meu filho começou a partir no meio, como se houvesse um zíper que ia da sua cabeça aos seus pés. Algo saiu de lá de dentro, eu não sei o que foi, mas ele não gritou mais"
A carta da cicatriz
Aos cinco anos fui para essa casa. Lá, crianças de todo o tipo, poucas crianças, mas de todo o tipo. A senhora desta casa raras vezes aparecia, mas sua voz ressonante ecoava pelas paredes: "nesta casa, vocês se bastam". Que crianças mal encaradas, eu pensava.
Nas terças-feiras aprendiam a mover a cadeira com os olhos. Levavam o dia todo, algumas crianças ficavam até a quarta. Conheci uma que me contou que foi numa terça-feira, há uns quarenta anos e repetia: "não existe nada melhor. Nem tão vivo. Nem tão urgente".
Minha primeira tarefa foi descobrir a figura correta num conjunto de cem figuras. E fazê-lo por mais cem vezes. Isto é difícil, pensei, porém posso seguir. O meu instrutor tem a aspereza das coisas esculpidas com força até a exaustão e o rosto das coisas que não precisam expressar mais nada. "O que você me ensina", disse a mim mesmo, "eu poderia viver sem aprender." Agora já não posso.
Nas sextas-feiras aprendemos a ver as coisas como elas são e transformá-las em coisas que queríamos que fossem. Muitas crianças já entram sabendo fazer. Conheço uma que me diz bem baixinho " Eu não consigo ver aquilo como aquilo é, então ás vezes digo que é um belo frango quando estou com fome ou o busto de Deus quando estou com medo, eles acreditam e eu não sou castigado "
A noite neste lugar é desconfortável, cadeiras voam por todos os cômodos, os sofás e as lâmpadas começam a conversar, a própria casa se permite uma frincha e dá para lugares estranhos dos quais nunca se volta. Algumas crianças acordam e tentam sair, mas ficam presas no peridomicílio, não conseguem se mover e entram em desespero. Quem é a senhora desta casa? Que cor estranha é essa? Eu me sinto sufocado, tudo se torna denso. O próprio ar está tão cheio de coisa. Tudo converge, eu sinto na minha pele algo rompendo, e nos meus olhos, o sangue. Quem é a senhora desta casa?
A carta da anomalia
Sim, algumas pessoas se levantavam durante a noite, pois sentiam o cheiro do gás e o badalar dos sinos. Porque ouviam sussurrar seus nomes, ou uma doce promessa. Levantavam porque alguém parecia em perigo. Iam até a janela e pairavam. Lá fora, a cidade. Nenhuma das luzes foi dormir ainda.
Não há de se acordar cedo amanhã. Nos sentamos no quintal, entre as árvores. A madrugada é o deus das coisas primitivas. Nós somos os primeiros homens, não há história pra se contar, contamos ainda assim.
De um rapaz que ao voltar para casa depois de cumprir uma tarefa laboriosa, foi diminuído. Três outros rapazes com sentimentos nobres lhe batiam no rosto. E depois na barriga e nas costas. Faziam-no sangrar a todo custo. Pisavam nas suas mãos e rasgavam a sua boca. Apertavam sua genitália e seus olhos. Puxavam sua orelha até ouvir-se o rasgo. E o rapaz não chorava por que não dava tempo. Havia algo maior, algo tão grande. Os três, depois de muito tempo, foram embora. O rapaz deixou-se deitar ali mesmo por algumas noites, sem fechar os olhos. Ele descobriu uma coisa, uma coisa que o fez estremecer, que o deixou calado e em alerta. Enquanto o deus das coisas primitivas cantava bem rouco:
''são homens,
são homens...
deixemos que seja"
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