segunda-feira, 30 de julho de 2012

domingo

Era noite quando deixei o lugar que vivia, assombrado por vozes desconhecidas, que produziam frases desconhecidas com palavras conhecidas, em cujo interior morriam tantas outras e elas próprias. Era dia quando deixei o lugar que vivia. Um caminho coberto com pedras á minha frente e se eu ousasse olhar ainda  assim veria sua inclinação, para o céu e depois para o nunca. Era dia quando o segui.
Já eram dez passos dados quando a primeira flor gigante rasgou o chão e prostrou-se no caminho. 'onde vai agora não tem destino, não tem resposta' no que respondi 'não sei' no que retrucou 'está dito' e então voltou para o fundo da terra. Algumas pétalas da flor maldita entraram nos meus olhos e o seu perfume era o dos defuntos que levaram consigo mais vida do que já vivi. Alguns outros passos e vem o gavião sorrateiro, gigante do tamanho de um navio naufragado - 'eu sei muitas coisas, aprendi com homens que sabiam muitas coisas dentre as quais nada sabem' onde perguntei -'de onde você vem há algum lugar que se queira ir?' -' há ainda esse lugar, ele dorme' -'e suas asas?' -'não enxugam meus olhos'.
Na terra verde, havia casas adiante, havia pessoas nas portas das casas, havia uma casa em particular, tão parecida com a casa da minha infância, que desapareceu numa bela manhã e a qual procuro para sempre 'é esta casa, a casa de todas as manhãs' Sai uma senhora de 400 anos e sua irmã de 400 anos -'Esta casa é a casa da noite eterna, foi onde matei meu corpo e ele se regenerou em segundos' -'que ainda faz viva?' -'vingança' -'este solo é infértil' - 'todos são, no entanto o fruto que alimenta a mim e aos outros homens é o fruto do nada e do óbvio' e a voz ressonante de sua irmã completa 'há algo no nada e no não nascido que sacia uma fome aguda que um dia começamos a sentir, meu estomago apertou tanto que olhei pelo campo e no lugar do nada vi uma parede e dentro dessa parede mil bacias que dois anos antes eram apenas ostras, e então pérola alguma, a pérola estava atrás da parede que por acaso não estava ali' a primeira prosseguiu -'apontei para o céu e não soube se estava apontando para a cor ou para a forma, ou para a palavra ou para mim mesma, eu descrevo coisas com o intuito de explicá-las e então eu as compreendo, na sua total incompreensão, e vejo que não apontei nunca para algo mas todo o algo,as formas, as cores, as texturas, as estranhezas e as ambiguidades, se apontava para o meu dedo', me convidaram então para entrar e tomar um chá -'não posso há tanto caminho' -'há sim' e trouxeram o chá. Enquanto segurava a xícara, me olhavam com o olhar fixo, num momento tão breve percebi que estavam mortas, que nunca estiveram vivas -'nunca', disseram em uníssono. O chá, que chá ruim, não tinha gosto de chá, tinha gosto de lombadas, eu tentei me lembrar do gosto de chá e ele morreu, o gosto, comigo há uns tempos atrás. -'este é o tempo de novos chás!'. Essas senhoras sabem tudo, eu penso, elas veem as minhas palavras não ditas se formarem em meus olhos e eu me pergunto se elas movimentam minhas púpilas ou se minhas púpilas as guiam. Minha mãe disse algo sobre um homem que podia ler pupilas em cada minimo movimento delas, que havia uma palavra dada para cada estado e posição da pupila, mesmo que nada significasse a palavra. Uma das senhoras me contou, com voz de uma doce menina' estamos aqui do seu lado pois precisamos de você aqui, nos sentimos solitárias, em duas, e nos sentiríamos também em três, por isto vamos reparti-lo em dois, para que cada metade possa nos mostrar o infinito', a outra continou -'você parece a gente quando jovem e talvez além disso, a gente quando imortais'. Eu senti medo e ela soube, através das minhas pupilas -'esse medo não é o maior dos medos, entretanto todos os medos são os maiores medos' -'se eu vivesse até os 400 anos meu maior medo não seria maior que o meu medo primeiro ainda assim, me sentiria sem ar'. Não há ar. Fui embora.
Atrás de mim, bem atrás, ouvi o estrondo que era o da flor que rompe o chão, lembrei das suas pétalas, que arderam meus olhos antes e que agora eram eles próprios e continuei. Um cavalo de carga veio até mim apoiado em suas patas traseiras, lentamente, e me propôs -'se você olhar bem um homem', respirou tão fundo quanto pôde -'se olhar bem para um homem, verá cada átomo seu, e após isso cada particula que os compõe' respirou -'e se for da sua vontade olhar ainda mais, verá mãos, e pernas, e também uma estrada, se continuar, verá seus olhos e, se ainda ousar, verá lágrimas', e então se pôs ás quatro patas galopando tão lindamente pelo caminho que hei de seguir.
Encontro uma bifurcação, que sempre soube que apareceria em algum lugar, ouvia uma lenda antes que dizia que as crianças nasciam nas bifurcações e que os pais eram o vento e a tristeza. Acima de mim percebo uma estrela que existiu há uns bilhões de anos atrás e que hoje é somente a luz da sua memória. Essa estrela ainda existe. Enquanto ando, percebo que não sei pra onde estou indo ou como cheguei até ali, sinto uma força constante e caótica me puxando para um lado e para o outro. As pedras riem. Eu me abaixo e as tateio, tateio toda sua solidez inanimada, então uma pequena pedra protesta -'tudo no cosmo tem vida'. Eu sento ali e me pergunto, e pergunto também ás pedras, que agora tem vida -'o que eu quero?' -'você quer o fim do caminho' -'e o que há lá?' -'lá há você' -'e o outro?' -'o outro não há, não há nunca, sobre o outro você anda' -'mas eu estou aqui' -'não está, nós te tateamos e sentimos a solidez inanimada do seu eu, você está longe como qualquer pessoa que passa por aqui' -'quanto ainda devo andar?' -'você deve apenas andar'. As pedras então se enterram na terra molhada e uma única, a mais rudimentar de todas sussurra -'uma hora você pensará ter amado, sem nunca saber que há uns tantos milhares de fetos no útero dessa palavra e que todos são monstros dentro dos quais você assoprou vida. Você corrompeu, e estuprou. Seus filhos nascerão sem olhos'.
Andei, e ainda sentia essa força que move todas as particulas, aleatoriamente em alguma direção.